A revolução parece ter sido adiada por tempo indefinido.
Olhando para página da BBC com a cronologia da Birmânia, a entrada de Outubro revela a mudança em relação ao espírito de Setembro:
«2007 October – Normality returns to Rangoon amid heavy military presence. Monks are absent, after thousands are reportedly rounded up.»
O mesmo tom por todos os media. Tudo indica que a revolução perdeu o momento.
Revolução falhada. Um artigo fala de uma ‘tensão de cortar à faca’ em Yongon, mas a leitura revela que é só o medo. Com milhares já encarcerados, as forças militares continuam a fazer rusgas nocturnas para levar quem quer que suspeitem de animosidade contra o regime. Muitos monges abandonam a cidade rumo às zonas rurais.
Tentam tirar-se conclusões, descobrir as razões do fracasso, e surge a receita para uma revolução bem sucedida. Só tiro uma conclusão: uma revolução pacífica pressupõe um certo respeito por um ser humano. Quebrado este elo de empatia entre as forças do regime e os súbditos acossados, só uma pressão externa capaz de ameaçar o centro de poder pode dar esperança. Não parece ser o caso.
Tom White, adido cultural do Reino Unido na Birmânia em 1988, fala da estranha batalha numerológica entre a junta e a oposição (BBC). A ditadura vê no 9 o seu número da sorte, a oposição crê no 8. As datas escolhidas por cada lado parecem corroborar a teoria. Quanto ao que se passa na cabeça da junta:
«Their perceived duty is to suppress the democracy movement, whatever the cost in human suffering, for the greater good of the nation. In their own eyes, and encouraged by their astrologers, this is a virtuous action. »
Longe de ajudar a resolver o conflito pacificamente, como tinha sido avançado inicialmente, a religião pode agravar o distanciamento entre governantes e o povo. Isabel Arriaga e Cunha também fala (no Eurotalk) da sua experiência em 1988, durante apenas uma semana por imposição do regime, com fim no dia em que a repressão começou. Uma visão mais próxima do povo e das baixas patentes, que também é importante.
Com forte presença militar nas ruas, as pessoas parecem retomar as suas vidas. A repressão aparenta ter sido bem sucedida. Um oficial birmanês desertou para a Tailândia por não querer matar monges, e revela em entrevistas as ordens explícitas para espancar e matar. Mas esta deserção é um caso isolado e não há sinais de vir a ser repetida num futuro próximo. Números oficiais fecham a contagem de mortos em pouco mais de dez, embora fontes independentes digam que o número real poderá ser bem superior. A Democratic Voice of Burma fala em 183. Vendo as imagens de Kenji Nagai, o jornalista japonês abatido por militares birmaneses, transparece a casualidade com que uma morte pode ocorrer quando os protestantes são dispersados:
O Japão juntou-se ao coro dos protestos, e há quem afirme que tem poder negocial enquanto principal fornecedor de ajuda humanitária para a Birmânia. As autoridades ameaçam retirar o apoio mas a junta militar não deve estar minimamente preocupada.
A China é que parece ter feito a escolha acertada. Esperaram, empataram, saem por cima. ‘Estabilidade’ não parece ser um problema para já. Sobra apenas um pequeno receio de boicotes nos jogos Olímpicos, mas até lá é bem provável que a coisa passe.

UE reforça sanções, mas com China, Índia e ASEAN a alimentar o regime a eficácia desta medida é duvidosa. A tentativa do Conselho para os Direitos Humanos da ONU de condenar a junta perdeu o tom de condenação, perante a pressão da China e da Índia. No Conselho de Segurança, China e Rússia barram qualquer resolução com significado. Quanto ao enviado da ONU, de volta com o relato do que se passa, a fotografia do aperto de mão com a líder da Liga Nacional para a Democracia não deixa prever grandes desenvolvimentos. A expressão de Aung San Suu Kyi é mais grave que o costume, contrastando com o leve sorriso de Gambari. Voltando a Tom White:
«the world’s democracies should mobilise the resources of their intelligence agencies, rather than soothing their consciences by imposing further useless economic sanctions (unless these can be extended to China, India and Asean, when they really would have an effect). »
Não, na China ninguém toca. Mesmo que existisse alguma vontade real de impor sanções à China, a situação actual da economia seria mais do que suficiente para impedir essas aventuras. O Rocketboom (em baixo) também se debruça sobre a Birmânia, com um bom resumo dos acontecimentos. Mais curioso é ver que o Jim Carrey acredita que inundando a caixa de correio das Nações Unidas se consegue uma acção por parte do Conselho de Segurança. Eu até sorria com tanta ingenuidade se não tivesse ficado deprimido. Mas é bom saber que abundam maneiras de apaziguar a consciência com a ideia do poder popular. Pequenos gestos reconfortantes que vão obrigar os ‘world leaders’ a mudar o mundo. Enfim, ilusões da democracia que não se aplicam para lá das suas fronteiras.
Relembrando a batalha entre o 8 e o 9 na numerologia das duas facções, 2007 soma 9 e é o ano do regime. Para o ano pode ser diferente. Talvez por Agosto o povo Birmanês decida que é altura de arriscar-se a um novo massacre. Talvez três 8 sejam o equilíbrio. Mas para mim, que já não consigo aderir a superstições, é complicado manter alguma esperança.


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4 respostas até agora ↓
Putin, Vladimir Vladimirovich « a mansarda // 7 Novembro, 2007 às 4:40 |
[...] democráticos. É emblemática a acção combinada dos dois países no conselho de segurança a bloquear qualquer acção na Birmânia. A Rússia protegia assim os seus negócios de armamento com o regime enquanto a China mantinha a [...]
Revolução Birmanesa (4) - vigílias, imprensa e casamentos « a mansarda // 8 Novembro, 2007 às 0:18 |
[...] Outubro 8th, 2007 · 1 Comment posts anteriores: [1] [2] [3] [...]
Gandhi « a mansarda // 31 Janeiro, 2008 às 0:47 |
[...] a resistência pacífica não é uma fórmula infalível. Prova a superioridade moral de quem luta contra a injustiça. Cabe ao resto do mundo cumprir a sua [...]
Revolução iraniana? « a mansarda // 23 Junho, 2009 às 2:56 |
[...] Resta-me acrescentar que uma parte significativa das ondas humanas enviadas sobre campos minados eram menores desarmados encarregues de encontrar uma arma no campo de batalha. Mesmo que haja vontade na população de levar a mudança mais longe (há pelo menos uns laivos disto), se for posta em causa a revolução islâmica a repressão terá outra magnitude. Não me esqueço da última vez que pensei estar a ver uma revolução, nem da forma inglória como acabou. [...]