Festival dos pequenos déspotas

Weijun Chen escreve na BBC sobre Please Vote for Me, o trabalho do realizador integrado no documentário Why Democracy?.

Filmando uma turma da terceira classe durante a eleição do chefe de turma, Chen tenta descobrir como reage a China à democracia. Para os miúdos, num país educado para respeitar a autoridade, é a hipótese de ter poder. Para os pais dos miúdos, num país onde 60% dos licenciados sonham com uma carreira no governo, é uma oportunidade para treinar os seus rebentos, filhos únicos, na realpolitik que os poderá levar a grandes cargos.

Nas imagens os dois pesos pesados da eleição: Luo Lei (à esquerda), o candidato do sistema no poder há 2 anos, e Cheng Cheng (direita), dotado de um espírito maquiavélico digno de Karl Rove. Xiaofei é a underdog, aceita com relutância candidatar-se a pedido da mãe.

Cheng Cheng está na política como peixe na água. No excerto disponível no YouTube é vê-lo a prometer cargos em troca de votos, a espiar adversários e a sabotar o discurso de Xiaofei.

Cheng Cheng, whose ultimate ambition was to be president of China, wanted to be class monitor because, he said: “You can order people around.”
He was coached by his parents in speechmaking, singing, and wrong-footing his rivals.

 

A pobre Xiaofei acaba por sucumbir à pressão. Mas o trabalho do pequeno manipulador não se fica por aqui. No dia seguinte diz a Xiaofei que foi tudo uma maquinação de Luo Lei, para depois tentar a mesma táctica durante o discurso deste.

Luo Lei parece mais ponderado, com uma postura mais própria de um estadista chinês.

When asked whether he wanted the help of his parents in securing his classmates’ votes, he said: “No, I will rely on my own strength.
“I don’t want to control others. People should think for themselves.”

Idealista? Ou terá um domínio de doublespeak para lá dos seus 8 anos de idade? O departamento da polícia a que o pai pertence controla o monocarril e oferece à turma uma viagem. Os pais de Luo Lei também lhe compram presentes para ele oferecer aos colegas no fim do discurso.

Um duelo de titãs, portanto. No embate final, Cheng Cheng acusa Luo Lei de ser um déspota e de bater nos colegas. Luo Lei defende-se dizendo que até os pais batem nos filhos e que ele só o faz quando alguém se porta mal. Admite mudar se o método estiver errado.

No final, a turma concorda que Luo Lei é muito severo mas acaba por elegê-lo num sufrágio de voto secreto. O realizador conclui:

I believe the children’s joy and sorrow throughout the election, their winning and losing, truly reflect the tough yet hopeful democratisation process in China.

 

A mim só me relembra que uma democracia formal não garante democracia real em lado nenhum. Raramente o povo mostra mais discernimento que a turma da terceira classe. O mundo pertence aos ‘Luo Lei’s e aos ‘Cheng Cheng’s.

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