Revolução Birmanesa

A Birmânia (ou Mianmar, nome oficial desde 1989) entrou em estado de revolução. As ruas de Yangon (Rangoon), a maior cidade do país, estão repletas de multidões a perder de vista. Estimativas apontam para entre 50 a 100 mil pessoas no dia de hoje (24/Set), o culminar de manifestações progressivamente maiores que têm sido uma constante nos últimos dias. Trata-se de uma revolução pacífica, iniciada por monges budistas (a religião maioritária). Camiões de militares têm circulado durante a noite para pontos estratégicos da cidade, fazendo recear um massacre semelhante ao das manifestações de 1988. Será o nascimento de uma nova democracia?

Contexto. Desde 1962 que a nação asiática vive sob uma ditadura militar decorrente de um golpe de estado. A junta militar tem o nome orwelliano de Concelho Estatal para a Paz e Desenvolvimento, e tornou-se uma aristocracia opulenta que tem açambarcado os recursos naturais do país (petróleo, gás natural, pedras preciosas e arroz) deixando grande parte dos 50 milhões de habitantes na pobreza. O principal cliente do regime Birmanês é a China, o que tem contribuído para o ressentimento da população contra a potência asiática. Em 1990 foram permitidas eleições livres que deram uma maioria de 80% ao partido da oposição, a Liga Nacional para a Democracia, resultados que não foram aceites pelo regime. Nos últimos anos a Birmânia tem tido uma inflação galopante, que atingiu o ponto de ruptura para a população com o brutal aumento do preço do combustível em Agosto deste ano (segundo a BBC subiram para o dobro, o Spiegel fala em quíntuplo). Este aumento despoletou manifestações estudantis que foram prontamente reprimidas e acabaram com a prisão dos manifestantes.

Monges em Protesto. O ponto de viragem surgiu quando um grupo de monges budistas , denominado União de Jovens Monges, decidiu que a situação se tornara incomportável. As fortes crenças budistas obrigam os monges a depender da caridade alheia para o seu sustento. Como primeira forma de protesto os monges passaram a recusar oferendas vindas de membros da junta militar e respectivas famílias. Segundo explica o Spiegel, estaAung San Suu Kyi, l�der da Liga para a Democracia posição é o equivalente budista a uma excomunhão na igreja católica e teve como objectivo quebrar a lealdade das bases do regime. No início de Setembro, os monges começaram a tomar parte em protestos contra a junta. No dia 5 a repressão estatal de uma manifestação em Pakokku feriu vários monges e a 17 deste mês, perante a inexistência de um pedido de desculpas do governo pelo sucedido, os jovens monges decidiram retomar os protestos. Desde essa data até hoje têm desfilado diariamente pelas cidades, atraindo um número crescente de simpatizantes. No domingo ascenderam a 20 mil na capital, segunda-feira são entre 50 a 100 mil e houve réplicas noutras 24 cidades. Também têm havido vigílias nocturnas em frente à casa de Aung San Suu Kyi (2ª imagem), a líder da oposição condenada a prisão domiciliária.

Revolução ou Massacre? Para além dos militares, o governo tem mobilizado as suas próprias milícias, que têm o nome paradoxal de Associação União Solidariedade e Desenvolvimento. Teme-se que estas acções possam ser o prelúdio de um massacre semelhante ao de 1988, em que mais de 3 mil pessoas perderam a vida. No entanto o forte envolvimento dos monges pode evitar a tragédia, dadas as fortes convicções budistas da população. Para além de uma acção demasiado violenta poder isolar a elite governante, cortando o regime pela base, de acordo com o Spiegel os próprios generais no poder são “extremamente supersticiosos”, podendo temer “a ira dos deuses” caso algum monge seja morto pelas forças governamentais. Este impasse pode levar a junta militar a ceder e abdicar do poder, mas só os próximos dias dirão se está aberto o caminho para a auto-determinação do povo Birmanês.

A situação no contexto geo-estratégico. Os actores desta situação não estão confinados ao território Birmanês. A riqueza em recursos naturais, incluindo o sempre perigoso petróleo, e a fronteira com a China tornam este caso, na perspectiva dos grandes centros de influência mundiais, algo mais do que a luta de um povo pela democracia. O regime tem no governo Chinês o seu principal aliado, através de marcados interesses económicos. A Índia também anunciou recentemente o investimento de 150 milhões de dólares em acordos com a empresa estatal de Petróleo e Gás. Sanções contra a Birmânia foram propostas nas Nações Unidas em Fevereiro deste ano mas foram anuladas pelo veto Chinês. [correcção (post-edit): a votação foi em Janeiro e não Fevereiro, e contou também com o veto da Rússia (fonte)]
Reacções. Perante os últimos desenvolvimentos os EUA irão anunciar sanções contra o regime na próxima assembleia geral das NU, segundo reporta a AFP. A única medida concreta confirmada é a recusa de vistos a “indivíduos chave associados com as actividades negativas do regime, incluindo as suas famílias”. No seu discurso de Bush irá ainda apelar à comunidade internacional para colaborar com os grupos pró-democracia e de defesa dos direitos humanos presentes no Mianmar. Hoje (na verdade ontem, segunda-feira, que já é tarde) o Parlamento Europeu agendou para quarta-feira uma discussão sobre a situação da Birmânia, e foi referido o desejo que Aung San Suu Kyi possa ser autorizada a reclamar o prémio Sakharov que lhe foi atribuído. No seguimento da discussão, na quinta-feira haverá uma votação no parlamento. A UE e principais governos europeus têm sido unânimes na condenação às acções do governo, apelando para uma “reforma política real” em acréscimo a declarações anteriores. Na conferência anual do Partido Trabalhista Gordon Brown afirmou que os “direitos humanos são universais e nenhuma injustiça pode durar para sempre”, aproveitando para alargar o alcance das suas palavras a outro ponto forte da agenda inglesa: “A mensagem deverá chegar a todos que enfrentam perseguição, da Birmânia ao Zimbabwe”.

Comentários finais. Como é costume nestas situações, torna-se difícil perceber até que ponto o avanço da democracia é o principal interesse dos que a apoiam, especialmente no que diz respeito aos EUA. Um governo pró-ocidental significará uma derrota para a China, não só pela perda de importantes recursos energéticos, como também pela presença de um aliado euro-americano no seu ‘quintal’. Resta esperar que os interesses do povo Birmanês se imponham sobre quaisquer outros, e que estejamos a assistir ao amanhecer de uma nova era de democracia e prosperidade para esta conturbada nação asiática, e não à véspera de mais tragédias.

3 responses to “Revolução Birmanesa

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