Menezes no PSD…

Contra o que tinha sido dado a entender nos últimos dias como o mais provável, Luís Filipe Menezes ganhou as eleições no PSD com 44% dos votos contra os 32% de Luís Marques Mendes. Confirmou-se o pior cenário possível e não consigo ver nada de positivo nisto.

 

Não que eu me revisse em Marques Mendes, nem que o populismo de Menezes seja o que mais me preocupa. O que me preocupa mesmo são as ideias que traz. Perdi o debate televisivo mas pelo que li não perdi nada, não houve ali nada de novo ou sequer de interessante. Por isso continuo a basear-me nas entrevistas do público que referi há uns dias atrás. E logo aí Menezes parece-me claramente a pior opção possível. A ideia que fica é de mais um representante de uma política populista de vistas curtas e sem ideias sólidas, apostada em manter e até aumentar a promiscuidade entre entidades governamentais e certos sectores. Menezes tem dado todos os sinais ter como visão do papel dinamizador da economia do estado os dinheiros públicos a alimentar interesses privados. [continua..]

 

Logo quando interrogado sobre o que fazer na educação, mostrou grande empenho na ideia de «um concurso nacional de construção de um parque escolar completamente renovado» que teria um «modelo de construção/gestão por 25 anos». O objectivo seria «desencadear uma definitiva mudança estrutural do sistema». Lá mudanças estruturais haveriam, mas penso que apenas numa interpretação muito literal de ‘estrutural’ que não resolve os problemas reais. E arrepia-me esta promessa de seguir a direcção de grandes investimentos estatais que continuam a estimular artificialmente a construção, uma área já por si inflacionada e que deveria entrar naturalmente em remissão para evitar um choque maior para o país no futuro. Mas para Menezes, «o investimento público assente no magnífico trabalho de pensamento estratégico desenvolvido pelo grupo promotor do sector da construção asseguraria um investimento auto-sustentado de cerca de 50 mil milhões de euros na próxima década». Ver o sector da construção como a grande aposta para o país é revelador tanto de falta de visão estratégica e como de clientelas pouco recomendáveis. Menezes pode merecer os rasgado elogios que tenho ouvido quanto à obra feita em Gaia. Mas não pode ser esquecido que se trata da autarquia mais endividada do país, e que a dinamização da cidade dificilmente conseguirá amortizar os mais de 230 milhões de passivo num futuro próximo.

 

A resposta na questão do financiamento dos partidos não me acalma nada: «o financiamento privado deve ter plafonds mais alargados e realistas, mas, em contrapartida, devem ser introduzidos benefícios fiscais substantivos a quem, dessa forma, apoia o financiamento do sistema democrático». Com os casos Portucale e Somague-PSD ainda a aguardar desfecho, esta abertura sem reservas a dinheiro de empresas a suportar partidos não augura nada de bom. E achar que isto deve ser encorajado com benefícios fiscais para o bem da democracia, faz-me tremer um bocado.

 

Na saúde, vem a preocupante tendência para empurrar o SNS para uma obscura área cinzenta entre público e privado:«deve assentar progressivamente numa rede de prestadores que devem ser progressivamente privados nos cuidados primários». Instalou-se uma ideia de que os serviços privados se tornam automaticamente mais eficientes que qualquer serviço público possível pelo simples facto de serem privados. A experiência conta que no caso da saúde esta fusão resulta no pior dos dois mundos. Já vi este modelo resultar em ‘racionalizações’ de custos tão ridículas como cortar no papel higiénico e nos jornais diários em salas de espera. A única coisa a esperar desta promíscua união é a diminuição da qualidade de serviços prestados de forma a aumentar lucros na entidade administradora (privada e com as suas ligações à esfera política). Profissionalização não tem de ser privatização.

 

Para Menezes enquanto opositor de Sócrates nem a lei orgânica da investigação criminal, que coloca o primeiro ministro no topo da hierarquia da investigação, merece a mínima crítica do líder do PSD. Quanto ao pacto de justiça é fácil ver o lado populista a vir ao de cima quando fala da «libertação de homicidas, pedófilos e violadores» como resultado da legislação. E quando a solução passa pela «introdução de vectores de auto-avaliação da produtividade», tudo indica que Menezes não seja minimamente capaz de protagonizar uma oposição séria ao governo, que não deixe passar questões sérias de princípios, sem demagogia e com soluções concretas e realistas para questões técnicas.

Marques Mendes, embora sem a retórica inflamada que lhe permitisse ser o líder indiscutível da oposição aos olhos do seu partido, mostrava por vezes alguma sensatez em relação aos problemas e eu até apreciava o estilo mais sóbrio. Mas Menezes parece ser o arquétipo do sistema político moralmente decrépito que entorpece o país. Menezes, apoiante de Santana e apoiado por Martins da Cruz. Símbolos das duas forças mais aberrantes na política: o populismo aliado a trafulhice, e a trafulhice só por si. Vou entrar em negação e tentar acreditar que se calhar Menezes não é tão mau como o pintam, e que chegada a altura de votar haverão duas hipóteses de governo, que não houve uma porta que se fechou com as eleições do PSD. A indignação que prossiga nos posts do Abrupto sobre o tema, sob o nome de Ornithorhynchus Paradoxus e com a bandeira invertida. O PSD de facto já não é carne nem é peixe.

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