a mansarda

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Gandhi

30 Janeiro, 2008 · Sem Comentários

«It’s not me. It’s the principle.»

«For this cause I too am prepared to die, but for no cause, my friend, will I be prepared to kill.»

Mohandas Gandhi, a quem chamaram Mahatma (e se alguém merece o título é ele), foi assassinado há 60 anos, a 30 de Janeiro de 1948. A efeméride fez-me pensar não só no legado de Gandhi, mas também na forma como outra das referências maiores do pacifismo é encarada: porque é tão complicado a um cristão compreender que Jesus foi também um homem. Talvez não apenas um homem, mas um homem como Gandhi.

Ambos quiseram elevar a Humanidade a valor essencial e universal. Mas Jesus foi colado à religião monoteísta em que nasceu. De Cristo criaram o cristianismo, com qualidades e defeitos unidos de forma indissociável por virem de Deus; de Gandhi ‘apenas’ o pacifismo, a entreajuda e a democracia podem ser extraídos. As ideias-chave só por si, porque valem só por si. Não pela vida eterna mas pela posteridade.

Infelizmente, a resistência pacífica não é uma fórmula infalível. Prova a superioridade moral de quem luta contra a injustiça. Cabe ao resto do mundo cumprir a sua parte.

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728 dos 774 prisioneiros enviados para Guantanamo passaram por Portugal

29 Janeiro, 2008 · Sem Comentários

«As nações da Europa, aberta e correctamente, dissociam-se de Guantanamo. De facto, até vozes americanas muito poderosas, como a do ex-Secretário de Estado americano, Colin Powell, pedem agora o seu encerramento. É então algo preocupante descobrir que eu, e centenas de outros como eu, fomos transportados em correntes, com máscaras na cara, de ouvidos tapados e capuzes, sobre território português antes de chegarmos à prisão mais célebre do mundo.» - Moazzam Begg, cidadão britânico libertado de Guantanamo em 2005 (ref)

The Journey of Death - Over 700 Prisoners Illegally Rendered to Guantanamo Bay With the Help of Portugal é o título do relatório publicado hoje pela Reprieve. As conclusões são peremptórias: segundo Clive Stafford da Reprieve, sem a cumplicidade de Portugal nenhum dos 728 prisioneiros teria chegado a Guantanamo. O relatório da ONG contém uma lista com os nomes dos 728 prisioneiros transportados através de território português, incluindo fotografias e testemunhos de alguns, bem como os registos de voo obtidos por Ana Gomes em 2006 que revelam 94 voos com origem ou destino em Guantanamo e escala na base das Lajes, nos Açores, entre 2002 e 2006. O relatório revela ainda que pelo menos 9 dos prisioneiros terão sido torturados em prisões secretas da CIA antes de serem enviados para Guantanamo.

A Procuradoria-Geral da República afirma que a decisão final do inquérito crime aberto em Fevereiro de 2007 será conhecida dentro de dias. Aguarda-se a revelação de quais os papéis de Durão Barroso (perdão, José Manuel Barroso), Santana Lopes e José Sócrates nesta colaboração com a violação de direitos humanos - com especial ênfase para o primeiro.

[Já agora uns pormenores em relação à forma como a SIC deu a notícia. Para além de a citação de cima ter sido atribuída ao ex-prisioneiro errado, apesar de os eventos se terem passado nos Açores a edição da noite - ver vídeo - abriu a notícia com uma imagem Google Earth da Madeira... não é bem a mesma coisa.]

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Acudam que estão a censurar o Papa!

26 Janeiro, 2008 · Sem Comentários

« Quando se fecham a Bento XVI as portas de uma universidade, impedindo-o de falar, é sinal de que alguns praticam tudo o que no passado criticaram à Igreja. E ainda se orgulham disso…

(…) No tribunal de “La Sapienza” foi um Papa que quiseram colocar no lugar de Galileu, e foram cientistas que fizaram o papel do acusador de então, o cardeal Roberto Bellarmino, porventura mostrando ainda menos compaixão.» - José Manuel Fernandes, editorial no Público de 17/Jan

Em nome do ateísmo, peço desculpa por terem condenado o Papa a prisão domiciliária até ao fim da vida (apesar de ele ter uma bela casa) e que tenha sido publicada uma lei a impedir qualquer pessoa de reproduzir as ideias de Bento XVI. Mostro o meu desagrado pela forma como os carabineri reprimiram brutalmente a manifestação de apoio ao Papa. Mas vamos voltar à realidade, já que nada do que foi escrito nesta entrada até agora (citado ou não) foi verdade… (more…)

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A má fé de Dinesh D’Souza

25 Janeiro, 2008 · 1 Comentário

Dinesh D’Souza foi galardoado pela New Humanist com o Bad Faith Award de 2007 (notícia via Obscene Desserts). D’Souza (o nome aportuguesado deve-se aos pais de Dinesh serem de Goa) é um católico fervoroso que foi conselheiro de Ronald Reagan em 1987-88.

O prémio deve-se em primeiro lugar ao livro que lançou no ano passado, The Enemy at Home: The Cultural Left and its Responsibility for 9/11. Neste livro D’Souza argumenta que a “esquerda cultural” é responsável pelo 11 de Setembro. D’Souza dá como exemplos dessa “esquerda cultural” pessoas como Noam Chomsky e organizações como a Human Rights Watch e a National Organization for Women. Como?

«I am saying that the cultural left and its allies in Congress, the media, Hollywood, the nonprofit sector and the universities are the primary cause of the volcano of anger toward America that is erupting from the Islamic world. The Muslims who carried out the 9/11 attacks were the product of this visceral rage—some of it based on legitimate concerns, some of it based on wrongful prejudice—but all of it fueled and encouraged by the cultural left. Thus without the cultural left, 9/11 would not have happened.» - Dinesh D’Souza

Ainda em 2007 Dinesh D’Souza lançou outro livro, What’s So Great About Christianity (que deve ser a sequela do seu anterior What’s So Great About America). As conclusões do livro parecem-me um pouco dúbias (no mínimo):

  • O cristianismo explica melhor o universo e as nossas origens do que o ateísmo [tenho mesmo de reler o Génesis, aparentemente escapou-me alguma coisa]
  • O ateísmo é uma crença “demonstravelmente perigosa” e “cobarde” [!!]
  • O cristianismo não é minimamente incompatível com a ciência, o ateísmo é que é [!!!]
  • Os ateus têm medo da teoria do Big Bang [tenho de admitir que o homem tem imaginação]
  • Não podemos ter a civilização ocidental nem nenhum dos seus aspectos positivos sem o cristianismo que a originou [parece que a civilização helénica não teve nada a ver com isso]

Tudo isto há de ter contribuído para que Dinesh D’Souza ultrapassasse o favorito inicial, o incontornável Papa Bento XVI, que ainda no ano passado voltou à carga contra o humanismo secular alegando que foi o ateísmo o responsável pelas “maiores formas de crueldade” (ideia ecoada por cá pelo nosso cardeal querido D. José Policarpo, para quem “Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade”).

Os nomeados incluiram ainda nomes de peso como Chuck Norris, por ter afirmado que se fosse presidente iria “tatuar uma bandeira americana com as palavras ‘In God we trust’ na testa de cada ateu”, o bispo de Carlisle, já aqui referido por ter afirmado que as cheias no Reino Unido foram a paga divina pela postura do país face à homossexualidade, a igreja baptista de Westboro, conhecida por slogans como “God hates fags” e “Thank God for dead soldiers” (ver vídeo), ou ainda o arcebispo católico de Moçambique Francisco Chimoio, com a sua teoria de que a Europa estava a produzir preservativos infectados com VIH para exterminar os africanos.

Estão abertas as inscrições para 2008. No Obscene Desserts é desde já avançado o nome de Jonah Goldberg pelo seu livro Liberal Fascism, onde argumenta que o Nazismo foi um regime liberal de esquerda. Já tinha visto esta ideia nalgum lado

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Do Desassossego

21 Janeiro, 2008 · 1 Comentário

[Este espaço tem sido muito negligenciado em Janeiro, mas isso deverá mudar nos próximos dias.]

Para já fica a recomendação da peça Do Desassossego, criada a partir do Livro do Desassossego de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, em cena no teatro da comuna até 8 de Março. A sinopse é um bocado enganadora no que diz respeito à música:

«Fernando Pessoa, ele próprio , será o musico , sem palavras, mas que através da execução musical de temas originais e, recorrendo aos mais variados instrumentos, preencherá silêncios , anunciará as mudanças marcará os ritmos- maestro por excelência – dos seus heterónimos.

O actor, representará seis personagens que compõem o imenso caleidoscópio de vivências que “O Livro do Desassossego” propõe; O Escriturário , A Criança , O Mendigo , O Palestrante , Homem/Mulher, Revoltado.»

Penso que isto é um exagero do papel de Hugo Franco, o músico. Fica então a minha sinopse: Hugo Franco enquanto Fernando Pessoa, ele próprio, lê o prefácio e a partir daí Carlos Paulo encarna o Livro do Desassossego. O trabalho de Hugo Franco na peça limita-se à inclusão de efeitos sonoros aqui e ali, e dar igual importância ao músico e ao actor é extremamente redutor em relação ao trabalho de Carlos Paulo. O actor é o centro da peça e fez por merecer a longa ovação (de pé) que recebeu no fim - tudo o resto são pormenores.

Quarta a sábado às 2130 e domingo às 17h até 8 de Março. Quartas e quintas a 5€. Sexta a domingo 7,5€ para estudantes e terceira idade e 10€ para o resto. Vale a pena.

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De volta ao nazismo

15 Janeiro, 2008 · Sem Comentários

A entrada sobre o mito do nazismo ser um regime ateísta não foi suficientemente clara. O objectivo não era associar o nazismo ao cristianismo ou ao Vaticano. Espero já ter deixado claro que não aprecio este tipo de comparações gratuitas quando César das Neves tentou associar a despenalização do aborto ao nazismo (apesar de o regime combater activamente o aborto). O objectivo da entrada era simplesmente afirmar que não faz sentido associá-lo ao ateísmo (o que José Manuel Fernandes fez com leviandade) usando a propaganda e acções do regime como prova. Não faz sentido associar um movimento que é contra o dogmatismo a um regime totalitário dogmático, muito menos no caso do regime nazi que apelou de forma clara à religião para promover os seus ‘valores’. “Hitler tinha fortes convicções religiosas e usou o cristianismo como catalisador”, esta foi a frase central e as citações que se seguiram visavam apenas reforçar este ponto e não alinhar a igreja com o nazismo.

Convém ainda salientar que o “cristianismo positivo” que Hitler defendia não é o cristianismo típico, já que Hitler via Jesus como um “combatente ariano” que se insurgiu contra os judeus, e detestava os aspectos pacifistas da cristandade. Acredito até que se Hitler tivesse tido oportunidade, teria acabado por erradicar a igreja católica para substituí-la por uma igreja estatal em que ele seria uma figura central. Espero que tenha ficado tudo mais claro. Gostava que acabasse esta tendência por parte de algumas pessoas religiosas para considerarem o nazismo um resultado do ateísmo, isso está muito longe da verdade, e antes de acusarem o ateísmo teriam de acusar a religião. Culpem antes o racismo, o nacionalismo exacerbado e o autoritarismo, faz mais sentido.

Categorias: [à parte]

Novo Aeroporto de Lisboa: LNEC escolhe Alcochete

10 Janeiro, 2008 · Sem Comentários

 O estudo do LNEC sobre a localização do novo aeroporto considera a hipótese de Alcochete “globalmente mais favorável” do que a Ota, do ponto de vista técnico e financeiro, e o governo irá seguir as recomendações do estudo. José Sócrates anunciou ainda que a terceira ponte sobre o Tejo será rodo-ferroviária e ligará Chelas ao Barreiro. (ref)

De referir ainda que o campo de tiro de Alcochete não fica minimamente no concelho de Alcochete mas sim dividido entre Benavente e Montijo, afectando principalmente a freguesia de Canha. Segundo o presidente da câmara de Alcochete, “o Campo de Tiro de Alcochete foi fundado em 1904 pelo Rei D. Carlos I e ninguém se preocupou com o nome”.(ref)

Tanto quanto sei o estudo ainda não está disponível para o público em geral, mas o governo assegurou ontem que ele será publicado quando for entregue ao Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.(ref) Entretanto ficam aqui os “factores críticos de decisão” e para que lado pendem (ref).

Vantagens de Alcochete:

  • “Segurança, eficiência e capacidade das operações do tráfego aéreo”
  • “sustentabilidade dos recursos naturais e riscos”
  • “compatibilidade e desenvolvimento económico e social”
  •  “avaliação financeira”

Vantagens da Ota:

  • “conservação da natureza e biodiversidade”
  • “sistemas de transportes terrestres e acessibilidades”
  • “ordenamento do território”

Quanto ao redesenho da rede de TGV ou qual o papel da Portela a longo prazo, ainda não ouvi nada de explícito. Eram pontos fulcrais nas alternativas propostas pela CIP e pela ACP.

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O que José Manuel Fernandes insiste em não perceber (2) - O que é o “novo ateísmo”

7 Janeiro, 2008 · Sem Comentários

[Não acho que tenha sido a melhor escolha de título mas vou mantê-lo por coerência.]

José Manuel Fernandes tenta encaixar o “novo ateísmo” com o “anticlericalismo radical”, jacobinos, revolução russa e Nietzche. Só falta dizer que comemos criancinhas ao pequeno-almoço. O movimento ateu actual não quer queimar igrejas, decapitar pessoas , assassinar padres, acabar com os valores morais nem nada que se pareça.

O “novo ateísmo” não tem assim muito de novo (para além de mais uns anos de ciência a confirmar a descrença na religião). Os seus conceitos-base são praticamente os mesmos que foram descobertos independentemente por filósofos gregos e indianos há cerca de dois milénios e meio. Procura apenas uma visão racional do mundo, a procura do saber contra os confortos da ignorância, uma ética vinda do espírito crítico e não do medo e crenças que possam ser discutidas e melhoradas em vez de cristalizarem como verdades divinas. Evitar o pensamento mágico para aquilo que tem explicações racionais.

atheism

Secções:

  • Brights!
  • Humanismo Secular
  • As causas do “novo ateísmo”
  • Leitura literal da Bíblia
  • Fé contra razão e ‘Deus’ como hipótese
  • Deus concreto e Deus abstracto

Brights!

José Manuel Fernandes começa o artigo com a seguinte frase de Dan Dennet: «Chegou o momento de nós, os iluminados, sairmos do armário». Logo aqui há uma pequena incorrecção que, embora parecendo um pormenor, tem importância. Iluminado é a tradução que JMF encontra para bright, o termo usado para evitar as simplificações que costumam ser feitas em torno do termo ateu. Bright em oposição a Super, aquele que precisa de explicações sobrenaturais e misticismo para o que tem explicações mais prosaicas. Iluminado talvez não seja a melhor tradução por não transmitir a ideia de uma luz própria, a luz que vem do intelecto e não de um putativo Deus que se revela sob a forma de arbustos a arder e vozes celestes.

O termo bright foi uma tentativa de substituir a palavra ateu de forma a evitar os simplismos associados a este termo. Acabou por não pegar e o termo ateu continua a ser usado. Por definição de dicionário, um ateu simplesmente nega a existência de Deus. Mas o movimento (se quisermos entendê-lo como um só movimento) é mais do que isso, é antes de mais um movimento céptico; o ateísmo não é mais do que a aplicação do cepticismo, o espírito crítico que leva a questionar asserções fantásticas, à religião.

Ateu é um termo incompleto que pode induzir em erro. Um budista que não creia em Deus mas que acredite piamente ser possível reencarnar numa barata, ainda que seja ateu pela definição de dicionário, dificilmente há de rever-se em Richard Dawkins ou Daniel Dennet. Por outro lado já Espinosa usava o termo Deus de uma forma completamente compatível com o “novo ateísmo”. A ênfase está no racionalismo. O ateísmo é na sua essência a oposição ao teísmo, a crença no Deus concreto criador do Universo que se dá a conhecer através de revelações e que exige, no mínimo, fé, oração e obediência.

Humanismo Secular

Uma grande fonte dos preconceitos face a ateus está no facto de, para as pessoas religiosas, os valores morais serem ditados por Deus (pelo menos nas três denominações religiosas baseadas no Deus de Abrãao). Com base nesse pressuposto, surge o preconceito de os ateus serem pessoas imorais. Onde vão buscar os valores morais senão a Deus? A resposta é simples: perante a ausência de Deus, passa-se para o segundo lugar dessa hierarquia: a Humanidade.

O ateísmo que eu defendo, assim com muitos outros que são etiquetados como simplesmente ateus, é o humanismo secular, um movimento que oferece uma alternativa racional e bastante completa à religião. Reconhece que os nossos valores têm origem humana mas que não há mal nenhum nisso. Recusa justificações sobrenaturais e coloca a ênfase na procura da verdade através do conhecimento científico.

Claro que a ciência não nos diz como viver as nossas vidas, apenas nos fornece as ferramentas para compreendermos e alterarmos o mundo que nos rodeia. É por reconhecer as limitações da ciência que o humanismo não fornece um objectivo último: cabe a cada um encontrar o sentido para a sua própria vida; repudia-se uma autoridade divina que justifique a imposição de determinado estilo de vida aos outros. É no reino da filosofia, e não da religião, que devem competir as diferentes hipóteses para um sentido da vida. Porque a religião é apenas uma filosofia que evita a discussão ao alegar ter o patrocínio do criador do Universo.

As causas do “novo ateísmo”

José Manuel Fernandes parece um pouco agressivo em relação a Richard Dawkins em particular, e a forma como o ataca revela que não terá percebido bem o seu livro, The God Delusion. A insistência em termos como “Rottweiler de Darwin” e “Darwinista empedernido” até me fazem temer alguma veia criacionista em JMF, espero que não seja o caso.

JMF parece não compreender as razões para o ressurgimento do “novo ateísmo”. Como causas, diz que “ocorreu o 11 de Setembro”, “mas não só”. Este “não só” não chega a ser devidamente explicado, apenas parece sugerir que sejam preconceitos e incompreensão. Não foi só o fundamentalismo islâmico e outras emanações violentas do fanatismo religioso que despoletaram esta nova reacção contra a fé religiosa.

«(…) falava-se do regresso das religiões no século XXI, em especial a uma Europa que o século XX descristianizara muito para além do que se esperaria em Estados constitucionalmente seculares» - JMF

No século XX, com João Paulo II a reconhecer a evolução das espécies (será que Bento XVI o teria feito?), as querelas entre ciência e religião pareciam para muitos ser cada vez mais coisas do passado. A religião parecia ter desistido de discutir com a ciência e regredia para aspectos para além do seu alcance, encolhendo à medida que o conhecimento aumentava (e a sua intransigência moral parecia afastar cada vez mais pessoas da fé).

Mas os últimos anos têm sido marcados pelo ressurgimento do criacionismo, em oposição directa a algumas das teorias científicas mais sólidas dos últimos tempos. Há quem chegue ao ridículo de afirmar que a Terra tem apenas uns dez mil anos e que Adão e Eva existiram mesmo. O que faz esta gente negar as mais elementares provas factuais que contrariam essas teorias é a crença na revelação bíblica acima de quaisquer outras fontes.

Leitura literal da Bíblia

O número de cristãos capazes de encarar a Bíblia como uma fonte mais idónea do que qualquer publicação científica ainda é assustadoramente alto. Em particular nos EUA, o poder político deste tipo de fundamentalistas parece aumentar em vez de diminuir para o nível esperado em “Estados constitucionalmente seculares”. Mas JMF parece esquecer-se deles ao refutar os ataques de Richard Dawkins à bíblia:

«(…) pelo menos no caso do cristianismo, desde o século V que se recusa a leitura literal dos textos bíblicos. Ora se Santo Agostinho o fez há 15 séculos, e estes autores o ignoram, Allen Orr interroga-se se não estarão mais interessados em provar os seus preconceitos do que em mergulhar nos inúmeros debates intelectuais que marcaram a relação entre ciência e religião.»

Não vamos confundir a Igreja Romana com o cristianismo, que entretanto assumiu outras formas incluindo algumas que defendem a leitura literal da bíblia. A Aliança Evangélica Portuguesa, por exemplo, tem vindo a aumentar a sua influência em Portugal.

Mas mesmo a Igreja Católica, que aceita a evolução contra a leitura literal do Génesis, continua a ter uma interpretação literal noutros aspectos (e se formos procurar no passado até ao século V, ainda encontramos mais). Que leitura fazem quando defendem que Maria tenha dado à luz sem ter havido uma relação sexual? E quando defendem que Jesus ressuscitou, porque não é isso uma metáfora em vez da literal “ressurreição da carne”? E os milagres que Cristo terá feito? Não há nada que suporte estes dogmas para além de uma leitura literal da Bíblia.

Fé contra razão e ‘Deus’ como hipótese

Richard Dawkins até mergulha nos “debates intelectuais que marcaram a relação entre ciência e religião”, mas JMF escolhe ignorá-lo embora a seguir toque no assunto (inadvertidamente?).

«Mais, e como encarar uma das máximas do que foi, porventura, o primeiro teólogo cristão, Credo ut intelligam (”Creio para compreender”), para quem é quase um crime sugerir que se pode chegar à compreensão seja do que for a não ser por via de uma investigação racional?» JMF

Só na religião é que se “crê para compreender”. Na ciência primeiro compreende-se, e só então se decide sobre as crenças. É esta a dicotomia entre fé e razão. Na fé acredita-se porque se acredita e martela-se a realidade para encaixar nas crenças. Santo Agostinho descobriu a fórmula: se um facto verificável não se ajustar ao que vem na bíblia, ou se muda a interpretação do facto (mais frequente) ou se muda a interpretação da bíblia (mas esta está, por definição, sempre correcta). Se a Igreja Católica defendesse apenas a investigação racional não haveria muito por onde atacá-la. Mas será que é mesmo a “investigação racional” que a igreja defende?

«Ao conhecer Deus só com a luz da razão, o homem experimenta muitas dificuldades. Além disso, não pode entrar só pelas suas próprias forças na intimidade do mistério divino. Por isso é que Deus o quis iluminar com a sua Revelação não apenas sobre verdades que excedem o seu entendimento, mas também sobre verdades religiosas e morais que, apesar de serem por si acessíveis à razão, podem deste modo ser conhecidas por todos, sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro.» - Catecismo da Igreja Católica (compêndio de 2005)

Parece que para a Igreja Católica a “luz da razão” não chega, e por isso existe a revelação (que assume a forma de textos bíblicos) para permitir chegar à verdade “com firme certeza e sem mistura de erro”. É por isto que faz sentido Dawkins revelar as incitações ao ódio e à intolerância, entre outras aberrações, que abundam no livro sagrado de onde é suposto extrairmos as nossas verdades morais absolutas. As verdades morais a que a sociedade moderna chegou suplantam e entram em conflito com as supostas verdades morais expressas na bíblia, e este é um ponto fundamental do livro de Dawkins na refutação das religiões baseadas nos livros de Moisés. A razão tornou a “Revelação” obsoleta.

«Não faz a intuição, ou a inspiração, parte do próprio método científico, já que este parte de hipóteses conjecturais que depois devem ser provadas?» JMF

“Devem ser provadas” diz JMF muito bem, mas não o são: a igreja diz que são verdade e pronto. JMF descarta o livro de Dawkins com este argumento, o que é estranho. Porque é precisamente isso que Richard Dawkins faz: assume Deus como uma hipótese e submete-a a testes de veracidade. A “hipótese Deus” (god hypothesis), até faz previsões sobre o mundo que podem ser testadas. Nos aspectos em que há sobreposição entre a teoria de Deus e as teorias científicas aceites, a hipótese teísta das religiões de Abraão falha redondamente.

Deus concreto e Deus abstracto

Outra confusão que José Manuel Fernandes parece fazer é confundir um Deus abstracto, metafórico, com o Deus concreto defendido pela religião. Isto apesar de Richard Dawkins deixar bem claro qual o conceito de Deus cuja inexistência tenta ‘provar’: o Deus intervencionista, que faz milagres, lê pensamentos, castiga pecados e responde a orações. Dawkins afirma ser religioso no sentido em que Einstein é religioso:

“To sense that behind anything that can be experienced there is something that our mind cannot grasp and whose beauty and sublimity reaches us only indirectly and as a feeble reflection, this is religiousness. In this sense I am religious.” - Albert Einstein

Dawkins deixa bem clara a distinção entre o Deus cuja inexistência é exposta, e o “Deus metafórico ou panteísta dos físicos”. Diz até ser um “acto de alta traição intelectual” fazer confusão entre os dois. Deus é atacado enquanto conceito central da religião, e não enquanto conceito abstracto. Porque o Deus de Abraão nada tem a ver com o Deus de Espinosa, cuja visão panteísta entende o termo Deus como equivalente a Universo - e não há mal nenhum em acreditar que o Universo possa fazer sentido. Não é o mesmo Deus teísta que é contra o aborto, não gosta de preservativos e defende o papel tradicional da mulher na sociedade. Mas José Manuel Fernandes insiste em misturar os conceitos e usar as referências de Einstein e Stephen Hawking a um Deus abstracto como apologia do teísmo religioso:

«(…) um dos mais notáveis físicos da actualidade, Stephen Hawking, apresentava o seu livro Uma Breve História do Tempo (edições Gradiva) como uma investigação à “mente de Deus”.» - JMF

A investigação à “mente de Deus” não é mais do que a investigação em torno de uma possível Teoria Unificadora. Não se pode confundir esta teoria unificadora, que emerge do conhecimento científico, com essa outra teoria unificadora: o Deus teísta que não é passível de ser compreendido pela razão e provas verificáveis mas antes através das escrituras. Para Hawking, com a descoberta de uma teoria unificadora simples, “poderemos todos, filósofos, cientistas e pessoas vulgares, tomar parte na discussão do porquê da nossa existência e da do Universo”. É a esta reposta que chama o”pensamento de Deus”; conhecê-lo seria “o triunfo máximo da razão humana” e não da fé no divino.

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