(BBC) Gillian Gibbons, de 54 anos, professora no Sudão de nacionalidade inglesa. Em Setembro cometeu o erro de deixar a turma escolher o nome de um urso de peluche. Erro porque Mohammad, Maomé, é um nome comum entre países muçulmanos (tive uma vez um iraniano na minha turma com esse nome), e uma das crianças achou que seria boa ideia dar o seu nome próprio ao simpático ursinho.
Assim que saiu cá para fora que a inglesa tinha dado o nome de Maomé a um urso de peluche, ela foi acusada de insultar a religião, incitar ao ódio e mostrar desprezo por crenças religiosas. Se for condenada, pode enfrentar uma pena de prisão, uma multa ou quarenta chicotadas (é a Sharia…). A perigosa prevaricadora aguarda julgamento em prisão preventiva.
Sudan’s top clerics have called for the full measure of the law to be used against Mrs Gibbons and labelled her actions part of a Western plot against Islam.
Dentro de toda a imbecilidade que se vê nas teocracias, esta notícia parece merecer um prémio. Na reacção do governo britânico, os paninhos quentes do costume:
Meanwhile, in London Mr Miliband met the Sudan ambassador to discuss the case, reminding him of Britain’s “long-standing tradition of religious tolerance”. (…)
After the meeting with Ambassador Omer Siddig, Mr Miliband said he emphasised Britain’s respect of Islam and the “close relations” between the two countries.
Claro, é o grande Islão, não podemos ofender o grande Islão, nós até gostamos muito do Islão, pedimos desculpa, não podem deixar passar esta nossa transgressão? Se uma professora inglesa fosse presa em Portugal por um motivo idiota destes acho que já estaríamos a receber um ultimato inglês. Numa coisa Miliband tem razão, poucos países têm a tolerância servil e alucinada que o Reino Unido tem perante o Islão. A imagem que se segue é retirada de um artigo de Christopher Hitchens na Vanity Fair, Londinstan Calling:
Tolerar os intolerantes, historicamente, nunca deu muito bom resultado. Nas democracias civilizadas, é normal delinear-se o limite da liberdade de expressão no incitamento à violência. Nesta fotografia, tirada em frente à embaixada francesa em Londres, pode ler-se que quem insulta o islão deve ser decapitado e ainda aproveitam para prometer à Europa mais um 11 de Março. Foi por causa dos cartoons dinamarqueses, mas podia ser por qualquer outra coisa. Temos de tolerar esta cambada de fanáticos?
Voltando ao ursinho Maomé, as últimas linhas da notícia na BBC:
a spokesman for the Muslim youth organisation, the Ramadhan Foundation, said “this matter is not worthy of arrest or detention and her continued detention will not help repair the misconceptions about Islam.”
(…)O Estado laico tem vindo a afastar a Igreja da vida pública. A Igreja reagiu canonizando, no domingo passado, 498 mortos da Guerra Civil.
Porém, um dos aspectos mais salientes desta luta é a intromissão dos judeus. Sempre prontos a encontrar uma brecha por onde possam entrar e dividir, os líderes judeus de toda a Europa - no mesma semana da canonização dos mortos pela Santa Sé - reuniram-se em Madrid para lembrarem os mortos da Inquisição espanhola e, segundo eles, celebrarem o reavivar da vida judaica em Espanha (vivem em Espanha 15 mil judeus).
(…)foi na Península Ibérica que os judeus foram melhor acolhidos e tratados ao longo de toda a sua longa história, por entre os múltiplos povos e lugares em que viveram. É claro que, mesmo aqui, acabaram por dar motivos para serem expulsos, primeiro de Espanha (1492), e depois de Portugal (1521). Mas isso foi o que eles fizeram em todos os países que os receberam durante a sua história de milénios. E que voltam agora a fazer em Espanha, mais de cinco séculos depois. Está-lhes literalmente na massa do sangue.
Foram tão bem tratados na Península, os pérfidos Judeus, mas fizeram judiarias, como de costume… já conhecia os desvarios de Pedro Arroja… mas duma destas, é claro que eu não estava à espera.
Título de insulto fácil, admito, e muito repetido. Mas por boa razão: João César das Neves consegue ser particularmente irritante e insultuoso. Às vezes consegue escrever coisas minimamente interessantes, mas quando puxa para o lado católico a qualidade tem tendência a vir por aí abaixo. E foi, mais uma vez, o que aconteceu. Na sua crónica no DN, César das Neves não resiste em pegar na questão do rastreio pré-natal para lançar um ataque à legalização do aborto.
A primeira tendência é para ignorar mais um artigo em que a devoção católica eclipsa qualquer conhecimento que eventualmente tenha para oferecer. Não seria o primeiro, não será o último. Mas este, achei-o particularmente grave. Ele começa por comentar uma notícia do DN, “Rastreio pré-natal falha em 60% das grávidas”, que considera imediatamente um incentivo encapotado ao aborto. Até aqui nada de especial a apontar, discórdias menores. Mas depois depressa surge a retórica pela proibição do aborto, em que tem de vir o discurso sensacionalista do costume. Uma pequena amostra:
«Este ano, o País aprovou a liberalização do aborto. Hoje calaram-se os argumentos, discussões, elaborações ideológicas. Mas coisas destas nunca se vão embora. Quando fechamos os olhos à violação dos direitos humanos ela cresce sempre mais. Vive-se a lenta degradação de carácter, a terrível descida na infâmia.»
É o costume e, de facto, coisas destas nunca se vão embora. Mas se fosse só esta retórica inflamada, e a insistência em chamar criança a um feto, eu não tinha escrito nada. O pior vem depois. Faz finalmente a ligação com o título e é aqui que se percebe que vai ser feito o paralelo entre liberalização do aborto e nazismo. Mais um afloramento da lei de Godwin? Também, mas é muito mais do que isso: é a mais pura e abjecta imbecilidade. César das Neves avisa que é por este caminho de liberalização que entra o nazismo. Mas não é o ridículo do argumento que mais atormenta, é a comparação. Vamos esclarecer primeiro uma coisa: Hitler só incentivou o aborto às ‘raças inferiores’. Era completamente proibido o aborto por partes de mulheres arianas, as únicas mulheres que seriam para Hitler merecedoras do termo ’seres humanos’. Portanto Hitler seria obviamente contra uma lei do aborto nos moldes actuais. Mas mesmo sabendo disto eu nunca acusei um opositor ao aborto de promover o nazismo. Penso duas vezes antes de associar alguém a este regime. Hitler também se afirmava católico, e a igreja católica pactuou (com direito a concordata) com o seu regime e todos os outros de inspiração fascista. Mas César das Neves insiste:
«Este paralelo entre o aborto e o nazismo é feito num livro que acaba de sair. O volume Ao Gólgota!- A Liberalização do Aborto e o Nazismo (Editora Crucifixus, 2007) reúne os artigos que o franciscano padre Nuno Serras Pereira publicou na Internet no último ano e meio.
Como pode alguém comparar a nossa situação com o horror do nazismo? Passa pela cabeça essa semelhança? Se pensa assim, por favor não se esqueça que esse era precisamente o sentimento que tinha a despreocupada Berlim de 1923. Esse é o enigma do ovo da serpente.»
Para quem não é versado em calão beato, gólgota é o calvário, o monte em que Jesus foi crucificado. Já estou habituado a que se refiram ao aborto como a maior tragédia do mundo, nada de novo. Mas a ideia de que foi esta postura da liberalização que permitiu o avanço do nazismo… não terão sido antes este tipo de reacções contra a liberalização que levaram ao florescimento de tão aberrante regime? Que fez multidões aceitarem o autoritarismo? Esqueçamos 1923 e avancemos uma década até 1933, quando o regime estava no poder e começava a dar uma ideia do que era realmente. Vejamos o que foi dito em igrejas alemãs na missa da Páscoa desse ano:
«A state that once again rules in God’s name can count not only on our applause but also on enthusiastic and active cooperation from the church. With joy and thanks we see how this new state rejects blasphemy, attacks immorality, promotes discipline and order with a firm hand, demands awe before God, works to keep marriage sacred and our youth spiritually instructed, brings honor back to fathers of families, ensures that love of people and fatherland is no longer mocked, but burns in a thousand hearts.»
Gostava de propor à editora Crucifixus esta passagem como prefácio da próxima edição. Mas que continue César das Neves a combater “a lenta degradação de carácter, a terrível descida na infâmia”, de certeza que é a melhor forma de evitar o nazismo.
Andy Thomson, psiquiatra, fala na AAI deste ano sobre terroristas suicidas, no que será talvez a apresentação mais completa sobre o tema que é possível fazer em menos de 1 hora. Na primeira parte dá conta da gravidade do problema do terrorismo suicida, com uma perspectiva histórica e números que mostram como tem aumentado desmesuradamente, e delineia o resto da palestra. Os hashashin são apenas brevemente referidos, mas vale a pena ler um pouco sobre os métodos usados para endoutrinar este grupo de elite de assassinos islâmicos. A palestra centra-se sobre o perfil de terroristas suicidas dos dois géneros e as tendências naturais que possibilitam estes ataques, que são justificadas do ponto de vista evolutivo. O outro tema chave é a descrição dos mecanismos cognitivos que tornam o ser humano susceptível à doutrinação religiosa, e como estes são usados para propiciar este tipo de acções terroristas.
O governo dinamarquês ofereceu-se para pagar as despesas com seguranças de Ayaan Hirsi Ali, autora do livro Infidel e argumentista da curta-metragem Submissão de Theo Van Gogh, caso ela aceite viver na Dinamarca (spiegel). Este convite vem depois de o governo holandês ter deixado de pagar essas despesas enquanto Hirsi Ali estava nos EUA. A necessidade de segurança é consequência de ameaças de morte que recebe desde 2004, ano em que o filme Submissão foi lançado. O realizador desta curta-metragem foi assassinado na Holanda por um fundamentalista islâmico nesse mesmo ano. Para saber mais sobre Hirsi Ali nada como ouvir a história contada pela própria, gravada na conferência anual da Atheist Alliance International.
Rui Carmo prevê a “violência habitual a indignação a que têm direito (divino e constitucional)” como resposta à Dinamarca da sempre comichosa comunidade fundamentalista islâmica, recordando o infame episódio dos cartoons. Sobre isto mais uma referência ao documentário Why Democracy?, já referido antes a propósito do segmento Please vote for me. É possível ver no site oficial uma amostra do filme Bloody Cartoons sobre a reacção histérica aos cartoons dinamarqueses (que acabou por resultar em mais de 150 mortos). Fortemente recomendado, mesmo para quem ainda se lembra dos protestos. Se reagiram assim a cartoons sem qualquer apoio do governo, que mais podem fazer a respeito desta posição política tão marcada? Penso que… nada.
Existem estudantes de medicina muçulmanos que não querem saber sobre DSTs e álcool por conflitos religiosos. Até há os que se recusam a examinar mulheres. Nos comentários aparece gente indignada por a notícia não dar a ideia certa do que é o Islão, apesar de o jornal fazer questão em usar ‘Some’ e ‘a small number of’. Aquilo é uma notícia sobre um facto aberrante e não um tratado sobre médicos muçulmanos! É o costume, também quando se fala em terroristas islâmicos é preciso sempre juntar no fim um “Islão é Paz”, não se vá ferir as susceptibilidades religiosas.
Na Sainsbury’s, cadeia de supermercados e lojas de conveniência inglesa, não só o caixa se pode recusar a vender álcool, um farmacêutico também pode recusar a pílula do dia seguinte a uma cliente. Tudo pelo respeito das convicções religiosas dos empregados. Imagino um caixa ecologista que só deixa passar orgânicos, ou um bibliotecário ateu a se recusar a indicar onde está uma bíblia. Seriam mandados para o desemprego, e com justa causa.