Saiu há umas semanas atrás uma notícia no Público que me provocou alguma comichão. O título «Alguns hospitais públicos já têm consultas de acupunctura» não indiciava nada de mal. A comichão começou com isto:
Continuam a ser poucos os médicos que incluem na sua prática clínica terapêuticas não convencionais como a acupunctura, a homeopatia, a fitoterapia, mas dizem que há cada vez mais abertura da classe médica.»
Não o facto de serem poucos os médicos a apostar em terapêuticas não convencionais, mas esta tendência de enfiar as terapêuticas não convencionais no mesmo saco (repetida pelo artigo fora). Uma técnica corrente entre charlatães que promovem idiotices acoplando-as a técnicas com alguma credibilidade. Idiotices como a homeopatia. O artigo salta entre acupunctura e homeopatia de uma forma completamente irresponsável. Aliás o título enganador esconde que o foco é mesmo na homeopatia e a acupunctura só aparece para emprestar credibilidade. E os homeopatas esfregam as mãos de contentes.
Acupunctura
A acupunctura tem aplicações médicas viáveis em algumas áreas, como o alívio de dor e da ansiedade. É aliás uma área sob intensa investigação científica e não é à toa que é reconhecida pela Ordem dos Médicos como competência médica, como refere o artigo.
Convém no entanto salientar que a sua eficácia terapêutica não deve ser tomada como suporte à teoria tradicional subjacente. Os místicos meridianos de energia ‘Qi’ são uma ideia obsoleta sem qualquer tipo de suporte científico. A sua eficácia terá antes a ver com a libertação de endorfinas provocada pela inserção das agulhas, o que poderá explicar o seu sucesso a mitigar dores e na cessação tabágica. Vários estudos sugerem que é tão eficaz espetar agulhas nos pontos prescritos pela acupunctura tradicional como noutros quaisquer.
Homeopatia…
Já a homeopatia não tem a mínima ponta por onde se lhe pegue. E faz-me muita confusão ver que há médicos a aderir a isto. Não percebem a idiotice pegada que é a homeopatia? Um médico/charlatão de um hospital ortopédico que se queixa da falta de aceitação desta prática até parece perceber:
«O maior desafio é a explicação científica. “Como explicar que se dá substâncias como o enxofre ou o ouro em doses muito diluídas com efeitos terapêuticos?”»
Pois, ora aí está um excelente pergunta. E convém referir que para além do desafio da explicação, tem o desafio de mostrar quaisquer resultados positivos. Infelizmente a jornalista prefere não seguir estes pontos e falar antes logo na linha a seguir sobre a marginalização que a vice-presidente da Sociedade Portuguesa Médica de Acupunctura sentia há uns anos atrás. Depois salta novamente para a defesa da homeopatia.
Como ‘funciona’ a homeopatia
Ainda vou notando quando falo com alguém sobre o tema a ideia de que os medicamentos homeopáticos consistem em medicamentos muito diluídos. O que é usado na homeopatia não são os medicamentos mas sim os venenos. Caso o enxofre na situação anterior não seja suficiente para espantar, basta referir a popularidade do arsénico em soluções homeopáticas. Felizmente os venenos são diluídos ao ponto de dificilmente sobrar uma molécula que seja do veneno no produto final.
A teoria homeopática é das coisas mais absurdas que conheço. Quando querem curar determinada maleita, procuram primeiro uma substância que provoca os mesmos sintomas (daí a profusão de químicos com efeitos nocivos). Porque por alguma razão acham que dois males com efeitos semelhantes se anulam. Assim como uma bofetada cura qualquer mal que provoque o avermelhar da cara. Depois diluem essa substância o mais que conseguem (até ao absurdo), porque defendem que quanto mais diluída for a substância nociva mais potentes se tornam os seus “efeitos curativos”. A sério, é mesmo isto. Este fragmento de uma palestra de James Randi explica melhor a homeopatia. Deixo também o link para o post agregador da série homeopatetices de Palmira F. Silva no De Rerum Natura, é bem mais exaustiva e vai desde as origens da homeopatia (e o porquê destes métodos) à desconstrução das teorias inacreditáveis usadas actualmente pelos charlatães que a promovem.
Burla com placebos
Este segmento da palestra de Randi dá um exemplo concreto de um desses ‘medicamentos’ homeopáticos:
O absurdo que é alguém considerar que uma substância que é usada como veneno para ratos pode ser usada para curar uma gripe. A diluição de 100X significa que é mais provável ganhar o euromilhões do que encontrar uma só molécula do suposto princípio activo. Se isto evita riscos de envenenamento, não deixa de ser uma fraude vender água destilada a um preço 70% acima da média para um antigripal.
É simplesmente desonesto que existam médicos a vender placebos (na melhor das hipóteses) como se tivessem algum poder curativo. Medicina há essencialmente só uma. A que submete qualquer proposta de cura ao método científico. As soluções homeopáticas são perfeitamente passíveis de serem submetidas a ensaios clínicos, e em nenhum foi demonstrado que surtissem qualquer efeito. Usar a credibilidade da sua formação em medicina para afirmar o poder curativo de métodos que desafiam a química, a física, a lógica e o bom senso, e lucrar com isso, tem para mim todos os ingredientes de uma burla. Resta esperar que o “desprezo” e os “comentários pouco abonatórios” referidos no artigo voltem a atormentar estes médicos.


English