Sir Isaac Newton. Para além de figura central da revolução científica, workaholic incansável e génio intuitivo, o pai da Física é também conhecido pelo seu lado puritano e arrogância indisfarçada. Não é ir longe demais dizer que era uma criaturinha execrável nalguns aspectos. Penso que este excerto de uma nota biográfica escrita por Stephen Hawking sobre o seu antecessor na cátedra de matemática em Cambridge é exemplificativo:
(…) Embora agora saibamos que Newton descobriu o cálculo antes de Leibniz, publicou o seu trabalho muito mais tarde. Começou assim uma enorme discussão sobre quem tinha sido o primeiro, com cientistas a defenderem vigorosamente os dois oponentes. É notável, porém, que a maioria dos artigos tivesse sido escrita por ele mesmo, e apenas publicada em nome dos amigos! Com o aumento da discussão, Leibniz cometeu o erro de apelar para a Royal Society para decidir a disputa. Newton como presidente, nomeou uma comissão «imparcial» para investigar, formada, por coincidência, apenas por amigos seus! Mas isso não foi tudo: Newton escreveu depois o relatório da comissão e fez com que a Royal Society o publicasse, acusando oficialmente Lebniz de plágio. Como ainda não estava satisfeito, escreveu uma crítica anónima do relatório na publicação privada da Royal Society. Após a morte de Leibniz, diz-se que Newton declarou que tinha ficado radiante «por ter desfeito o coração a Leibniz».
No entanto, no plano humano este episódio empalidece perante a imagem de um zelota que aparentemente se regozija com as descrições gráficas de torturas particularmente cruéis aplicadas a freiras católicas. Mesmo visto à luz do espírito da via puritana do protestantismo da altura, este moralismo exacerbado ao ponto da degeneração dos valores mais elementares não deixa de ser perturbadoramente caracterizador.
Segundo este documentário, Newton – The Dark Heretic, o lado obscurantista tinha um domínio quase absoluto sobre a vida de Newton. O que mais me surpreende é o Principia Mathematica aparecer como um mero projecto lateral numa vida dedicada à alquimia e deambulações teológicas.
Até certo ponto é possível conciliar algum fervor religioso com a dedicação à ciência, e até ver não só traços de personalidade comuns a estes dois eixos como também um feedback positivo entre eles. Desenvolver o cálculo à velocidade a que este é leccionado hoje em dia não requer apenas génio, pede também uma disciplina rígida. Esta pode encontrar um aliado no forte sentido de propósito, restrições à conduta e líbido reprimida que a religião oferece. Mas levado a este extremo torna-se difícil de compreender. O desejo ardente pelo apocalipse que purgasse finalmente a babilónia enfeitiçada pelo anticristo em que julgava viver obriga a questionar a sanidade do pai do cálculo.
Há um paradoxo gritante entre o cientista no topo da escala de genialidade de Landau e o obscurantista obcecado com alquimia e teologia. Espantado com o que lera nos manuscritos de Newton, Keynes acabaria por descrevê-lo como o último astrólogo. Como compreender a antítese? Penso que antes há que relembrar a ténue linha entre o génio e o louco: de uma forma simplista, cérebros com uma capacidade anormal de detectar padrões tendem a vê-los também onde não existem. O que separa a obra do génio das excentricidades de um louco é tipicamente o grau de sucesso.
A primeira tendência é ver a centelha do génio a perspirar apesar da escuridão opressiva do misticismo.Vejo antes uma genialidade domada pelos formalismos matemáticos e os rigores do método científico. No fundo, o seu génio (ou a causa deste) manifestou-se em todas as áreas que estudou, o que as separa é o objecto e o método. Na alquimia partiu de premissas erradas mas ao submetê-las à experiência acabou eventualmente por tornar-se inegável o beco sem saída a que tinha chegado. Na exegese falha o objecto e o método. Assumindo a bíblia como fonte da verdade suprema e algo puramente interno como a fé e a inspiração divina para guiar a interpretação, acaba-se na melhor das hipóteses com uma eisegese. E não tão poucas vezes isto degenera numa espiral de autoconfirmação dos piores defeitos da mente humana. A demonização do outro é um deles. Descartando qualquer requisito de validação externa, pôde morrer com a certeza de estar certo.
Apocalipse
O que me fez voltar a este documentário foi ter ouvido mais uma referência à próxima data do fim do mundo. Felizmente foi uma referência escarninha, mas fez-me lembrar quando aconteceu o impensável de ver alguém defender, com uma cara séria, que o facto de o calendário dos Maias só funcionar até 2012 pode sugerir o apocalipse. Ainda há três anos tivémos o último fim do mundo (tal como previsto pelo bestseller Bible Code), e já só faltam três anos para o próximo. Devia instituir-se um período de luto entre os fins do mundo.
O documentário entra um pouco na onda ao apresentar o ano de 2060 como uma data do apocalipse meticulosamente calulada por Newton. Na verdade não terá sido bem isso o que ele escreveu:
«It may end later, but I see no reason for its ending sooner (…) This I mention not to assert when the time of the end shall be, but to put a stop to the rash conjectures of fanciful men who are frequently predicting the time of the end, and by doing so bring the sacred prophecies into discredit as often as their predictions fail.» – Isaac Newton [ref]
Amen.


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