a mansarda

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Ilusionistas e Cepticismo (3)

19 Novembro, 2007 · Sem Comentários

[parte 1, parte 2]

Ilusionistas vs Charlatães

Para além de incentivarem o pensamento céptico, desde há muito que alguns ilusionistas têm um papel importante a desmascarar os charlatães do paranormal. Houdini não ficou só célebre pelas suas fugas e morte trágica mas também pelo trabalho que teve a expor espíritas e semelhantes após a morte da sua mãe. Para além de ir por vezes disfarçado a sessões de ‘actividade paranormal’ para denunciar os burlões às autoridades, também integrou o painel de especialistas do prémio da Scientific American para mediums.

Hoje em dia o sucessor deste prémio é o da James Randi Educational Foundation. Este prémio, no valor de um milhão de dólares, será oferecido a quem demonstrar poderes paranormais num ambiente controlado. Já tentaram concorrer mais de mil mediums mas nenhum conseguiu sequer passar os testes preliminares. Infelizmente, nem o prémio nem o trabalho de Randi a desmascarar fraudes famosas (chegou a ter um programa na tv) parece impedir que os charlatães prosperem. Existe no público em geral uma permissividade enorme para aldrabões que invoquem o sobrenatural. Neste vídeo James Randi aborda alguns destes fenómenos: Uri Geller, uma das grandes fraudes do século (passado), Peter Popoff, um tele-evangelista, e os ‘cirurgiões sem bisturi’ filipinos:

Uri Geller: mini-crónica de uma fraude

Três exemplos detestáveis, mas se Popoff ficou falido e não tenho ouvido falar de mais cirurgiões filipinos, Uri Geller ainda consegue ter quem o leve a sério. Então a ideia de que se pensarmos nas coisas elas acontecem parece estar mais popular do que nunca (maldito ‘Segredo). O sucesso que ele teve a enganar até alguns cientistas durante a década de 70 é ainda usado por Geller para se tentar afirmar como alguém com poderes sobrenaturais (que lhe foram oferecidos por extraterrestres…). Com o passar do tempo muitas das técnicas que usa têm sido descobertas, desde fazer mexer bússolas até às leituras telepáticas (para não falar das colheres). É ridículo como Geller conseguiu enriquecer a dobrar colheres em que tinha de mexer com as mãos, quando um simples céptico consegue fazer muito melhor com o poder da mente (aquele poder da mente que permite perceber de química - ver explicação):

Este princípio já foi usado por ilusionistas com bastante sucesso. Até um adolescente consegue demonstrações mais interessantes com um garfo que as de Uri Geller com uma colher (a dobrar colheres como Uri há muitos). Mas o mais cómico foi Andrija Puharich, o “investigador” que ajudou a catapultar Geller (e outros charlatães). Tive a oportunidade de ler parte do livro dele: Uri Geller - Crónica de um Enigma. É hilariante, cheio de relatos de mensagens de extraterrestres que são enviadas a Geller e Puharich de uma forma muito curiosa: aparecem num gravador de voz, mas desaparecem assim que eles as ouvem (depois torna-se um bocado repetitivo). Para além dos extraterrestres também defende que Uri Geller é um profeta bíblico destinado a liderar a humanidade… Acho que este excerto, retirado do epílogo, diz muito sobre o livro:

«Como podia eu esperar que as pessoas acreditassem na minha história, se as mais ínfimas provas em que pudesse apoiar-me tinham desaparecido? A minha única esperança residia no facto de que, aproximando-me o mais possível da verdade, esta acabaria por penetrar no coração dos homens.(…)

Vi-me depois, a braços com o problema de encontrar um editor.(…) Ao lerem as cinco páginas que constituíam o esboço deste livro, todos eles se recusaram delicadamente, como se se encontrassem perante o trabalho de um espírito demente. Alguns pediram-me que limitasse a história apenas aos factos que pudessem ser confirmados cientificamente. Em primeira análise eu tê-lo-ia feito, mas havia que ter em conta a urgência que me era imposta, pois restavam apenas alguns anos antes de se verificar a aterragem em massa

O livro foi publicado em 1974, Andrija Puharich morreu em 1995 e eu ainda estou à espera dessa grande aterragem de discos voadores. Isto ultrapassa o ridículo. Também já vi gente escrever que o Uri Geller tem poderes a sério mas às vezes usa truques. Não há limite para a irracionalidade, e Uri sabe explorar isso.

Ninguém quer ganhar um milhão?

Este ano Uri Geller esteve à frente de um programa de tv para encontrar o seu ’sucessor’, onde teve a infelicidade de revelar (por desleixo) como fazia para mover bússolas. Este programa foi importado para os EUA com o nome Phenomenon e uma pequena diferença no objectivo: uma competição de mentalistas para o prémio de 250 mil dólares. Sendo o mentalismo uma vertente do ilusionismo exclui-se a hipótese de poderes sobrenaturais verdadeiros, mas isso não impediu Uri Geller de aceitar ser associado à actividade para fazer parte do júri (desde que seja uma via para dinheiro fácil, ele está lá).

Criss Angel, um mentalista a sério (ou seja, honesto), também aceitou integrar o júri e deixou logo claro que não ia tolerar charlatães a denegrir a arte. Não tardou a surgir um desses aldrabões, Jim Callahan, que afirma ser possuído pelo espírito de um escritor falecido que lhe revela que objecto está numa caixa fechada (para o espírito não ter nada melhor que fazer, a eternidade deve ser muito entediante). A produção deve ter adorado a ideia, já que um espírita dá mais audiência que um ilusionista. Vale a pena ver a actuação absolutamente ridícula de Jim Callahan, e como o público aceita logo a ideia de ser uma prova do sobrenatural.

Tão paranormal quanto um inventário. Até como actor Jim Callahan é patético, e incomoda-me ver o espírito de um escritor a cometer um erro ortográfico em apenas 3 palavras (weels?!). Callahan passa por aquilo para ganhar 250 mil dólares, mas se estiver em causa um milhão já não se dá ao trabalho. Grande parte das pessoas, claro, acredita. Parece-lhes tão inexplicável… A Raven escolheu em segredo um objecto dum conjunto de cem e guardou-o numa caixa sem que Callahan visse. Raven, convencida pela actuação (é muito crédula), faz questão de salientar que esteve sempre de volta da caixa e que não era possível alguém ter visto o objecto que estava lá dentro. A solução vai sob a forma de uma pergunta: quem esteve a vigiar os outros 99 objectos?

Reacções. Também é interessante ver as reacções dos intervenientes: Callahan adopta uma postura abertamente agressiva, atacando directamente Criss Angel em tudo o que se lembre (ad hominem…). Uri Geller é mais experiente, tem um ataque mais subtil, e tenta puxar (de forma medíocre) para a pseudociência e invocar a incerteza, as duas formas típicas de defesa dos charlatães do paranormal. Nenhum dos dois sequer explica porque os seus ‘poderes’ não lhes permitem ver o envelope.

Raios partam a pseudociência. Como a pseudociência é coisa que me incomoda particularmente, lá vou ter de perder tempo com esse ponto. Com que então Uri diz que ninguém compreende a equação-maravilha de Einstein… eu nem sou muito dado à física mas até aí ainda chego, e já agora: foi escrita pela primeira vez em 1905 e não 1925, mas adiante. Quanto à energia ser indestrutível, de facto num sistema isolado a quantidade de energia é constante (lei da conservação da energia). Mas se formos assumir que a energia passa para o outro lado (i.e. para fora do mundo físico, do universo tal como o conhecemos), esta lei tem de ser violada. A lata de Uri ao tentar usar uma lei que contraria uma hipótese como prova dessa hipótese. Para não falar que o que define os nossos pensamentos não é a energia em si mas os padrões em que flui no nosso cérebro. Sem este tipo de suporte físico a energia tem tanta consciência como uma pilha de 9 volts. Mas há quem acredite nas justificações de Uri…

Os charlatães que continuem a aparecer, mas não peçam respeito. Felizmente eles raramente trazem ideias novas, e a maior parte são velhas conhecidas dos ilusionistas.

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Ilusionistas e Cepticismo (2)

15 Novembro, 2007 · 1 Comentário

Continuando a entrada anterior, a principal arma dos ilusionistas: desviar a atenção. Mesmo as ilusões tecnicamente elaboradas costumam contar em boa parte com essa capacidade de manipulação. Os truques mais simples são os que mais se baseiam em pequenas manipulações da atenção, cómicas quando visíveis a todos menos à vítima:

Esta categoria de manipulações até já teve direito a algum estudo científico. É interessante ver o vídeo do viscog (um clássico) e tentar contar à primeira quantas vezes a rapariga da direita agarra na bola - só conheço uma pessoa que tenha contabilizado as vezes todas, requer muita atenção (caso alguém tenha tentado contar o número exacto, fica aqui o resultado para confirmação: não faço ideia, mas tem piada como ninguém costuma reparar no gorila). Voltando ao Criss Angel, uma ilusão simples que nem sequer necessita de habilidade manual:

Impressionante como basta um pouco de manipulação mental (fora a parte da cadeira) para tornar o óbvio misterioso. Um truque tão simples que julgo nem correr o risco de errar nos pormenores. Ainda assim o texto fica branqueado para só servir de confirmação. Os três toques são dados logo que o número é escolhido, quando Criss Angel ainda está perto da moça da direita. Como ela tem os olhos fechados nunca sabe quando é feita a demonstração visual, e ele tem o cuidado de só falar com ela quando está mais perto. Na segunda vez que ele lhe ‘toca’ ela apenas ouve um pedido para confirmar o que tinha dito antes, ignorando a segunda demonstração. O resto são adereços ‘armadilhados’.

Ainda nas ilusões simples, David Blaine é um ilusionista medíocre comparado com Criss Angel, mas útil neste tema já que parece depender muito de truques de algibeira já vistos antes. Estes costumam resultar, como provam as suas duas ilusões de levitação: numa parece usar uma variação elegante do Sooperman, e noutra até a levitação de Balducci resulta (basta um rapaz crédulo e um pouco de teatro..). Mas a que melhor serve a este contexto é esta:

Para além do relógio, também o primeiro mini-truque é interessante. Interessante porque não há truque nenhum mas David Blaine consegue convencer o público que as cartas trocaram de posição na mão da vítima, e as dúvidas dissipam-se com a demonstração no baralho. Esta tendência para em caso de dúvida se confirmar o que parece consensual também é importante noutros ‘fenómenos’. E cuidado com os carteiristas.

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Ilusionistas e Cepticismo (1)

14 Novembro, 2007 · 2 Comentários

É quase impossível um céptico não gostar de ilusionistas. Muitos dos métodos que usam fazem também parte do reportório de muitos charlatães, mas há uma diferença fundamental: o ilusionista não esconde que está a enganar a audiência. Mesmo com essa dose extra de desconfiança por parte do público, um bom ilusionista consegue sempre a mesma incredulidade como resposta.

Duas regras definem os ilusionistas: não revelar ao público em geral as artimanhas usadas, e não fazer crer que têm realmente poderes sobrenaturais. Estas regras, para além de protegerem e manterem a honra da profissão, servem para estimular o pensamento céptico: para satisfazer a curiosidade é preciso arranjar uma explicação para a ocorrência de algo que parece impossível mas tem uma explicação prosaica. Só não percebo porque é que quando se trata de fenómenos ‘paranormais’ (intervenções divinas incluídas) o número de pessoas que sequer tentam encontrar uma explicação racional é muitíssimo mais pequeno. A esmagadora maioria das vezes a única diferença em relação ao ilusionismo é que neste o artista admite à partida que vai ‘aldrabar’ (e até costuma apresentar demonstrações mais impressionantes).

Dos que tenho visto nos últimos tempos, Criss Angel parece ser dos mais interessantes. Esta foi a primeira ilusão dele que me mostraram:

Não é das mais complicadas de explicar, mas o reportório tem pano para mangas: é vê-lo a voar um pouco, andar sobre água, atravessar vidro, entrar onde não deve, fazer um dos poucos truques com uma moeda que valem a pena e apresentar uma versão bem mais difícil do velho ’serrar a pessoa a meio’:

Se calhar uma das coisas que mais gosto no Criss Angel é não só arranca da audiência exclamações de espanto como alguns gritos aterrorizados (um exemplo, um exemplo mais espalhafatoso, e um mais sangrento).

Muitas vezes consegue-se pelo menos avançar hipóteses para como as ilusões terão sido feitas. Por vezes as explicações até são mais rebuscadas que as técnicas usadas, mas ninguém com o mínimo de bom senso está disposto a aceitar uma causa sobrenatural como mais provável mesmo que se admita não ter informação suficiente para descrever com detalhe o que aconteceu (excluindo crianças e o ocasional caso patológico). Mas se em causa estiverem milagres ou pretensos poderes sobrenaturais, o céptico é acusado de ser uma pessoa de mente fechada que não aceita o que é óbvio: maravilhosos poderes para lá da nossa compreensão. Poupem-me.

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O Milagre do Sol (2)

16 Outubro, 2007 · 2 Comentários

continuação de O Milagre do Sol (1)

Chegada então a altura da explicação racional do fenómeno, 90 anos depois dos jornais anunciarem um milagre. Isto não vai mudar nada em relação a Fátima: esse outro fenómeno é uma entidade que se alimenta a si própria. Podiam surgir todas as explicações do mundo, a própria igreja podia repudiar o fenómeno (não o fará), podia ser provado que Lúcia era demente, mas mesmo assim Fátima permaneceria. É o problema da fé: assim que se aceita uma crença, não há razão que a demova. E Fátima é mais do que uma simples manifestação religiosa: é folclore popular. E folclore reforçado com religião é duro que nem pedra.

Mas há gente de bom senso que fica na dúvida quando confrontada com o milagre do sol. É compreensível, dada a desinformação que há cada vez que se fala nisso. Só ao ler os relatos da altura comecei a ter noção de que isto não era um fenómeno tão misterioso quanto isso. É só tão invulgar quanto o contexto em que se deu e um acto que é hoje considerado particularmente estúpido: olhar directamente para o sol. Os únicos fenómenos pouco comuns foram o sol ter aparecido particularmente fraco (normal, tinha chovido e tudo…) e o clima de euforia religiosa que eclipsou qualquer réstia de razão. Parece ridículo, e até certo ponto é mesmo, mas quanto mais leio os testemunhos à luz desta explicação, mais esta se apresenta mais sólida do que qualquer outra. Especialmente a explicação católica oficial que , mesmo se ignorarmos a ciência, tem mais buracos do que um queijo suiço.

Claro que não vale a pena gritar “eureka! eureka!” quando alguém já gritou “Milagre! Milagre!”, mas ficam aqui os argumentos…

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O Milagre do Sol (1)

14 Outubro, 2007 · 1 Comentário

Segue então a primeira parte da análise do fenómeno (no sentido mais lato do termo) que a Igreja Católica (especialmente em Portugal) afirma tratar-se de uma prova incontornável de uma manifestação divina que servirá de prova para as aparições a três crianças, alegadamente protagonizadas pela mãe virgem do filho de Deus.

Aqui são enumerados os fenómenos descritos nos vários relatos, e eliminados os de refutação imediata. Posteriormente será feita a análise aos fenómenos-chave e serão avançadas as explicações.

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