Casa Pia II (1)

Ontem o SOL publicou a muito anunciada entrevista com Catalina Pestana. É ainda a primeira de duas partes, porque o SOL tem de concorrer com os DVDs do Expresso. É bom que isto não seja uma medida apenas comercial e que esteja a decorrer alguma investigação por parte do jornal que justifique a publicação a dois tempos. Senão a minha boa vontade em relação ao SOL desce um bocado: isto são notícias importantes, não é o raio dos Sopranos! Metade das 8 páginas dedicadas à entrevista são sobre a vida de Catalina Pestana antes da Casa Pia. Espero na próxima edição 8 páginas sumarentas e rodeadas de caixinhas com factos. Nesta edição, as três páginas que têm interesse tocam nos três pontos que são destacados na capa:

  • Continua a haver abusos a crianças por parte de funcionários da Casa Pia e redes de pedófilos, tendo sido aberto um novo inquérito.
  • A alteração do Código Penal e do Código de Processo Penal terá sido motivada pelo processo Casa Pia.
  • Catalina Pestana acreditou inicialmente na inocência de Paulo Pedroso, mas mudou de ideias.

A entrevista é cortada quando começa a ficar interessante. Fica aqui o que de relevante foi dito:

Continuação dos abusos
«Não tenho dúvida nenhuma de que ainda existem abusadores internos na Casa Pia. E tenho fortes suspeitas de que redes externas continuam a usar miúdos da Casa Pia para abusos sexuais. No dia 10 de Maio (eu saí a 11), a última coisa que fiz foi escrever ao procurador-geral da República e contar-lhe detalhadamente as suspeitas que tenho. Sei que ele mandou abrir um inquérito, porque já fui ouvida.» – começa assim a última resposta publicada, a que se segue o desejo que o procurador «não deixe ficar este inquérito no fundo de uma gaveta.» Um ‘continua na próxima edição‘ cria expectativa quanto ao que se segue.

Revisão do Código Penal
Outro ponto forte. Entrevistadora, em seguimento a queixas de Catalina Pestana (CP) sobre a dureza do inquérito para as vítimas : “(…) a verdade é que só com as queixas dos miúdos é que foi possível o processo Casa Pia e o novo olhar que a sociedade tem agora para este problema”. CP: «Pois claro. E o resultado disso é também agora a revisão do Código Penal e do Código de Processo Penal.» Foi a penúltima resposta publicada. O resto da entrevista não traz nada de relevante a propósito disto. A única outra referência: «Ainda agora, com esta confusão dos novos códigos penais, vieram dizer-me: “Senhora provedora, não desista porque isto foi feito para abafar tudo”». Mais uma vez é preciso aguardar por mais informação.
Este é um ponto muito importante especialmente se visto no contexto das pressões que houve para a mudança do procurador geral. Como foi referido no post sobre esse tema, o nome proposto para substituir Souto Moura como procurador-geral (Souto Moura era-o aquando do Casa Pia) terá sido Rui Pereira. O mesmo Rui Pereira, actual ministro da Administração Interna, ex-director do SIS e com ligações à maçonaria, participou na alteração dos códigos Penal e de Processo Penal. Mais uma razão para estar atento a novos desenvolvimentos.

Inocência (ou não) de Paulo Pedroso
Aqui também esperava mais revelações. CP diz que não acreditou quando o nome de Paulo Pedroso lhe foi apontado por um miúdo, mas que ainda assim revelou-o à Polícia. Quando interrogada sobre o que a fez mudar de opinião, responde:«Eu só mudei de opinião em Maio, quando foi pedido o levantamento da imunidade parlamentar(…) Encostei-me à parede [para não desmaiar] e liguei para a polícia. (…) Disseram-me que já há algum tempo que havia miúdos que o referiam(…)».
Sobre a afirmação de Catalina Pestana que «há quem ande a lançar nomes, com notas de euros à mistura, aos miúdos…», a primeira fonte terá sido a polícia: «a polícia respondeu-me: “É que alguns miúdos ainda estão a jogar em dois tabuleiros e a ser pressionados a atirar nomes ao ar e a pôr-nos à deriva.”». Quanto a quem dava dinheiro para lançar nomes: «A rede! Esse rapaz [o primeiro a referir Paulo Pedroso à provedora] tinha dinheiro que não era da semanada.»

Outros pontos relevantes

Uma citação que circulou bastante pelas televisões a propósito da continuidade dos abusos foi «hoje eu sei que no Tribunal de Monsanto está apenas a guarda avançada – o grosso da coluna está cá fora.» A afirmação parece mais bombástica isolada, mas convém ler a continuação: «O anterior Código Penal estabelecia que as vítimas de abusos sexuais tinham que os denunciar à Polícia até aos 16 anos e meio de idade.(…) A norma foi agora alterada e passou para os 23 anos – ou seja, se já estivesse em vigor na altura, não tínhamos lá apenas cinco ou seis arguidos, mas largas dezenas.»

E os abusos ainda se estendem muito mais para trás: «Desde os anos 60 que há um leque muito mais vasto de abusados e abusadores. Conversaram comigo homens casados, pais de filhos e avós de netos!(…) carros do Estado entravam à noite no Colégio Nun’Álvares e os educadores iam acordar os miúdos que tinham sido escolhidos durante o dia. São histórias com detalhes e com documentação. Estas pessoas têm nome.(…) Eu tenho tudo isto escrito e a salvo. Porque admito que alguém tente branquear este história.» Ballet-Rose II ?

A reacção da direcção da Casa Pia quando irrompeu o escândalo não é minimamente reconfortante. CP: «Os senhores directores estavam muito tensos e fiquei a saber, por conversas entre eles, que na semana anterior, domingo à noite, tinha havido uma reunião entre a direcção e os ex-alunos – a tal ‘família Casapiana’ que é integrada pelo Casa Pia Atlético Clube, o Jornal Casapiano e a Associação Casapiana de Solidariedade. Estavam tão convencidos que, como doutras vezes, o bom nome da instituição falaria mais alto do que a qualidade de vida dos seus utentes, e de que conseguiriam silenciar mais esta situação. Houve quem propusesse que o mestre Américo [que fez as primeiras denúncias internamente] fosse suspenso, por difamação.»

Aguardam-se então mais desenvolvimentos.

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