a mansarda

Entradas marcadas como ‘democracia’

Tasers de novo em discussão: morte de Robert Dziekansky

16 Novembro, 2007 · Sem Comentários

Um caso sob investigação torna a levantar questões sobre o uso abusivo de tasers por forças de segurança: Robert Dziekansky morreu no aeroporto de Vancouver depois de agredido com um taser pela polícia. O caso veio para a ribalta porque, tal como no famoso “don’t tase me bro“, o vídeo está disponível, após ter sido devolvido pela polícia ao autor (BBC - versão curta).

Contexto. Robert Dziekansky, polaco de 40 anos, tinha emigrado para o Canadá onde iria viver com a mãe, que já residia no país. Combinou encontrar-se com ela na zona das bagagens do aeroporto, visto não falar inglês, mas nenhum dos dois sabia que da zona de livre acesso não era possível ver a zona das bagagens. Ao fim de 6 horas de espera sem saber dele a mãe acabou por abandonar o aeroporto. Robert nunca tinha andado de avião até àquele dia e só saiu da zona das bagagens cerca de 10 horas depois de ter chegado. O vídeo disponível no YouTube mostra os últimos 9 minutos de Robert Dziekansky.

Morte. Num estado alterado, revelador de frustração e desorientação, Dziekansky começa a ter um comportamento desordeiro mas não parece mostrar sinais de agressividade contra pessoas. Os quatro elementos da polícia que chegam ao local rodeiam-no e disparam o taser. Mesmo com o sujeito no chão um taser é disparado segunda vez antes de os agentes o dominarem, embora não pareça ter oferecido resistência. Robert Dziekansky deixa de gritar, fica imóvel e segundos depois é chamada uma equipa de emergência ao local que o declara morto.

Tasers. Segundo a CBC já morreram 18 pessoas desde 2003 no Canadá devido ao uso de tasers, uma informação preocupante dada a leviandade com que estas armas são usadas por serem ‘não-letais’ (a maior parte das vezes). Neste caso não parece ter havido grande justificação para o uso da arma sem serem tentadas outras formas de controlar a vítima. Ainda há pouco tempo tinham surgido outros casos que também levantavam esta questão, sendo bem exemplificativo o de um miúdo de 15 anos, autista, sujeito a um taser para impedi-lo de ir em direcção à estrada. Nesse caso a justificação do agente foi que teve de escolher entre deixá-lo morrer ou dar-lhe o choque. Não parece ser a forma mais óbvia para um agente treinado subjugar alguém com 15 anos, tal como no caso da palestra de Kerry seria de supor que cinco agentes conseguissem imobilizar um estudante sem recorrer à arma, e o mesmo se aplica a um agente que viu no taser era a melhor forma de manter sob controle uma mulher já algemada.

Se dantes ’só’ estava em causa a violência gratuita, a questão tem mesmo de ser debatida perante um caso destes. Existiam outras formas de resolver a situação, mas a falta de contenção dos agentes acabou por causar, para além do sofrimento desnecessário, mais uma morte. Alguém precisa de explicar a estes agentes policiais que os tasers servem para substituir o armas de fogo sempre que possível, e não para usar sempre que possível.

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Índice de Liberdade de Imprensa 2007

9 Novembro, 2007 · Sem Comentários

Saiu em Outubro o índice de liberdade de imprensa para 169 países da Repórteres Sem Fronteiras (via Na Média). Para medir a liberdade de imprensa (1º classificado: 0,75; 169º:114,75) o estudo baseia-se em 50 critérios ponderados que incluem violência, censura e assédio a jornalistas. Não são só tidas em conta as acções dos governos mas também as de grupos clandestinos e a impunidade com que actuam, e critérios como auto-censura e pressões financeiras. Portugal aparece numa agradável 8ª posição (com 2,0) em igualdade com Irlanda e Dinamarca. (more…)

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Putin, Vladimir Vladimirovich

7 Novembro, 2007 · 5 Comentários

Na quinta-feira passada foi revelado que a presença da OSCE nas próximas eleições russas, a realizar a 2 de Dezembro, será reduzida para um máximo de 70 pessoas por imposição do Kremlin. Nas eleições passadas o número de observadores da OSCE foi de 465: uma redução de 85% não deixa antever nada de bom para a democracia na Rússia.

Uma tomada de posição muito preocupante, especialmente tendo em conta a postura abertamente autocrática de Putin, que motiva aqui um resumo sobre a ascensão do presidente da Federação Russa e o seu regime, e a ameaça que representam.

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O Tratado de Lisboa

21 Outubro, 2007 · Sem Comentários

Sempre houve acordo quanto ao tratado reformador da União Europeia, que assumirá assim o nome de Tratado de Lisboa. Não percebi bem porque é suposto ser ‘uma vitória diplomática’ para Portugal, mas Sócrates e Barroso parecem ter ficado muito contentes. Lá se cumpriu esse ‘desígnio nacional’ de ter um tratado com o nome da cidade das sete colinas.

Será assinado em Dezembro deste ano e entrará em vigor em Janeiro de 2009, após aprovação dos estados membros. Ainda estou à espera de um documento final que junte todas as correcções e contra-correcções que existem. Se ninguém espera que vá resultar num documento acessível, por enquanto o que temos são frases do género: «No artigo 218.º, é suprimido o n.º 1; o n.º 2 passa a n.º 1 e são suprimidos os termos “nas condições previstas no presente Tratado”. É inserido um n.º 2 com a redacção do artigo 212.º»(sic). Boa sorte para quem tentar ler isto. Por isso deixo aqui apenas algumas considerações sobre o processo que levou ao tratado, e alguns links úteis para que alguém consiga compreendê-lo sem ter de navegar pela teia de artigos, alíneas e correcções. (more…)

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Festival dos pequenos déspotas

7 Outubro, 2007 · 1 Comentário

Weijun Chen escreve na BBC sobre Please Vote for Me, o trabalho do realizador integrado no documentário Why Democracy?.

Filmando uma turma da terceira classe durante a eleição do chefe de turma, Chen tenta descobrir como reage a China à democracia. Para os miúdos, num país educado para respeitar a autoridade, é a hipótese de ter poder. Para os pais dos miúdos, num país onde 60% dos licenciados sonham com uma carreira no governo, é uma oportunidade para treinar os seus rebentos, filhos únicos, na realpolitik que os poderá levar a grandes cargos.

Nas imagens os dois pesos pesados da eleição: Luo Lei (à esquerda), o candidato do sistema no poder há 2 anos, e Cheng Cheng (direita), dotado de um espírito maquiavélico digno de Karl Rove. Xiaofei é a underdog, aceita com relutância candidatar-se a pedido da mãe.

Cheng Cheng está na política como peixe na água. No excerto disponível no YouTube é vê-lo a prometer cargos em troca de votos, a espiar adversários e a sabotar o discurso de Xiaofei.

Cheng Cheng, whose ultimate ambition was to be president of China, wanted to be class monitor because, he said: “You can order people around.”
He was coached by his parents in speechmaking, singing, and wrong-footing his rivals.

 

A pobre Xiaofei acaba por sucumbir à pressão. Mas o trabalho do pequeno manipulador não se fica por aqui. No dia seguinte diz a Xiaofei que foi tudo uma maquinação de Luo Lei, para depois tentar a mesma táctica durante o discurso deste.

Luo Lei parece mais ponderado, com uma postura mais própria de um estadista chinês.

When asked whether he wanted the help of his parents in securing his classmates’ votes, he said: “No, I will rely on my own strength.
“I don’t want to control others. People should think for themselves.”

Idealista? Ou terá um domínio de doublespeak para lá dos seus 8 anos de idade? O departamento da polícia a que o pai pertence controla o monocarril e oferece à turma uma viagem. Os pais de Luo Lei também lhe compram presentes para ele oferecer aos colegas no fim do discurso.

Um duelo de titãs, portanto. No embate final, Cheng Cheng acusa Luo Lei de ser um déspota e de bater nos colegas. Luo Lei defende-se dizendo que até os pais batem nos filhos e que ele só o faz quando alguém se porta mal. Admite mudar se o método estiver errado.

No final, a turma concorda que Luo Lei é muito severo mas acaba por elegê-lo num sufrágio de voto secreto. O realizador conclui:

I believe the children’s joy and sorrow throughout the election, their winning and losing, truly reflect the tough yet hopeful democratisation process in China.

 

A mim só me relembra que uma democracia formal não garante democracia real em lado nenhum. Raramente o povo mostra mais discernimento que a turma da terceira classe. O mundo pertence aos ‘Luo Lei’s e aos ‘Cheng Cheng’s.

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