OGM e riscos para a saúde

Eu não me oponho absolutamente aos OGM. Não subscrevo a teorias que afirmam ser aberrante alterar de forma tão fundamental a Natureza. Tenho tentado seguir os avanços na manipulação genética desde há uns anos, quando li pela primeira vez sobre as experiências da Monsanto na manipulação de genomas de plantas. É uma tecnologia de inegável potencial. Mas que tem de ser abordada com uma maior cautela, como demonstram vários estudos. O processo de testes deve ser mais semelhante ao dos medicamentos.

A legislação Europeia sobre o assunto, embora mais sensata que a Americana, ainda é claramente insuficiente. O processo de testes a que os OGM têm de ser submetidos antes de aprovados na UE está muito longe de ser satisfatório. A legislação que obriga a identificação de produtos feitos com OGM também tem sérias lacunas. Já a uma distância saudável da histeria em torno do “Verde Eufémia” e os infames cereal-killers, tento expôr aqui as razões que tornam necessárias mudanças na abordagem aos OGM (devidamente documentadas).

Conteúdo

  • Riscos de Saúde dos OGM
  • OGM na União Europeia – lacunas do processo de aprovação
  • OGM em Portugal – potenciais riscos do MON810
  • Identificação dos OGM – lacunas na legislação e no seu cumprimento
  • Precedente Histórico – lições da revolução química

Riscos de Saúde dos OGM.

Quem afirma que “os OGM são completamente seguros para humanos” não sabe do que fala. Não se pode afirmar que todos os OGM são seguros, e há casos registados de graves prejuízos para a saúde humana.

Jeffrey Smith, após vários anos de investigação, revelou vários casos de riscos de saúde e alguns encobrimentos, no seu livro Seeds of Deception. Um dos casos relatados é o do L-tryptophan. Trata-se de um aminoácido essencial que era vendido como suplemento alimentar. Começaram a ser notados efeitos adversos em vários consumidores. Mais tarde foi concluído que o problema se prendia apenas com um fornecedor desta substância, por causa do OGM que usava na sua produção. Entre cinco a dez mil pessoas foram afectadas e foram registadas cerca de 100 mortes. Noutro caso, um tipo de tomate com resistência a antibióticos vendido pela Monsanto, foi descoberto que surgiam no sistema digestivo de quem comia os tomates bactérias resistentes a antibióticos. Isto contrariava os estudos da Monsanto, onde era garantido que tal era impossível. O livro também aborda a promiscuidade entre a Monsanto e a o departamento da FDA responsável pela aprovação de OGM nos EUA (com funcionários a saltar entre as instituições e subornos encobertos).

Está disponível no YouTube uma palestra de Jeffrey Smith, sobre os riscos dos transgénicos, com o título The Health Dangers of genetically modified food. Ficam aqui os links: Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 | Parte 5 | Parte 6. No início deste ano Jeffrey Smith publicou um novo livro, Genetic Roulette: The Documented Health Risks of Genetically Engineered Foods. O site oficial tem uma breve descrição.

OGM na União Europeia.

Na Europa, novos OGM introduzidos no mercado têm de ser aprovados por uma Comissão Científica. O problema é que a comissão se baseia apenas nos testes levados a cabo pela empresa que propõe introduzi-los. Acontece que a principal produtora de OGM é a Monsanto, que tem um historial preocupante de encobrimentos nos seus estudos.

Um caso exemplificativo é o do Posilac em que a Monsanto pressionou a Fox para não divulgar estudos que ligavam esta hormona a casos de cancro, e que levaram o Posilac a ser banido na UE. A Fox acabou por despedir os jornalistas que se recusaram a pactuar. O caso do Posilac e a Fox é discutido com mais detalhe no documentário The Corporation.

Ao contrário do que acontece com medicamentos, a aprovação de transgénicos não necessita de testes rigorosos. O milho transgénico MON863 foi aprovado na UE em 2005 tendo por base testes em ratazanas, com duração de 90 dias, feito pela Monsanto. Foram desprezados sinais de toxicidade num estudo independente. Este ano foi publicado uma nova análise independente ao estudo da Monsanto: New Analysis of a Rat Feeding Study with a Genetically Modified Maize Reveals Signs of Hepatorenal Toxicity (Seralini et al, ver resumo). Na conclusão pode ler-se: “recomendamos fortemente uma nova avaliação e maior exposição de mamíferos a esta dieta, com observação clínica cuidadosa, antes de se concluir que o MON863 é seguro para alimentação”. O estudo chega a esta conclusão com base em dados que revelam a toxicidade para rins e fígado e necessitam de ser investigados.

Em Portugal

O milho transgénico cultivado em Portugal é o MON810. Tal como o MON863, é alterado com base num gene das bactérias B. thuringiensis (Bt). O gene produz uma endotoxina que provoca a paralisia no sistema digestivo de insectos, levando à morte por infecção bacteriana. Os mamíferos não possuem receptores para este tipo de proteínas, razão porque estas estirpes de milho foram aceites. Mas tal como no caso do MON863, não há garantias suficientes de ser seguro para a saúde. Uma análise científica levada a cabo pelo governo Austríaco declara que os dados são insuficientes e que as avaliações de risco da Monsanto apresentam deficiências.

Identificação de OGM.

A legislação Europeia também obriga a que alimentos contendo OGM numa concentração igual ou superior a 1% sejam devidamente identificados. Existem no entanto dois problemas com a legislação. Um deles, denunciado na sexta-feira passada pelo movimento Amigos da Terra, é que muitos dos produtos com OGM não estão identificados. Segundo o movimento galego, 15-17% dos produtos à base de milho analisados pela AESAN continham transgénicos sem estarem identificados. Outro problema é a legislação não obrigar à identificação de produtos provenientes de gado alimentado a transgénicos, podendo haver o perigo de ingestão de toxinas que não sejam metabolizadas pelo gado.

Precedente histórico.

Há um claro paralelo entre as promessas da revolução genética e a revolução química do século passado. Em ambos os casos estão a ser introduzidas substâncias com que não estamos habituados a ter contacto. Têm efeitos positivos promissores, mas não há uma investigação séria sobre potenciais efeitos negativos, especialmente a longo prazo.

Sendo os OGM usados em Portugal milho com insecticida, é apropriado relembrar o insecticida maravilha da revolução química, o DDT. Prometia erradicar todos os insectos portadores de doenças, e era aparentemente inofensivo para humanos. Foi aplicado indiscriminadamente mundo fora durante anos até parar abruptamente de ser usado: não só os insectos se tinham tornado imunes ao químico, como se descobriu que tinha uma elevada toxicidade para seres humanos. Foi relacionado com vários tipos de cancro, em especial no fígado. E por ser uma molécula muito estável descobriu-se que mesmo depois de deixar de ser usado continuava a circular por toda a cadeia alimentar. Inúmeros outros casos de químicos cancerígenos têm sido revelados ao longo dos anos.

Não digo que haja semelhanças entre o DDT e o MON810. Mas a falta de cuidado é a mesma. Convém aprendermos com os erros cometidos.

4 responses to “OGM e riscos para a saúde

  1. Pingback: Transgénicos de volta à ribalta « a mansarda

  2. isto esta muito mal :)
    aprendam

  3. OGM, taí…

    As discussões seguirão por muito tempo, ainda.

    Gostaríamos de fazer um convite para visitar nosso sítio, quando tiver um tempo:
    http://companhiadanutricao.com.br (opção PORTAL)

    Felicidades para você e seus leitores!

    Equipe Companhia da Nutrição
    Valorizando os profissionais de saúde

  4. Pingback: riscos | Dieta sem Transgenicos

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