Tag Archives: igreja católica

Father Maverick [transcription]

[O excerto do Religulous que tinha trazido para aqui foi removido do Google Video por alegada violação de copyright, e o post sem vídeo tornou-se bastante inútil. Fica então aqui a transcrição do segmento com o padre católico Reginald Foster no Vaticano, alguém bastante longe da ortodoxia tradicionalista a que se associa o catolicismo. A transcrição deve ter algumas falhas.]

Father Reginald Foster – Senior Vatican Priest

Bill Maher – When you look at a building like that… a giant..palace!.. does it seem at odds with the message of the founder?

Reginald Foster – Well, certainly.

BM – [laughter]

RF – I mean, that’s obvious!

BM -It really is obvious, isn’t it? I mean, but does it bother you?

RF – I mean… well, yes it does… If I were the boss I wouldn’t live in there. I mean Jesus would probably be out in some barracks here.. in a suburb of Rome, got it?

BM -You never get so fed up you want to take the collar off and go..

RF – ..Well I don’t wear a collar..

BM – ..”That’s it captain, take my badge and my collar!”

No… I read about ten books recently about the rationality of religion, and everyone is saying it’s stupid…

BM – You know what’s gonna happen to them?..

RF – [laughetr] No, what’s gonna happen?

BM – They’ll be roasting in Hell!

RF – Come on!.. Roasting in… that’s the old catholic thing..

BM – That’s what they taught me..

RF – I know we had Hell business…

BM – Oh, come on… the standard doctrine that I was taught..

RF – Yeah, I mean, that’s all gone, that’s all finished..

BM – [laughter] ..but that’s not fair!..

RF – [nhaaa plrfff!]

BM – The date of Jesus’ birth really wasn’t estabilished until 349 AD..

RF – Oh yeah, yeah. He might have been born on July 3rd! These are all nice stories, you know…

BM – And that doesn’t bother you, either?

RF – Well that bothers me too! Whenever there’s a “Ooh, we have to have midnight mass because Jesus was born on midnight of the 25th of… this is all nonsense!

BM – You’re a maverick aren’t you?

RF – I’m not a maverick!

BM – You’re ‘father maverick’, you do things your own way!..

(…)

BM – When you add up all the saints, and all the angels, and archangels, and super-duper angels, and there’s God-the-Father, God-the-Son, the Holy Ghost, Mother Mary, it does start to look like it’s not quite the monotheistic religion that it’s advocated…

RF – Oh, I understand… it’s like we have mini-gods.

BM – Yeah, well it does seem like that..I mean people pray to a..

RF – Some people don’t understand this. You probably… ah, you don’t follow things… but we had a survey here in Italy, and they said “in a crisis, to what kind of saints do you pray to?”, got it? Do you know who’s the 6th on the list? Jesus Christ!

BM – The 6th?!

RF – He is the 6th man that the italians call upon when they have problems, isn’t that neat?.. Talk about cafeteria catholics..

BM – So how do you convince people of what’s the truth?

RF – You don’t, forget it. They just have to live and die with their stupid ideas.

BM -  [laughter]

RF – I’m sorry.. what are you gonna do?..

Só se esqueceram do violador

Resultado do aborto à menina de nove anos grávida de gémeos: equipa médica e mãe da menina excomungados pelo arcebispo do Recife. E falta a parte mais absurda: caso faltassem provas da imbecilidade desumana do arcebispo católico, este decidiu também excomungar a própria criança violada. O padrasto que a violou continua a pertencer à família católica, parece que a excomunhão é só para crimes graves.

E que não se pense ser ‘apenas’ a opinião do arcebispo. O absurdo continua pela hierarquia acima:

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota, na sexta, em que destaca o mandamento “não matarás” e reforça as críticas feitas ao aborto. A imprensa italiana informou que o Vaticano apoia a decisão do arcebispo. (ref) Continuar a ler

O que José Manuel Fernandes insiste em não perceber (2) – O que é o “novo ateísmo”

[Não acho que tenha sido a melhor escolha de título mas vou mantê-lo por coerência.]

José Manuel Fernandes tenta encaixar o “novo ateísmo” com o “anticlericalismo radical”, jacobinos, revolução russa e Nietzche. Só falta dizer que comemos criancinhas ao pequeno-almoço. O movimento ateu actual não quer queimar igrejas, decapitar pessoas , assassinar padres, acabar com os valores morais nem nada que se pareça.

O “novo ateísmo” não tem assim muito de novo (para além de mais uns anos de ciência a confirmar a descrença na religião). Os seus conceitos-base são praticamente os mesmos que foram descobertos independentemente por filósofos gregos e indianos há cerca de dois milénios e meio. Procura apenas uma visão racional do mundo, a procura do saber contra os confortos da ignorância, uma ética vinda do espírito crítico e não do medo e crenças que possam ser discutidas e melhoradas em vez de cristalizarem como verdades divinas. Evitar o pensamento mágico para aquilo que tem explicações racionais.

atheism

Secções:

  • Brights!
  • Humanismo Secular
  • As causas do “novo ateísmo”
  • Leitura literal da Bíblia
  • Fé contra razão e ‘Deus’ como hipótese
  • Deus concreto e Deus abstracto

Brights!

José Manuel Fernandes começa o artigo com a seguinte frase de Dan Dennet: «Chegou o momento de nós, os iluminados, sairmos do armário». Logo aqui há uma pequena incorrecção que, embora parecendo um pormenor, tem importância. Iluminado é a tradução que JMF encontra para bright, o termo usado para evitar as simplificações que costumam ser feitas em torno do termo ateu. Bright em oposição a Super, aquele que precisa de explicações sobrenaturais e misticismo para o que tem explicações mais prosaicas. Iluminado talvez não seja a melhor tradução por não transmitir a ideia de uma luz própria, a luz que vem do intelecto e não de um putativo Deus que se revela sob a forma de arbustos a arder e vozes celestes.

O termo bright foi uma tentativa de substituir a palavra ateu de forma a evitar os simplismos associados a este termo. Acabou por não pegar e o termo ateu continua a ser usado. Por definição de dicionário, um ateu simplesmente nega a existência de Deus. Mas o movimento (se quisermos entendê-lo como um só movimento) é mais do que isso, é antes de mais um movimento céptico; o ateísmo não é mais do que a aplicação do cepticismo, o espírito crítico que leva a questionar asserções fantásticas, à religião.

Ateu é um termo incompleto que pode induzir em erro. Um budista que não creia em Deus mas que acredite piamente ser possível reencarnar numa barata, ainda que seja ateu pela definição de dicionário, dificilmente há de rever-se em Richard Dawkins ou Daniel Dennet. Por outro lado já Espinosa usava o termo Deus de uma forma completamente compatível com o “novo ateísmo”. A ênfase está no racionalismo. O ateísmo é na sua essência a oposição ao teísmo, a crença no Deus concreto criador do Universo que se dá a conhecer através de revelações e que exige, no mínimo, fé, oração e obediência.

Humanismo Secular

Uma grande fonte dos preconceitos face a ateus está no facto de, para as pessoas religiosas, os valores morais serem ditados por Deus (pelo menos nas três denominações religiosas baseadas no Deus de Abrãao). Com base nesse pressuposto, surge o preconceito de os ateus serem pessoas imorais. Onde vão buscar os valores morais senão a Deus? A resposta é simples: perante a ausência de Deus, passa-se para o segundo lugar dessa hierarquia: a Humanidade.

O ateísmo que eu defendo, assim com muitos outros que são etiquetados como simplesmente ateus, é o humanismo secular, um movimento que oferece uma alternativa racional e bastante completa à religião. Reconhece que os nossos valores têm origem humana mas que não há mal nenhum nisso. Recusa justificações sobrenaturais e coloca a ênfase na procura da verdade através do conhecimento científico.

Claro que a ciência não nos diz como viver as nossas vidas, apenas nos fornece as ferramentas para compreendermos e alterarmos o mundo que nos rodeia. É por reconhecer as limitações da ciência que o humanismo não fornece um objectivo último: cabe a cada um encontrar o sentido para a sua própria vida; repudia-se uma autoridade divina que justifique a imposição de determinado estilo de vida aos outros. É no reino da filosofia, e não da religião, que devem competir as diferentes hipóteses para um sentido da vida. Porque a religião é apenas uma filosofia que evita a discussão ao alegar ter o patrocínio do criador do Universo.

As causas do “novo ateísmo”

José Manuel Fernandes parece um pouco agressivo em relação a Richard Dawkins em particular, e a forma como o ataca revela que não terá percebido bem o seu livro, The God Delusion. A insistência em termos como “Rottweiler de Darwin” e “Darwinista empedernido” até me fazem temer alguma veia criacionista em JMF, espero que não seja o caso.

JMF parece não compreender as razões para o ressurgimento do “novo ateísmo”. Como causas, diz que “ocorreu o 11 de Setembro”, “mas não só”. Este “não só” não chega a ser devidamente explicado, apenas parece sugerir que sejam preconceitos e incompreensão. Não foi só o fundamentalismo islâmico e outras emanações violentas do fanatismo religioso que despoletaram esta nova reacção contra a fé religiosa.

«(…) falava-se do regresso das religiões no século XXI, em especial a uma Europa que o século XX descristianizara muito para além do que se esperaria em Estados constitucionalmente seculares» – JMF

No século XX, com João Paulo II a reconhecer a evolução das espécies (será que Bento XVI o teria feito?), as querelas entre ciência e religião pareciam para muitos ser cada vez mais coisas do passado. A religião parecia ter desistido de discutir com a ciência e regredia para aspectos para além do seu alcance, encolhendo à medida que o conhecimento aumentava (e a sua intransigência moral parecia afastar cada vez mais pessoas da fé).

Mas os últimos anos têm sido marcados pelo ressurgimento do criacionismo, em oposição directa a algumas das teorias científicas mais sólidas dos últimos tempos. Há quem chegue ao ridículo de afirmar que a Terra tem apenas uns dez mil anos e que Adão e Eva existiram mesmo. O que faz esta gente negar as mais elementares provas factuais que contrariam essas teorias é a crença na revelação bíblica acima de quaisquer outras fontes.

Leitura literal da Bíblia

O número de cristãos capazes de encarar a Bíblia como uma fonte mais idónea do que qualquer publicação científica ainda é assustadoramente alto. Em particular nos EUA, o poder político deste tipo de fundamentalistas parece aumentar em vez de diminuir para o nível esperado em “Estados constitucionalmente seculares”. Mas JMF parece esquecer-se deles ao refutar os ataques de Richard Dawkins à bíblia:

«(…) pelo menos no caso do cristianismo, desde o século V que se recusa a leitura literal dos textos bíblicos. Ora se Santo Agostinho o fez há 15 séculos, e estes autores o ignoram, Allen Orr interroga-se se não estarão mais interessados em provar os seus preconceitos do que em mergulhar nos inúmeros debates intelectuais que marcaram a relação entre ciência e religião.»

Não vamos confundir a Igreja Romana com o cristianismo, que entretanto assumiu outras formas incluindo algumas que defendem a leitura literal da bíblia. A Aliança Evangélica Portuguesa, por exemplo, tem vindo a aumentar a sua influência em Portugal.

Mas mesmo a Igreja Católica, que aceita a evolução contra a leitura literal do Génesis, continua a ter uma interpretação literal noutros aspectos (e se formos procurar no passado até ao século V, ainda encontramos mais). Que leitura fazem quando defendem que Maria tenha dado à luz sem ter havido uma relação sexual? E quando defendem que Jesus ressuscitou, porque não é isso uma metáfora em vez da literal “ressurreição da carne”? E os milagres que Cristo terá feito? Não há nada que suporte estes dogmas para além de uma leitura literal da Bíblia.

Fé contra razão e ‘Deus’ como hipótese

Richard Dawkins até mergulha nos “debates intelectuais que marcaram a relação entre ciência e religião”, mas JMF escolhe ignorá-lo embora a seguir toque no assunto (inadvertidamente?).

«Mais, e como encarar uma das máximas do que foi, porventura, o primeiro teólogo cristão, Credo ut intelligam (“Creio para compreender”), para quem é quase um crime sugerir que se pode chegar à compreensão seja do que for a não ser por via de uma investigação racional?» JMF

Só na religião é que se “crê para compreender”. Na ciência primeiro compreende-se, e só então se decide sobre as crenças. É esta a dicotomia entre fé e razão. Na fé acredita-se porque se acredita e martela-se a realidade para encaixar nas crenças. Santo Agostinho descobriu a fórmula: se um facto verificável não se ajustar ao que vem na bíblia, ou se muda a interpretação do facto (mais frequente) ou se muda a interpretação da bíblia (mas esta está, por definição, sempre correcta). Se a Igreja Católica defendesse apenas a investigação racional não haveria muito por onde atacá-la. Mas será que é mesmo a “investigação racional” que a igreja defende?

«Ao conhecer Deus só com a luz da razão, o homem experimenta muitas dificuldades. Além disso, não pode entrar só pelas suas próprias forças na intimidade do mistério divino. Por isso é que Deus o quis iluminar com a sua Revelação não apenas sobre verdades que excedem o seu entendimento, mas também sobre verdades religiosas e morais que, apesar de serem por si acessíveis à razão, podem deste modo ser conhecidas por todos, sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro.» – Catecismo da Igreja Católica (compêndio de 2005)

Parece que para a Igreja Católica a “luz da razão” não chega, e por isso existe a revelação (que assume a forma de textos bíblicos) para permitir chegar à verdade “com firme certeza e sem mistura de erro”. É por isto que faz sentido Dawkins revelar as incitações ao ódio e à intolerância, entre outras aberrações, que abundam no livro sagrado de onde é suposto extrairmos as nossas verdades morais absolutas. As verdades morais a que a sociedade moderna chegou suplantam e entram em conflito com as supostas verdades morais expressas na bíblia, e este é um ponto fundamental do livro de Dawkins na refutação das religiões baseadas nos livros de Moisés. A razão tornou a “Revelação” obsoleta.

«Não faz a intuição, ou a inspiração, parte do próprio método científico, já que este parte de hipóteses conjecturais que depois devem ser provadas?» JMF

“Devem ser provadas” diz JMF muito bem, mas não o são: a igreja diz que são verdade e pronto. JMF descarta o livro de Dawkins com este argumento, o que é estranho. Porque é precisamente isso que Richard Dawkins faz: assume Deus como uma hipótese e submete-a a testes de veracidade. A “hipótese Deus” (god hypothesis), até faz previsões sobre o mundo que podem ser testadas. Nos aspectos em que há sobreposição entre a teoria de Deus e as teorias científicas aceites, a hipótese teísta das religiões de Abraão falha redondamente.

Deus concreto e Deus abstracto

Outra confusão que José Manuel Fernandes parece fazer é confundir um Deus abstracto, metafórico, com o Deus concreto defendido pela religião. Isto apesar de Richard Dawkins deixar bem claro qual o conceito de Deus cuja inexistência tenta ‘provar’: o Deus intervencionista, que faz milagres, lê pensamentos, castiga pecados e responde a orações. Dawkins afirma ser religioso no sentido em que Einstein é religioso:

“To sense that behind anything that can be experienced there is something that our mind cannot grasp and whose beauty and sublimity reaches us only indirectly and as a feeble reflection, this is religiousness. In this sense I am religious.” – Albert Einstein

Dawkins deixa bem clara a distinção entre o Deus cuja inexistência é exposta, e o “Deus metafórico ou panteísta dos físicos”. Diz até ser um “acto de alta traição intelectual” fazer confusão entre os dois. Deus é atacado enquanto conceito central da religião, e não enquanto conceito abstracto. Porque o Deus de Abraão nada tem a ver com o Deus de Espinosa, cuja visão panteísta entende o termo Deus como equivalente a Universo – e não há mal nenhum em acreditar que o Universo possa fazer sentido. Não é o mesmo Deus teísta que é contra o aborto, não gosta de preservativos e defende o papel tradicional da mulher na sociedade. Mas José Manuel Fernandes insiste em misturar os conceitos e usar as referências de Einstein e Stephen Hawking a um Deus abstracto como apologia do teísmo religioso:

«(…) um dos mais notáveis físicos da actualidade, Stephen Hawking, apresentava o seu livro Uma Breve História do Tempo (edições Gradiva) como uma investigação à “mente de Deus”.» – JMF

A investigação à “mente de Deus” não é mais do que a investigação em torno de uma possível Teoria Unificadora. Não se pode confundir esta teoria unificadora, que emerge do conhecimento científico, com essa outra teoria unificadora: o Deus teísta que não é passível de ser compreendido pela razão e provas verificáveis mas antes através das escrituras. Para Hawking, com a descoberta de uma teoria unificadora simples, “poderemos todos, filósofos, cientistas e pessoas vulgares, tomar parte na discussão do porquê da nossa existência e da do Universo”. É a esta reposta que chama o”pensamento de Deus”; conhecê-lo seria “o triunfo máximo da razão humana” e não da fé no divino.

O que José Manuel Fernandes insiste em não perceber (1) – O mito do nazismo ateísta

«Uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade.» – frase atribuída a Joseph Goebbels

Goebbels, o ministro da propaganda no regime nazi, sabia do que falava. Este princípio parece ter sido absorvido por muitos anti-ateus da actualidade que insistem em associar o regime nazi ao ateísmo, quando os factos apontam no sentido contrário: Hitler tinha fortes convicções religiosas e usou o cristianismo como catalisador para a sua ideologia aberrante.

No Público de dia 23 José Manuel Fernandes (JMF) decidiu lançar a sua ofensiva contra o “novo ateísmo”. Escreveu um artigo intitulado “Ateísmo – Contra as Igrejas, contra a religião, agora também contra Deus”, com uma preocupante tendência para deturpar factos. Uma refutação geral dos argumentos de JMF ficará para entradas futuras. Nesta irei apenas tratar um dos pontos que mais voltas me deu ao estômago:

«Durante boa parte do século XX, em que as maiores tragédias foram desencadeadas por totalitarismos ateus, como o nazismo e o comunismo (…)»

Tremo ao ver esta demonstração de ignorância (ou de malícia) ser escrita pelo editor de um dos mais importantes jornais portugueses. O argumento é usado duas vezes no texto de JMF, que nem se dá ao trabalho de justificá-lo, até porque não é possível fazê-lo. É apresentado como facto um indiscutível, uma premissa para a discussão.

Já não é a primeira vez que alguém tenta apresentar estalinismo e nazismo como “totalitarismos ateus”. Se no primeiro esta designação pode ser apenas abusiva, no segundo é completamente idiota. Os estatutos do partido nazi até associavam a ideologia do partido ao “cristianismo positivo”. Tenciono aqui demonstrar a monstruosidade da mentira de José Manuel Fernandes, que mais parece o César das Neves.

Hitler, o ateísmo e a religião

“Gott mit uns” (“Deus connosco”), é o que pode ser lido nas fivelas dos cintos usados pelos soldados da Alemanha nazi. Um pouco estranho para um “totalitarismo ateu”… mais estranho ainda foi o regime nazi ter banido os grupos alemães de ateus e pensadores livres na primavera de 1933 (ver New York Times de 14 de Maio de 1933). Estas acções foram antecedidas pelo seguinte discurso no parlamento alemão:

«Pela sua decisão de levar a cabo a limpeza moral e política da vida pública, o Governo está a criar e a assegurar as condições para uma vida interior religiosa verdadeiramente profunda. As vantagens para o indivíduo que possam provir de compromissos com organizações ateístas não se comparam de forma alguma com as consequências que são visíveis na destruição dos nossos valores éticos e religiosos comuns. O Governo nacional vê em ambas as denominações Cristãs [igreja católica e protestante] o factor mais importante para a manutenção da nossa sociedade.» – Adolf Hitler, discurso no Reichtag a 23 de Março de 1933

Hitler tornou-se chanceler em Janeiro de 1933, e não tardou muito a mostrar a sua aversão ao ateísmo:

«Uma campanha contra o “movimento ateu” e um apelo ao apoio católico foram lançados pelas forças de Adolf Hitler.» – Associated Press, 23 de Fevereiro de 1933

O combate ao ateísmo era um ponto fulcral na agenda do facínora:

«Eu juro que nunca me irei associar a partidos que queiram destruir a Cristandade(…) Queremos encher de novo a nossa cultura com o espírito Cristão(…) Queremos queimar todos os desenvolvimentos imorais recentes na literatura, no teatro e na imprensa – em suma, queremos queimar o veneno da imoralidade que entrou em toda a nossa vida e cultura como resultado do excesso liberal(…)» – Adolf Hitler, citado em The Speeches of Adolf Hitler, 1922-1939, Vol. 1 (London, Oxford University Press, 1942), pg. 871-872

Penso que está bem provado que Hitler não era um ateu nem nada que se parecesse, e que até defendia o cristianismo contra os valores seculares. Qual a religião de Hitler? Se formos acreditar nas palavras do próprio:

«Eu sou agora como dantes um Católico e sempre o serei.» – Adolf Hitler, numa carta ao general Gerhard Engel, em 1941

O próprio anti-semitismo de Hitler parece ter origem nas suas convicções cristãs, ou pelo menos ser influenciado por elas:

«Quando Ele [Jesus] achou necessário, Ele expulsou esses inimigos da raça humana para fora do Templo de Deus; porque na altura, como sempre, eles [os judeus] usaram a religião como forma de avançar os seus interesses comerciais.» – Adolf Hitler, Mein Kampf (vol.1, capítulo 11)

«(…) hoje eu acredito estar a agir de acordo com a vontade do Criador Todo Poderoso: ao defender-me contra o Judeu, estou a lutar pela obra do Senhor» – Adolf Hitler, Mein Kampf

Para além da influência nas ideias aberrantes de Hitler, o cristianismo também teve um papel muito importante na aceitação do regime:

«Um estado que uma vez mais governa em nome de Deus pode contar não só com o nosso aplauso mas também com a cooperação entusiasta e activa da igreja. Com alegria e gratidão vemos como este novo estado rejeita a blasfémia, ataca a imoralidade, promove a disciplina e a ordem com uma mão firme, exige temor perante Deus, trabalha para manter o casamento sagrado e a nossa juventude espiritualmente instruída, traz a honra de volta a pais de famílias, assegura que o amor pelo povo e pela pátria não é mais escarnecido, mas arde em mil corações.» – parte do sermão do domingo de Páscoa de 1933 proferido por pastores protestantes da Baviera.

Não foi só a igreja protestante que proclamou o seu apoio a Hitler, o Vaticano firmou em 1933 uma concordata com o regime nazi. Vejamos o que disse o arcebispo de Munique sobre este evento:

«Numa altura em que os líderes das grandes nações do mundo encaram a nova Alemanha com uma fria reserva e suspeição considerável, a Igreja Católica, o maior poder moral na Terra, expressou através da Concordata a sua confiança no novo governo alemão.» -Cardeal von Faulhaber, arcebispo de Munique, num sermão de 1937

Penso que é agora claro que o nazismo não foi um “totalitarismo ateu”. Onde foi José Manuel Fernandes buscar essa crença? Não faço ideia. Termino com uma curiosidade: o Cardeal von Faulhaber da citação anterior ordenou padre em 1951 um tal de Ratzinger. Sim, esse Ratzinger.

TGF

Citações (sem nenhuma ordem especial) #1 #2 #3 #4 #5 #6

Wikipedia:

 

Hitler was not an atheist, artigo na Free Inquiry

As verdades inconvenientes de uma ‘Mulher em Acção’

“Verdades inconvenientes” é o título de um artigo de opinião de uma tal de Alexandra Teté na penúltima página do Público de segunda-feira. Saltou-me logo à vista, em primeiro lugar porque eu não fazia ideia que o sobrenome Teté existisse. Em segundo lugar porque vem trazer mais propaganda idiota contra a despenalização do aborto, e em terceiro porque me fez descobrir um conceito novo: a feminista católica e socialmente conservadora. Parece estranho? É mesmo. Continuar a ler

Pedro ‘Torquemada’ Arroja

Estava a passear pel’A Origem das Espécies, quando fui alertado para o maravilhoso post de Pedro Arroja no Portugal Contemporâneo. É ver para crer:

(…)O Estado laico tem vindo a afastar a Igreja da vida pública. A Igreja reagiu canonizando, no domingo passado, 498 mortos da Guerra Civil.
Porém, um dos aspectos mais salientes desta luta é a intromissão dos judeus. Sempre prontos a encontrar uma brecha por onde possam entrar e dividir, os líderes judeus de toda a Europa – no mesma semana da canonização dos mortos pela Santa Sé – reuniram-se em Madrid para lembrarem os mortos da Inquisição espanhola e, segundo eles, celebrarem o reavivar da vida judaica em Espanha (vivem em Espanha 15 mil judeus).

(…)foi na Península Ibérica que os judeus foram melhor acolhidos e tratados ao longo de toda a sua longa história, por entre os múltiplos povos e lugares em que viveram. É claro que, mesmo aqui, acabaram por dar motivos para serem expulsos, primeiro de Espanha (1492), e depois de Portugal (1521). Mas isso foi o que eles fizeram em todos os países que os receberam durante a sua história de milénios. E que voltam agora a fazer em Espanha, mais de cinco séculos depois. Está-lhes literalmente na massa do sangue.

Foram tão bem tratados na Península, os pérfidos Judeus, mas fizeram judiarias, como de costume… já conhecia os desvarios de Pedro Arroja… mas duma destas, é claro que eu não estava à espera.

Aborto Revisitado

«Ouvir a elevação das nossas afirmações actuais contra a pobreza, das manifestações a favor da dignidade humana, da firmeza na justiça e solidariedade é ficar orgulhoso dos nossos valores. Desde que não se note o montinho de cadáveres minúsculos que sai pelas traseiras das clínicas. Como na democracia alemã de 1923, é essa porta por onde entra o monstro.»

Mais uma amostra de João César das Neves, no artigo referido na entrada anterior. Mas apesar de me ter obrigado ao chavão do título anterior, há algo por que tenho de agradecer: uma desculpa para pôr aqui George Carlin. Enquanto isso o mundo avança para outras questões, no 5dias fala-se do casamento de homossexuais (que também não agrada ao abominável)…

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O Abominável César das Neves

Título de insulto fácil, admito, e muito repetido. Mas por boa razão: João César das Neves consegue ser particularmente irritante e insultuoso. Às vezes consegue escrever coisas minimamente interessantes, mas quando puxa para o lado católico a qualidade tem tendência a vir por aí abaixo. E foi, mais uma vez, o que aconteceu. Na sua crónica no DN, César das Neves não resiste em pegar na questão do rastreio pré-natal para lançar um ataque à legalização do aborto.

A primeira tendência é para ignorar mais um artigo em que a devoção católica eclipsa qualquer conhecimento que eventualmente tenha para oferecer. Não seria o primeiro, não será o último. Mas este, achei-o particularmente grave. Ele começa por comentar uma notícia do DN, “Rastreio pré-natal falha em 60% das grávidas”, que considera imediatamente um incentivo encapotado ao aborto. Até aqui nada de especial a apontar, discórdias menores. Mas depois depressa surge a retórica pela proibição do aborto, em que tem de vir o discurso sensacionalista do costume. Uma pequena amostra:

«Este ano, o País aprovou a liberalização do aborto. Hoje calaram-se os argumentos, discussões, elaborações ideológicas. Mas coisas destas nunca se vão embora. Quando fechamos os olhos à violação dos direitos humanos ela cresce sempre mais. Vive-se a lenta degradação de carácter, a terrível descida na infâmia.»

É o costume e, de facto, coisas destas nunca se vão embora. Mas se fosse só esta retórica inflamada, e a insistência em chamar criança a um feto, eu não tinha escrito nada. O pior vem depois. Faz finalmente a ligação com o título e é aqui que se percebe que vai ser feito o paralelo entre liberalização do aborto e nazismo. Mais um afloramento da lei de Godwin? Também, mas é muito mais do que isso: é a mais pura e abjecta imbecilidade. César das Neves avisa que é por este caminho de liberalização que entra o nazismo. Mas não é o ridículo do argumento que mais atormenta, é a comparação. Vamos esclarecer primeiro uma coisa: Hitler só incentivou o aborto às ‘raças inferiores’. Era completamente proibido o aborto por partes de mulheres arianas, as únicas mulheres que seriam para Hitler merecedoras do termo ‘seres humanos’. Portanto Hitler seria obviamente contra uma lei do aborto nos moldes actuais. Mas mesmo sabendo disto eu nunca acusei um opositor ao aborto de promover o nazismo. Penso duas vezes antes de associar alguém a este regime. Hitler também se afirmava católico, e a igreja católica pactuou (com direito a concordata) com o seu regime e todos os outros de inspiração fascista. Mas César das Neves insiste:

«Este paralelo entre o aborto e o nazismo é feito num livro que acaba de sair. O volume Ao Gólgota! - A Liberalização do Aborto e o Nazismo (Editora Crucifixus, 2007) reúne os artigos que o franciscano padre Nuno Serras Pereira publicou na Internet no último ano e meio.

Como pode alguém comparar a nossa situação com o horror do nazismo? Passa pela cabeça essa semelhança? Se pensa assim, por favor não se esqueça que esse era precisamente o sentimento que tinha a despreocupada Berlim de 1923. Esse é o enigma do ovo da serpente.»

Para quem não é versado em calão beato, gólgota é o calvário, o monte em que Jesus foi crucificado. Já estou habituado a que se refiram ao aborto como a maior tragédia do mundo, nada de novo. Mas a ideia de que foi esta postura da liberalização que permitiu o avanço do nazismo… não terão sido antes este tipo de reacções contra a liberalização que levaram ao florescimento de tão aberrante regime? Que fez multidões aceitarem o autoritarismo? Esqueçamos 1923 e avancemos uma década até 1933, quando o regime estava no poder e começava a dar uma ideia do que era realmente. Vejamos o que foi dito em igrejas alemãs na missa da Páscoa desse ano:

«A state that once again rules in God’s name can count not only on our applause but also on enthusiastic and active cooperation from the church. With joy and thanks we see how this new state rejects blasphemy, attacks immorality, promotes discipline and order with a firm hand, demands awe before God, works to keep marriage sacred and our youth spiritually instructed, brings honor back to fathers of families, ensures that love of people and fatherland is no longer mocked, but burns in a thousand hearts.»

Gostava de propor à editora Crucifixus esta passagem como prefácio da próxima edição. Mas que continue César das Neves a combater “a lenta degradação de carácter, a terrível descida na infâmia”, de certeza que é a melhor forma de evitar o nazismo.

O Milagre do Sol (2)

continuação de O Milagre do Sol (1)

Chegada então a altura da explicação racional do fenómeno, 90 anos depois dos jornais anunciarem um milagre. Isto não vai mudar nada em relação a Fátima: esse outro fenómeno é uma entidade que se alimenta a si própria. Podiam surgir todas as explicações do mundo, a própria igreja podia repudiar o fenómeno (não o fará), podia ser provado que Lúcia era demente, mas mesmo assim Fátima permaneceria. É o problema da fé: assim que se aceita uma crença, não há razão que a demova. E Fátima é mais do que uma simples manifestação religiosa: é folclore popular. E folclore reforçado com religião é duro que nem pedra.

Mas há gente de bom senso que fica na dúvida quando confrontada com o milagre do sol. É compreensível, dada a desinformação que há cada vez que se fala nisso. Só ao ler os relatos da altura comecei a ter noção de que isto não era um fenómeno tão misterioso quanto isso. É só tão invulgar quanto o contexto em que se deu e um acto que é hoje considerado particularmente estúpido: olhar directamente para o sol. Os únicos fenómenos pouco comuns foram o sol ter aparecido particularmente fraco (normal, tinha chovido e tudo…) e o clima de euforia religiosa que eclipsou qualquer réstia de razão. Parece ridículo, e até certo ponto é mesmo, mas quanto mais leio os testemunhos à luz desta explicação, mais esta se apresenta mais sólida do que qualquer outra. Especialmente a explicação católica oficial que , mesmo se ignorarmos a ciência, tem mais buracos do que um queijo suiço.

Claro que não vale a pena gritar “eureka! eureka!” quando alguém já gritou “Milagre! Milagre!”, mas ficam aqui os argumentos…

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