a mansarda

Entradas marcadas como ‘china’

Festival dos pequenos déspotas

7 Outubro, 2007 · 1 Comentário

Weijun Chen escreve na BBC sobre Please Vote for Me, o trabalho do realizador integrado no documentário Why Democracy?.

Filmando uma turma da terceira classe durante a eleição do chefe de turma, Chen tenta descobrir como reage a China à democracia. Para os miúdos, num país educado para respeitar a autoridade, é a hipótese de ter poder. Para os pais dos miúdos, num país onde 60% dos licenciados sonham com uma carreira no governo, é uma oportunidade para treinar os seus rebentos, filhos únicos, na realpolitik que os poderá levar a grandes cargos.

Nas imagens os dois pesos pesados da eleição: Luo Lei (à esquerda), o candidato do sistema no poder há 2 anos, e Cheng Cheng (direita), dotado de um espírito maquiavélico digno de Karl Rove. Xiaofei é a underdog, aceita com relutância candidatar-se a pedido da mãe.

Cheng Cheng está na política como peixe na água. No excerto disponível no YouTube é vê-lo a prometer cargos em troca de votos, a espiar adversários e a sabotar o discurso de Xiaofei.

Cheng Cheng, whose ultimate ambition was to be president of China, wanted to be class monitor because, he said: “You can order people around.”
He was coached by his parents in speechmaking, singing, and wrong-footing his rivals.

 

A pobre Xiaofei acaba por sucumbir à pressão. Mas o trabalho do pequeno manipulador não se fica por aqui. No dia seguinte diz a Xiaofei que foi tudo uma maquinação de Luo Lei, para depois tentar a mesma táctica durante o discurso deste.

Luo Lei parece mais ponderado, com uma postura mais própria de um estadista chinês.

When asked whether he wanted the help of his parents in securing his classmates’ votes, he said: “No, I will rely on my own strength.
“I don’t want to control others. People should think for themselves.”

Idealista? Ou terá um domínio de doublespeak para lá dos seus 8 anos de idade? O departamento da polícia a que o pai pertence controla o monocarril e oferece à turma uma viagem. Os pais de Luo Lei também lhe compram presentes para ele oferecer aos colegas no fim do discurso.

Um duelo de titãs, portanto. No embate final, Cheng Cheng acusa Luo Lei de ser um déspota e de bater nos colegas. Luo Lei defende-se dizendo que até os pais batem nos filhos e que ele só o faz quando alguém se porta mal. Admite mudar se o método estiver errado.

No final, a turma concorda que Luo Lei é muito severo mas acaba por elegê-lo num sufrágio de voto secreto. O realizador conclui:

I believe the children’s joy and sorrow throughout the election, their winning and losing, truly reflect the tough yet hopeful democratisation process in China.

 

A mim só me relembra que uma democracia formal não garante democracia real em lado nenhum. Raramente o povo mostra mais discernimento que a turma da terceira classe. O mundo pertence aos ‘Luo Lei’s e aos ‘Cheng Cheng’s.

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Revolução Birmanesa (3) [Requiem?]

4 Outubro, 2007 · 3 Comentários

A revolução parece ter sido adiada por tempo indefinido.

Olhando para página da BBC com a cronologia da Birmânia, a entrada de Outubro revela a mudança em relação ao espírito de Setembro:

«2007 October - Normality returns to Rangoon amid heavy military presence. Monks are absent, after thousands are reportedly rounded up.»

O mesmo tom por todos os media. Tudo indica que a revolução perdeu o momento. Revolução falhada. Um artigo fala de uma ‘tensão de cortar à faca’ em Yongon, mas a leitura revela que é só o medo. Com milhares já encarcerados, as forças militares continuam a fazer rusgas nocturnas para levar quem quer que suspeitem de animosidade contra o regime. Muitos monges abandonam a cidade rumo às zonas rurais.

Tentam tirar-se conclusões, descobrir as razões do fracasso, e surge a receita para uma revolução bem sucedida. Só tiro uma conclusão: uma revolução pacífica pressupõe um certo respeito por um ser humano. Quebrado este elo de empatia entre as forças do regime e os súbditos acossados, só uma pressão externa capaz de ameaçar o centro de poder pode dar esperança. Não parece ser o caso.

Tom White, adido cultural do Reino Unido na Birmânia em 1988, fala da estranha batalha numerológica entre a junta e a oposição (BBC). A ditadura vê no 9 o seu número da sorte, a oposição crê no 8. As datas escolhidas por cada lado parecem corroborar a teoria. Quanto ao que se passa na cabeça da junta:

«Their perceived duty is to suppress the democracy movement, whatever the cost in human suffering, for the greater good of the nation. In their own eyes, and encouraged by their astrologers, this is a virtuous action. »

Longe de ajudar a resolver o conflito pacificamente, como tinha sido avançado inicialmente, a religião pode agravar o distanciamento entre governantes e o povo. Isabel Arriaga e Cunha também fala (no Eurotalk) da sua experiência em 1988, durante apenas uma semana por imposição do regime, com fim no dia em que a repressão começou. Uma visão mais próxima do povo e das baixas patentes, que também é importante.

Com forte presença militar nas ruas, as pessoas parecem retomar as suas vidas. A repressão aparenta ter sido bem sucedida. Um oficial birmanês desertou para a Tailândia por não querer matar monges, e revela em entrevistas as ordens explícitas para espancar e matar. Mas esta deserção é um caso isolado e não há sinais de vir a ser repetida num futuro próximo. Números oficiais fecham a contagem de mortos em pouco mais de dez, embora fontes independentes digam que o número real poderá ser bem superior. A Democratic Voice of Burma fala em 183. Vendo as imagens de Kenji Nagai, o jornalista japonês abatido por militares birmaneses, transparece a casualidade com que uma morte pode ocorrer quando os protestantes são dispersados:

O Japão juntou-se ao coro dos protestos, e há quem afirme que tem poder negocial enquanto principal fornecedor de ajuda humanitária para a Birmânia. As autoridades ameaçam retirar o apoio mas a junta militar não deve estar minimamente preocupada.

A China é que parece ter feito a escolha acertada. Esperaram, empataram, saem por cima. ‘Estabilidade’ não parece ser um problema para já. Sobra apenas um pequeno receio de boicotes nos jogos Olímpicos, mas até lá é bem provável que a coisa passe.

UE reforça sanções, mas com China, Índia e ASEAN a alimentar o regime a eficácia desta medida é duvidosa. A tentativa do Conselho para os Direitos Humanos da ONU de condenar a junta perdeu o tom de condenação, perante a pressão da China e da Índia. No Conselho de Segurança, China e Rússia barram qualquer resolução com significado. Quanto ao enviado da ONU, de volta com o relato do que se passa, a fotografia do aperto de mão com a líder da Liga Nacional para a Democracia não deixa prever grandes desenvolvimentos. A expressão de Aung San Suu Kyi é mais grave que o costume, contrastando com o leve sorriso de Gambari. Voltando a Tom White:

«the world’s democracies should mobilise the resources of their intelligence agencies, rather than soothing their consciences by imposing further useless economic sanctions (unless these can be extended to China, India and Asean, when they really would have an effect). »

Não, na China ninguém toca. Mesmo que existisse alguma vontade real de impor sanções à China, a situação actual da economia seria mais do que suficiente para impedir essas aventuras. O Rocketboom (em baixo) também se debruça sobre a Birmânia, com um bom resumo dos acontecimentos. Mais curioso é ver que o Jim Carrey acredita que inundando a caixa de correio das Nações Unidas se consegue uma acção por parte do Conselho de Segurança. Eu até sorria com tanta ingenuidade se não tivesse ficado deprimido. Mas é bom saber que abundam maneiras de apaziguar a consciência com a ideia do poder popular. Pequenos gestos reconfortantes que vão obrigar os ‘world leaders’ a mudar o mundo. Enfim, ilusões da democracia que não se aplicam para lá das suas fronteiras.

Relembrando a batalha entre o 8 e o 9 na numerologia das duas facções, 2007 soma 9 e é o ano do regime. Para o ano pode ser diferente. Talvez por Agosto o povo Birmanês decida que é altura de arriscar-se a um novo massacre. Talvez três 8 sejam o equilíbrio. Mas para mim, que já não consigo aderir a superstições, é complicado manter alguma esperança.

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Revolução Birmanesa (2)

27 Setembro, 2007 · 1 Comentário

Na Birmânia (ou Mianmar, discussão aqui), a situação parece agravar-se. As fortes crenças religiosas não parecem ser detractores suficientes para as investidas das forças governamentais, tendo pelo menos um monge sido morto, estando outros dois nos cuidados intensivos. Na lista deste ano da Transparency International a Birmânia junta-se à Somália e ao Iraque no fundo da tabela da corrupção (a liberdade de imprensa não é melhor). Razões suficientes para uma continuação da entrada anterior.

No New Statesman Michael Charney, historiador especialista em História birmanesa, explica o contexto da situação actual na Birmânia. Conclui dizendo que já estamos para lá da altura em que sanções poderiam surtir alguma mudança, e que a opção mais realista passa por pressionar a China (”soft pressure”) a obrigar o regime a abdicar a favor da Liga Nacional para a Democracia. Relatos vindos do interior do país podem seguidos a partir da BBC.

A reacção da comunidade internacional continua tímida. Discursos de apoio aos protestantes abundam, mas as acções até agora ficam-se por mais sanções (se a Rússia deixar) e um enviado especial da ONU. Fora das Nações Unidas, os EUA têm também exercido pressão sobre a China para intervir (o George devia ouvir a Laura mais vezes). Se a China está para aí virada é outra questão, pelo menos o desejo de estabilidade na vizinhança pode estar a evitar um aumento ainda maior da violência.

Ficam as esperanças de democracia a depender de uma ditadura?

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Ciberterrorismo de estado

20 Setembro, 2007 · Sem Comentários

Um artigo na Scientific American relembra a nova tendência no mundo da espionagem. O artigo foca sobretudo os ataques atribuídos à China, sem esquecer uma perspectiva mais alargada do problema. O ataque recente à Estónia, atribuído à Rússia, é brevemente referido. A Detsche Welle também se debruça sobre a questão, notando que os casos mediáticos podem ser apenas a ponta do icebergue.

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