a mansarda

Entries categorized as ‘Ciência’

O estado da arte nos carros ecológicos

25 Fevereiro, 2008 · Sem Comentários

Se há coisa que me tem desorganizado o organismo é ter de ver o anúncio do novo híbrido da Lexus. O carro do futuro, com menores emissões e essas pseudo-verdices todas… até se olhar para o que passa em rodapé. Isto é, quem conseguir ler as emissões naquelas letras mínimas - eu não consegui (esta versão diz apenas que é o líder da sua classe, mas o que passa na tv avança valores).

Híbrido não quer dizer necessariamente verde

O modelo anunciado parece ser o LS 600h, o topo de gama com motor híbrido. É muito eficiente… para uma banheira a gasolina com um motor de 5 litros. Os seus pouco impressionantes 200g/km de CO2 e 10 l/100km (aproximadamente) colocam-no aí ao nível do topo de gama da série 7 da BMW a diesel - que não tem nada de híbrido. Um carro destes tentar passar por ecológico roça o ridículo (o LS 450h até é um pouco melhor, mas nada de milagroso).

Não tenho nada contra os híbridos, antes pelo contrário; acho delicioso um carro capaz de reaproveitar a energia que seria perdida na travagem e outras maravilhas de engenharia. No entanto este tipo de híbridos tapa o sol com a peneira; a tecnologia ajuda mas é preciso compreender que um estilo de vida sustentável implica uma mudança de hábitos de consumo. Quem quiser um carro eficiente do grupo Toyota que se fique pelo Prius (com os seus invejáveis 4,5 l/100km), ou pelos modelos convencionais de gama mais baixa; um Lexus topo de gama não tem nada de verde. Um carro mais modesto seria uma melhor solução, mas há quem não passe sem uma banheira vistosa…

Tesla dá nova vida aos eléctricos

Numa coisa o anúncio do Lexus acerta: um dia há de chegar um carro movido de forma diferente, em que o desempenho superior será aliado a menores emissões, e esse dia é mesmo hoje. A fotografia acima é de um Tesla Roadster, o último grito em automóveis eléctricos, produzido pela Tesla Motors de Silicon Valley. No que diz respeito a emissões de CO2, basta dizer que nem sequer tem tubo de escape - as únicas emissões estão no fabrico e na forma como a electricidade da rede pública for produzida. Como o ar mais agressivo sugere, está muito longe do típico carro eléctrico que serve para a avozinha ir ao supermercado e pouco mais.

Atinge os 100 km/h em cerca de 4 segundos e tem um binário de 270 N.m (e ao contrário dos motores convencionais, o binário máximo está disponível a qualquer rotação). O preço ronda os 100 mil dólares (tinha de haver uma desvantagem), mas tendo em conta o público alvo, e o facto de ainda estar a ser produzido em pequeno número, não é assim tão elevado.

O Tesla Roadster usa 6831 baterias de iões de lítio convencionais, totalizando uns 400 kg e sendo responsáveis por 1/5 do preço do carro, que alimentam um motor de 50 kg. Esta bateria (a azul na imagem) tem uma vida útil estimada em 5 anos (ou 160 000 km) até ter de ser substituída (e reciclada). O motor tem apenas 17 peças móveis, contra as cerca de 250 de um motor típico de combustão interna. Três horas e meia chegam para carregar a bateria, dando uma autonomia de 350 km. Segundo o vídeo os 350 km ficam pelos 2,5 dólares, o que equivale a um carro a gasolina que consuma menos de meio litro por 100 km.

Tesla Roadster (battery)

Ainda não terá sido entregue nenhum dos 600 veículos encomendados, devendo a produção começar este ano. A lista de espera é bastante exclusiva, incluindo nomes como George Clooney, Schwarzeneger e os fundadores da Google Sergey Brin e Larry Page - dois dos principais investidores. O investimento inicial veio do fundador do PayPal, Elon Musk, que define como público alvo pessoas que, como ele, se sentem atraídas pelas credenciais ecológicas do Prius mas querem algo mais vistoso - ele guia um Porsche e a mulher um Maserati.

Para além do Roadster

O plano da Tesla Motors é, no entanto, um pouco mais abrangente. O Roadster marca apenas o início, de que deverão ser produzidas 1000 unidades por ano, estando previsto para o fim de 2009 o início da produção do próximo modelo com nome de código Whitestar. O preço do Whitestar estará entre os 50 e os 65 mil dólares, concorrendo no mesmo segmento que a série 5 da BMW, e serão produzidas 10 mil unidades por ano. Esta abordagem de cima para baixo dará lugar em 2012 ao Bluestar, que ficará por uns mais acessíveis 30 mil dólares, e até pode ser que no futuro a tecnologia venha a ser viável em modelos mais baratos.

Uma das chaves para a descida de preço está nas baterias de iões de lítio, e graças à produção de pc’s portáteis o seu preço tem vindo a baixar 8% ao ano - sendo previsível que a tendência continue. A Tesla planeia ainda adaptar a sua tecnologia de baterias para outros usos (substituindo motores de combustão em aplicações mais modestas como cortadores de relva) de modo a beneficiar da economia de escala sem estar dependente das vendas de automóveis. [ref]

Somando pontos onde outros falharam

Tal como foi referido no artigo do WorldChanging, esta abordagem da Tesla é muito inteligente e tem grande potencial para dar frutos. A aposta nos segmentos superiores, pouco sensíveis ao preço, permite um espaço de manobra que não teriam caso tivessem decidido entrar directamente pelo mercado dos utilitários. Tem sido aí que falharam as tentativas anteriores de popularizar os carros eléctricos, que acabaram por resultar em modelos que são demasiado caros, demasiado inúteis, ou até ambos.

Veja-se o caso da Zap, por exemplo. O modelo Obvious compete em preço com um BMW de gama alta, em espaço interior com um smart, e como se isso não bastasse tem cores horrivelmente berrantes até pelos padrões do Tomás Taveira. A gama Xebra, apesar de mais acessível, é um desastre estético de utilidade limitada: para além de parecer um Isetta em marcha atrás, com um desempenho a condizer, tem uma gama limitada de cores que vai do cor-de-rosa ao padrão de zebra (a sério!). Outras empresas têm tido mais bom senso, mas na tentativa de conseguir um compromisso entre preço e desempenho têm acabado por perder nos dois campos. Alguém está disposto a pagar mais de 20 mil euros por um Fiat com 20 cavalos?. A Tesla Motors pode bem ter descoberto uma forma economicamente sustentável de ir desbravando os entraves tecnológicos até que a experiência adquirida permita outras aventuras.

O esquivo hidrogénio

Os automóveis a hidrogénio continuam a ser uma miragem. O último artigo que vi sobre um desses modelos, o BMW Hydrogen 7, afasta qualquer hipótese de o hidrogénio vir a ser uma alternativa viável a curto-médio prazo. Para além de os preços previsíveis serem ainda proibitivos, os fabricantes continuam a encalhar no velho problema de como manter o raio do hidrogénio dentro do depósito (só é líquido abaixo dos -253ºC e na forma gasosa o elemento mais pequeno escapa por qualquer poro). Seja como for já é possível fabricar um automóvel capaz de usar tanto gasolina como hidrogénio, com uma autonomia de 150 km e emissões na ordem dos 5g de CO2 por 100km quando alimentado a hidrogénio.

A abordagem que não esperava: ar

A indiana Tata teve uma abordagem bastante diferente aos veículos ecológicos ao decidir ressuscitar o conceito da luxemburguesa Motor Development International(MDI): carros movidos a ar comprimido. A estratégia é a inversa da Tesla: baixaram os requisitos e apostaram no baixo preço, o que parece ser uma boa jogada no mercado indiano de gama baixa. Afinal, é a mesma empresa que conseguiu produzir um carro com um preço abaixo dos 2000 euros. Este modelo custará uns aliciantes 3300 euros e consegue uma autonomia de 200 a 300 km por pouco mais de um euro. Tem ainda a vantagem de apenas libertar ar, com o bónus de sair fresco (por ser descomprimido) podendo assim ser aproveitado como ar condicionado. A Zero Pollution Motors também se lançou nesta área mas no mais improvável mercado americano, pretendendo vender a partir de 2009/2010 um carro baseado na mesma tecnologia da MDI, com um preço abaixo dos 20 mil dólares e capaz de atingir mais de 140 km/h.

Categorias: O Mundo · Tecnologia
Tagged: , ,

Columbus em órbita!

10 Fevereiro, 2008 · Sem Comentários

O laboratório Columbus [wikipedia,ESA], a maior contribuição da ESA para a ISS, já está em órbita. É uma ideia que já vem desde a década de 80, e era suposto ter sido instalado em 2006, ano em que foi enviado para o Kennedy Space Center, mas mais vale tarde que nunca (assumindo que tudo corre bem desta vez). O Columbus tem capacidade para dez ISPRs, divididos irmãmente entre ESA e NASA. Os cinco módulos europeus irão servir para pesquisas em microgravidade: o FSL em dinâmica de fluidos, o Biolab, para experiências biológicas, o EPM para efeitos sobre o corpo humano, o EDR será um laboratório multi-usos e o ETC servirá de suporte aos restantes módulos.

Categorias: Ciência · O Mundo
Tagged: , , , ,

Agressão redireccionada

19 Dezembro, 2007 · Sem Comentários

No artigo Targets of Aggression (via Obscene Desserts), David Barash abordou o tema da agressão redireccionada tocado na entrada anterior. É referido um estudo com resultados interessantes, que apontam para uma justificação não só psicológica mas também fisiológica para esta tendência natural de descarregar no primeiro alvo disponível.

Uma ratazana é colocada numa gaiola onde é sujeita a choques eléctricos a partir do chão. Os choques iniciais exaltam visivelmente a ratazana, mas ela acaba eventualmente por deixar-se estar apaticamente a meio da gaiola. A autópsia revela glândulas adrenais inchadas e úlceras no estômago, sinais de stress intenso.

Repetindo a experiência mas acrescentando um pau de madeira na gaiola, a ratazana passa a morder o pau durante os choques. A autópsia revela glândulas adrenais menores e menos úlceras. Os resultados mais interessantes surgem quando se repete a primeira experiência com duas ratazanas. Os choques eléctricos passam a despoletar lutas entre as duas ratazanas, e a autópsia revela glândulas com o tamanho regular e a ausência de úlceras.

Categorias: Ciência · [à parte]
Tagged:

A taxa ecológica e o plástico verde

9 Dezembro, 2007 · Sem Comentários

Taxa sobre sacos de plástico

A 19 de Novembro o governo enviou à Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) a sua proposta para uma taxa de cinco cêntimos sobre cada saco de plástico, dando à associação 15 dias para dar o seu parecer. Humberto Rosa, secretário de estado do ambiente, falou a 29 de Novembro da “ideia oficialmente amadurecida” de aplicar, “antes do final do mandato, taxas na venda de sacos de plástico”. Inquirido pelo Público a 4 de Dezembro, o secretário de estado reiterou as vantagens da taxa.

A 5 de Dezembro a taxa foi noticiada pelo Público e Humberto Rosa afirmou numa conferência de imprensa que a proposta tinha sido abandonada duas semanas antes, apesar de no mesmo dia a ter referido em declarações à TSF. Luís Vieira e Silva, presidente da APED, afirmou não ter recebido nenhum aviso do governo e que ainda estaria a recolher pareceres dos associados para serem enviados até dia 7 ao Ministério do Ambiente. (ref)

O presidente da APED mostrou-se bastante favorável ao recuo, dizendo ser “louvável” “equacionar alternativas com o objectivo de reduzir o consumo, sem onerar os bolsos dos consumidores de uma forma indiscriminada”. Para Isabel Ferreira da Costa, directora da Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos, “qualquer medida terá sempre um impacto negativo na indústria e a proposta de substituição por outros materiais só adia o problema”.

Jorge Morgado, secretário-geral da Deco, considerou a taxa ecológica “uma medida aceitável” mas que deveria ser complementada com “medidas para a indústria e para o comércio”. Para Rui Berckmeier, dirigente da Quercus, este recuo “não faz sentido” e “mostra que as empresas de distribuição têm mais força do que a que deviam ter”. A Quercus defendeu ainda que deveria ter havido mais discussão “mesmo antes de ter havido uma primeira versão escrita”. (ref)

Para além da taxa

O Pingo Doce passou a cobrar uma taxa de dois cêntimos por saco, e parece-me que a medida foi bem recebida (antes já o LIDL vendia os sacos, e ouvi dizer que o Mini-Preço pede três cêntimos por saco). O preço cobrado pelo Pingo Doce, menos de metade do anunciado pelo governo e acompanhado pela melhoria da qualidade dos sacos, terá levado a um decréscimo de 50% na quantidade de sacos de plástico usados nesta cadeia de supermercados nos primeiros meses deste ano sem qualquer prejuízo para as vendas, que cresceram 17,8% . Também tem sido referido o caso da Irlanda, que em 2002 passou a cobrar uma taxa de 15 cêntimos por saco (passou este ano para 22 cêntimos) levando a um decréscimo superior a 90% no consumo de sacos de plástico. (ref)

Na Irlanda os ganhos provenientes da taxa ecológica são acumulados num “fundo ambiental” que já conta com 75 milhões de euros [ref]. O governo português não deixou claro para onde iriam ser canalizadas as verbas, um ponto que foi também referido pela Deco, que propunha campanhas de sensibilização. Esta omissão só prejudicou a proposta, fazendo-a parecer mais um subterfúgio para ajudar a tapar buracos no orçamento. A justificação para esta taxa é a necessidade de resolver o problema da poluição causada por sacos de plástico, pelo que faz todo o sentido que as verbas reunidas sejam usadas na resolução deste problema (este é um princípio que deveria ser também aplicado a outras taxas de justificação ecológica).

A reciclagem de plástico tem aumentado em Portugal, prevendo-se uma subida de 21,5% em relação ao ano passado. Segundo a Sociedade Ponto Verde o número de sacos de plástico reciclados “tem vindo a aumentar”, embora admitam não ser possível adiantar um número concreto.(ref) O preço do plástico é acrescido de uma taxa de 0,1693 €/kg para cobrir os custos de gestão de resíduos [ref], mas este “ecovalor” não corresponde ao custo ecológico real do plástico por apenas contabilizar o plástico que é reciclado. Muito plástico continua a ir parar ao lixo, e o que não for incinerado demora entre dois e quatro séculos a decompor. No caso dos sacos de plástico, já foi avançado que, à escala mundial, cerca de 90% acabam em lixeiras e aterros [ref]. Os sacos usados para compras podem ser reutilizados várias vezes e posteriormente reciclados, mas os sacos do lixo parecem ficar inevitavelmente fora do ciclo de reciclagem.

Plásticos biodegradáveis

O problema dos sacos do lixo é um dos casos em que os plásticos biodegradáveis se apresentam como a melhor solução. Estes plásticos têm ainda a vantagem de serem produzidos a partir de fontes renováveis, usando como matéria prima tipicamente glicose e mais recentemente dióxido de carbono ou outros gases. No caso de sacos do lixo e outros usos temporários, existe PLA com um tempo de decomposição de 45 dias [ref]. Para outros tipos de uso, existe PHB capaz de manter-se inalterado durante anos [ref]. Os plásticos biodegradáveis têm ainda o potencial de substituir parafusos metálicos na ortopedia, degradando-se no organismo e evitando assim as cirurgias para removê-los.

A grande barreira à entrada dos plásticos biodegradáveis no mercado tem sido o preço. O plástico típico é produzido a partir de subprodutos da refinação de petróleo, recursos abundantes e baratos devido à produção de combustível: se não fossem usados na produção de plástico estes subprodutos teriam de ser incinerados, o que torna vantajosa a sua comercialização abaixo do preço real [ref].

Esta barreira tem sido atacada em duas frentes: nos últimos três anos o preço do petróleo subiu para perto do dobro ( a tendência é para que continue a subir), e têm sido investigados processos mais eficientes para a produção de ‘plástico verde’ (biodegradável e produzido a partir de recursos renováveis). A Novomer desenvolveu um processo capaz de produzir plástico a partir de dióxido e monóxido de carbono através de catalisadores metálicos à temperatura ambiente e com baixos requisitos de energia. A empresa anunciou recentemente a infusão de 6,6 milhões de dólares, por parte da Physic Ventures e da Flagship Ventures, destinados a aumentar a capacidade de produção e prosseguir a investigação. (ref) O processo economicamente mais viável para a produção de hidrogénio actualmente tem como subproduto dióxido de carbono [ref]. A longo prazo, com a eventual substituição de motores de combustão interna por células de hidrogénio, não é difícil imaginar uma simbiose entre produção de hidrogénio e de plástico semelhante à que existe actualmente com a produção de combustíveis derivados do petróleo.

Outros processos mais eficientes que podem ajudar o plástico verde a competir com o tradicional têm sido anunciados, como este patenteado pelo National Science Council de Taiwan:

Infelizmente a declaração final da peça é enganadora: afirmam que o preço deste plástico é “1,5 vezes mais barato” que o actualmente disponível no mercado, mas na verdade esta comparação apenas se aplica ao plástico biodegradável disponível no mercado (produzido a partir do mesmo tipo de fontes). (ref) O preço anunciado está entre 3,74 e 4,79 dólares/kg, inferior ao de alguns tipos de plástico tradicionais e com potencial para competir com os mais baratos (o PET chega aos 3,3 dólares/kg [ref]).

Categorias: O País · Tecnologia
Tagged: , , , , , ,

As verdades inconvenientes de uma ‘Mulher em Acção’

20 Novembro, 2007 · 1 Comentário

“Verdades inconvenientes” é o título de um artigo de opinião de uma tal de Alexandra Teté na penúltima página do Público de segunda-feira. Saltou-me logo à vista, em primeiro lugar porque eu não fazia ideia que o sobrenome Teté existisse. Em segundo lugar porque vem trazer mais propaganda idiota contra a despenalização do aborto, e em terceiro porque me fez descobrir um conceito novo: a feminista católica e socialmente conservadora. Parece estranho? É mesmo. (more…)

Categorias: Ciência · O País · [à parte] · religião
Tagged: , , , ,

Ilusionistas e Cepticismo (3)

19 Novembro, 2007 · Sem Comentários

[parte 1, parte 2]

Ilusionistas vs Charlatães

Para além de incentivarem o pensamento céptico, desde há muito que alguns ilusionistas têm um papel importante a desmascarar os charlatães do paranormal. Houdini não ficou só célebre pelas suas fugas e morte trágica mas também pelo trabalho que teve a expor espíritas e semelhantes após a morte da sua mãe. Para além de ir por vezes disfarçado a sessões de ‘actividade paranormal’ para denunciar os burlões às autoridades, também integrou o painel de especialistas do prémio da Scientific American para mediums.

Hoje em dia o sucessor deste prémio é o da James Randi Educational Foundation. Este prémio, no valor de um milhão de dólares, será oferecido a quem demonstrar poderes paranormais num ambiente controlado. Já tentaram concorrer mais de mil mediums mas nenhum conseguiu sequer passar os testes preliminares. Infelizmente, nem o prémio nem o trabalho de Randi a desmascarar fraudes famosas (chegou a ter um programa na tv) parece impedir que os charlatães prosperem. Existe no público em geral uma permissividade enorme para aldrabões que invoquem o sobrenatural. Neste vídeo James Randi aborda alguns destes fenómenos: Uri Geller, uma das grandes fraudes do século (passado), Peter Popoff, um tele-evangelista, e os ‘cirurgiões sem bisturi’ filipinos:

Uri Geller: mini-crónica de uma fraude

Três exemplos detestáveis, mas se Popoff ficou falido e não tenho ouvido falar de mais cirurgiões filipinos, Uri Geller ainda consegue ter quem o leve a sério. Então a ideia de que se pensarmos nas coisas elas acontecem parece estar mais popular do que nunca (maldito ‘Segredo). O sucesso que ele teve a enganar até alguns cientistas durante a década de 70 é ainda usado por Geller para se tentar afirmar como alguém com poderes sobrenaturais (que lhe foram oferecidos por extraterrestres…). Com o passar do tempo muitas das técnicas que usa têm sido descobertas, desde fazer mexer bússolas até às leituras telepáticas (para não falar das colheres). É ridículo como Geller conseguiu enriquecer a dobrar colheres em que tinha de mexer com as mãos, quando um simples céptico consegue fazer muito melhor com o poder da mente (aquele poder da mente que permite perceber de química - ver explicação):

Este princípio já foi usado por ilusionistas com bastante sucesso. Até um adolescente consegue demonstrações mais interessantes com um garfo que as de Uri Geller com uma colher (a dobrar colheres como Uri há muitos). Mas o mais cómico foi Andrija Puharich, o “investigador” que ajudou a catapultar Geller (e outros charlatães). Tive a oportunidade de ler parte do livro dele: Uri Geller - Crónica de um Enigma. É hilariante, cheio de relatos de mensagens de extraterrestres que são enviadas a Geller e Puharich de uma forma muito curiosa: aparecem num gravador de voz, mas desaparecem assim que eles as ouvem (depois torna-se um bocado repetitivo). Para além dos extraterrestres também defende que Uri Geller é um profeta bíblico destinado a liderar a humanidade… Acho que este excerto, retirado do epílogo, diz muito sobre o livro:

«Como podia eu esperar que as pessoas acreditassem na minha história, se as mais ínfimas provas em que pudesse apoiar-me tinham desaparecido? A minha única esperança residia no facto de que, aproximando-me o mais possível da verdade, esta acabaria por penetrar no coração dos homens.(…)

Vi-me depois, a braços com o problema de encontrar um editor.(…) Ao lerem as cinco páginas que constituíam o esboço deste livro, todos eles se recusaram delicadamente, como se se encontrassem perante o trabalho de um espírito demente. Alguns pediram-me que limitasse a história apenas aos factos que pudessem ser confirmados cientificamente. Em primeira análise eu tê-lo-ia feito, mas havia que ter em conta a urgência que me era imposta, pois restavam apenas alguns anos antes de se verificar a aterragem em massa

O livro foi publicado em 1974, Andrija Puharich morreu em 1995 e eu ainda estou à espera dessa grande aterragem de discos voadores. Isto ultrapassa o ridículo. Também já vi gente escrever que o Uri Geller tem poderes a sério mas às vezes usa truques. Não há limite para a irracionalidade, e Uri sabe explorar isso.

Ninguém quer ganhar um milhão?

Este ano Uri Geller esteve à frente de um programa de tv para encontrar o seu ’sucessor’, onde teve a infelicidade de revelar (por desleixo) como fazia para mover bússolas. Este programa foi importado para os EUA com o nome Phenomenon e uma pequena diferença no objectivo: uma competição de mentalistas para o prémio de 250 mil dólares. Sendo o mentalismo uma vertente do ilusionismo exclui-se a hipótese de poderes sobrenaturais verdadeiros, mas isso não impediu Uri Geller de aceitar ser associado à actividade para fazer parte do júri (desde que seja uma via para dinheiro fácil, ele está lá).

Criss Angel, um mentalista a sério (ou seja, honesto), também aceitou integrar o júri e deixou logo claro que não ia tolerar charlatães a denegrir a arte. Não tardou a surgir um desses aldrabões, Jim Callahan, que afirma ser possuído pelo espírito de um escritor falecido que lhe revela que objecto está numa caixa fechada (para o espírito não ter nada melhor que fazer, a eternidade deve ser muito entediante). A produção deve ter adorado a ideia, já que um espírita dá mais audiência que um ilusionista. Vale a pena ver a actuação absolutamente ridícula de Jim Callahan, e como o público aceita logo a ideia de ser uma prova do sobrenatural.

Tão paranormal quanto um inventário. Até como actor Jim Callahan é patético, e incomoda-me ver o espírito de um escritor a cometer um erro ortográfico em apenas 3 palavras (weels?!). Callahan passa por aquilo para ganhar 250 mil dólares, mas se estiver em causa um milhão já não se dá ao trabalho. Grande parte das pessoas, claro, acredita. Parece-lhes tão inexplicável… A Raven escolheu em segredo um objecto dum conjunto de cem e guardou-o numa caixa sem que Callahan visse. Raven, convencida pela actuação (é muito crédula), faz questão de salientar que esteve sempre de volta da caixa e que não era possível alguém ter visto o objecto que estava lá dentro. A solução vai sob a forma de uma pergunta: quem esteve a vigiar os outros 99 objectos?

Reacções. Também é interessante ver as reacções dos intervenientes: Callahan adopta uma postura abertamente agressiva, atacando directamente Criss Angel em tudo o que se lembre (ad hominem…). Uri Geller é mais experiente, tem um ataque mais subtil, e tenta puxar (de forma medíocre) para a pseudociência e invocar a incerteza, as duas formas típicas de defesa dos charlatães do paranormal. Nenhum dos dois sequer explica porque os seus ‘poderes’ não lhes permitem ver o envelope.

Raios partam a pseudociência. Como a pseudociência é coisa que me incomoda particularmente, lá vou ter de perder tempo com esse ponto. Com que então Uri diz que ninguém compreende a equação-maravilha de Einstein… eu nem sou muito dado à física mas até aí ainda chego, e já agora: foi escrita pela primeira vez em 1905 e não 1925, mas adiante. Quanto à energia ser indestrutível, de facto num sistema isolado a quantidade de energia é constante (lei da conservação da energia). Mas se formos assumir que a energia passa para o outro lado (i.e. para fora do mundo físico, do universo tal como o conhecemos), esta lei tem de ser violada. A lata de Uri ao tentar usar uma lei que contraria uma hipótese como prova dessa hipótese. Para não falar que o que define os nossos pensamentos não é a energia em si mas os padrões em que flui no nosso cérebro. Sem este tipo de suporte físico a energia tem tanta consciência como uma pilha de 9 volts. Mas há quem acredite nas justificações de Uri…

Os charlatães que continuem a aparecer, mas não peçam respeito. Felizmente eles raramente trazem ideias novas, e a maior parte são velhas conhecidas dos ilusionistas.

Categorias: Ciência · religião
Tagged: , , , , , , , ,

Ilusionistas e Cepticismo (2)

15 Novembro, 2007 · 1 Comentário

Continuando a entrada anterior, a principal arma dos ilusionistas: desviar a atenção. Mesmo as ilusões tecnicamente elaboradas costumam contar em boa parte com essa capacidade de manipulação. Os truques mais simples são os que mais se baseiam em pequenas manipulações da atenção, cómicas quando visíveis a todos menos à vítima:

Esta categoria de manipulações até já teve direito a algum estudo científico. É interessante ver o vídeo do viscog (um clássico) e tentar contar à primeira quantas vezes a rapariga da direita agarra na bola - só conheço uma pessoa que tenha contabilizado as vezes todas, requer muita atenção (caso alguém tenha tentado contar o número exacto, fica aqui o resultado para confirmação: não faço ideia, mas tem piada como ninguém costuma reparar no gorila). Voltando ao Criss Angel, uma ilusão simples que nem sequer necessita de habilidade manual:

Impressionante como basta um pouco de manipulação mental (fora a parte da cadeira) para tornar o óbvio misterioso. Um truque tão simples que julgo nem correr o risco de errar nos pormenores. Ainda assim o texto fica branqueado para só servir de confirmação. Os três toques são dados logo que o número é escolhido, quando Criss Angel ainda está perto da moça da direita. Como ela tem os olhos fechados nunca sabe quando é feita a demonstração visual, e ele tem o cuidado de só falar com ela quando está mais perto. Na segunda vez que ele lhe ‘toca’ ela apenas ouve um pedido para confirmar o que tinha dito antes, ignorando a segunda demonstração. O resto são adereços ‘armadilhados’.

Ainda nas ilusões simples, David Blaine é um ilusionista medíocre comparado com Criss Angel, mas útil neste tema já que parece depender muito de truques de algibeira já vistos antes. Estes costumam resultar, como provam as suas duas ilusões de levitação: numa parece usar uma variação elegante do Sooperman, e noutra até a levitação de Balducci resulta (basta um rapaz crédulo e um pouco de teatro..). Mas a que melhor serve a este contexto é esta:

Para além do relógio, também o primeiro mini-truque é interessante. Interessante porque não há truque nenhum mas David Blaine consegue convencer o público que as cartas trocaram de posição na mão da vítima, e as dúvidas dissipam-se com a demonstração no baralho. Esta tendência para em caso de dúvida se confirmar o que parece consensual também é importante noutros ‘fenómenos’. E cuidado com os carteiristas.

Categorias: Ciência · pérolas · religião
Tagged: , ,

Ilusionistas e Cepticismo (1)

14 Novembro, 2007 · 2 Comentários

É quase impossível um céptico não gostar de ilusionistas. Muitos dos métodos que usam fazem também parte do reportório de muitos charlatães, mas há uma diferença fundamental: o ilusionista não esconde que está a enganar a audiência. Mesmo com essa dose extra de desconfiança por parte do público, um bom ilusionista consegue sempre a mesma incredulidade como resposta.

Duas regras definem os ilusionistas: não revelar ao público em geral as artimanhas usadas, e não fazer crer que têm realmente poderes sobrenaturais. Estas regras, para além de protegerem e manterem a honra da profissão, servem para estimular o pensamento céptico: para satisfazer a curiosidade é preciso arranjar uma explicação para a ocorrência de algo que parece impossível mas tem uma explicação prosaica. Só não percebo porque é que quando se trata de fenómenos ‘paranormais’ (intervenções divinas incluídas) o número de pessoas que sequer tentam encontrar uma explicação racional é muitíssimo mais pequeno. A esmagadora maioria das vezes a única diferença em relação ao ilusionismo é que neste o artista admite à partida que vai ‘aldrabar’ (e até costuma apresentar demonstrações mais impressionantes).

Dos que tenho visto nos últimos tempos, Criss Angel parece ser dos mais interessantes. Esta foi a primeira ilusão dele que me mostraram:

Não é das mais complicadas de explicar, mas o reportório tem pano para mangas: é vê-lo a voar um pouco, andar sobre água, atravessar vidro, entrar onde não deve, fazer um dos poucos truques com uma moeda que valem a pena e apresentar uma versão bem mais difícil do velho ’serrar a pessoa a meio’:

Se calhar uma das coisas que mais gosto no Criss Angel é não só arranca da audiência exclamações de espanto como alguns gritos aterrorizados (um exemplo, um exemplo mais espalhafatoso, e um mais sangrento).

Muitas vezes consegue-se pelo menos avançar hipóteses para como as ilusões terão sido feitas. Por vezes as explicações até são mais rebuscadas que as técnicas usadas, mas ninguém com o mínimo de bom senso está disposto a aceitar uma causa sobrenatural como mais provável mesmo que se admita não ter informação suficiente para descrever com detalhe o que aconteceu (excluindo crianças e o ocasional caso patológico). Mas se em causa estiverem milagres ou pretensos poderes sobrenaturais, o céptico é acusado de ser uma pessoa de mente fechada que não aceita o que é óbvio: maravilhosos poderes para lá da nossa compreensão. Poupem-me.

Categorias: Ciência · pérolas · religião
Tagged: , , , ,

Interfaces Cérebro-Máquina

11 Novembro, 2007 · Sem Comentários

Saltou logo à vista na Neuroscience2007 o resumo sobre os avanços na área das interfaces cérebro-máquina. Um dos estudos é o da Universidade de Pittsburgh que conseguiu ter macacos rhesus a operar um braço robótico a partir de eléctrodos implantados no córtex motor. O vídeo foi disponibilizado há uns meses:

Sendo já possível mover o braço num espaço tridimensional e abrir e fechar a mão robótica, a investigação prossegue para os movimentos de pulso. A aplicação mais evidente desta tecnologia é a devolver autonomia a vítimas de paralisia e amputados. O BrainGate, desenvolvido pela Cyberkinetics em parceria com a Universidade de Brown, usa a mesma abordagem para mover um cursor no computador a partir de 100 eléctrodos implantados no córtex. Está em fase de testes com pelo menos três pacientes a usarem o aparelho. Matthew Nagle, tetraplégico, foi o primeiro:

Existem também sistemas que funcionam sem implante, usando um barrete de eléctrodos, mas são mais limitados. A maioria limita-se a uma medição unidimensional para fazer selecções numa interface simplificada quando um cursor automático estiver sobre a opção pretendida. O Brainloop vai um pouco mais longe e usa os impulsos eléctricos das áreas motoras usadas para mexer a mão esquerda, direita e os pés, permitindo operações um pouco mais complexas (vídeo).

Categorias: Ciência · Tecnologia