O Abominável César das Neves

Título de insulto fácil, admito, e muito repetido. Mas por boa razão: João César das Neves consegue ser particularmente irritante e insultuoso. Às vezes consegue escrever coisas minimamente interessantes, mas quando puxa para o lado católico a qualidade tem tendência a vir por aí abaixo. E foi, mais uma vez, o que aconteceu. Na sua crónica no DN, César das Neves não resiste em pegar na questão do rastreio pré-natal para lançar um ataque à legalização do aborto.

A primeira tendência é para ignorar mais um artigo em que a devoção católica eclipsa qualquer conhecimento que eventualmente tenha para oferecer. Não seria o primeiro, não será o último. Mas este, achei-o particularmente grave. Ele começa por comentar uma notícia do DN, “Rastreio pré-natal falha em 60% das grávidas”, que considera imediatamente um incentivo encapotado ao aborto. Até aqui nada de especial a apontar, discórdias menores. Mas depois depressa surge a retórica pela proibição do aborto, em que tem de vir o discurso sensacionalista do costume. Uma pequena amostra:

«Este ano, o País aprovou a liberalização do aborto. Hoje calaram-se os argumentos, discussões, elaborações ideológicas. Mas coisas destas nunca se vão embora. Quando fechamos os olhos à violação dos direitos humanos ela cresce sempre mais. Vive-se a lenta degradação de carácter, a terrível descida na infâmia.»

É o costume e, de facto, coisas destas nunca se vão embora. Mas se fosse só esta retórica inflamada, e a insistência em chamar criança a um feto, eu não tinha escrito nada. O pior vem depois. Faz finalmente a ligação com o título e é aqui que se percebe que vai ser feito o paralelo entre liberalização do aborto e nazismo. Mais um afloramento da lei de Godwin? Também, mas é muito mais do que isso: é a mais pura e abjecta imbecilidade. César das Neves avisa que é por este caminho de liberalização que entra o nazismo. Mas não é o ridículo do argumento que mais atormenta, é a comparação. Vamos esclarecer primeiro uma coisa: Hitler só incentivou o aborto às ‘raças inferiores’. Era completamente proibido o aborto por partes de mulheres arianas, as únicas mulheres que seriam para Hitler merecedoras do termo ‘seres humanos’. Portanto Hitler seria obviamente contra uma lei do aborto nos moldes actuais. Mas mesmo sabendo disto eu nunca acusei um opositor ao aborto de promover o nazismo. Penso duas vezes antes de associar alguém a este regime. Hitler também se afirmava católico, e a igreja católica pactuou (com direito a concordata) com o seu regime e todos os outros de inspiração fascista. Mas César das Neves insiste:

«Este paralelo entre o aborto e o nazismo é feito num livro que acaba de sair. O volume Ao Gólgota! – A Liberalização do Aborto e o Nazismo (Editora Crucifixus, 2007) reúne os artigos que o franciscano padre Nuno Serras Pereira publicou na Internet no último ano e meio.

Como pode alguém comparar a nossa situação com o horror do nazismo? Passa pela cabeça essa semelhança? Se pensa assim, por favor não se esqueça que esse era precisamente o sentimento que tinha a despreocupada Berlim de 1923. Esse é o enigma do ovo da serpente.»

Para quem não é versado em calão beato, gólgota é o calvário, o monte em que Jesus foi crucificado. Já estou habituado a que se refiram ao aborto como a maior tragédia do mundo, nada de novo. Mas a ideia de que foi esta postura da liberalização que permitiu o avanço do nazismo… não terão sido antes este tipo de reacções contra a liberalização que levaram ao florescimento de tão aberrante regime? Que fez multidões aceitarem o autoritarismo? Esqueçamos 1923 e avancemos uma década até 1933, quando o regime estava no poder e começava a dar uma ideia do que era realmente. Vejamos o que foi dito em igrejas alemãs na missa da Páscoa desse ano:

«A state that once again rules in God’s name can count not only on our applause but also on enthusiastic and active cooperation from the church. With joy and thanks we see how this new state rejects blasphemy, attacks immorality, promotes discipline and order with a firm hand, demands awe before God, works to keep marriage sacred and our youth spiritually instructed, brings honor back to fathers of families, ensures that love of people and fatherland is no longer mocked, but burns in a thousand hearts.»

Gostava de propor à editora Crucifixus esta passagem como prefácio da próxima edição. Mas que continue César das Neves a combater “a lenta degradação de carácter, a terrível descida na infâmia”, de certeza que é a melhor forma de evitar o nazismo.

3 responses to “O Abominável César das Neves

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