Orbis Non Sufficit – entre alarmismos e avestruzes

(xkcd)

O mundo não é suficiente.

O lema da família Bond fez o título do artigo de 6ª feira passada de David Biello na Scientific American: o Mundo não é suficiente para os humanos. Agrega outros artigos que atestam a insustentabilidade do estilo de vida da humanidade. O clima é obviamente um deles, perante o risco de no próximo século as temperaturas aumentarem perto de 4,5ºC para além dos 0,76ºC que subiram no último. Os 60-80% de emissões que teremos de reduzir em meio século parecem uma meta inalcançável dado o crescimento da população e as economias emergentes. Ao nível da biodiversidade estamos na 6ª maior extinção em massa nos 4500 milhões de anos do planeta. A subida de temperatura há de contribuir para um agravamento, já que grandes extinções parecem relacionadas com aquecimentos acentuados. E até os fornecimentos de comida e água para a espécie humana parecem longe de estar garantidos. A BBC tem um dossier sobre os principais desafios que a humanidade enfrenta.

Aquecimento global.

O documentário de Al Gore foi muito atacado recentemente (particularmente depois do Nobel), em especial por uma certa direita que não perde uma oportunidade para enfraquecer a tese de o aquecimento global ser agravado pela humanidade. O documentário tem exageros, omissões e até erros, mas quanto a mim, o que mais estranhei quando vi o filme não foi o alarmismo exagerado mas sim o optimismo. Sugeria que era preciso tão pouco para mudar a situação, mas afinal este ponto fazia parte das incorrecções do filme. Nas críticas ao IPCC parece ser a mesma história. Não há certezas na climatologia e previsões demográficas, mas tudo aponta para que os passos que vão sendo tomados sejam insuficientes. Muito insuficientes. Claro que continuam a existir os que dizem ser tudo alarmismo infundado. E volto a dizer que não há certezas. Há um consenso generalizado na comunidade científica e parece irresponsável não agir. E quando vejo detractores, é frequente citarem artigos obtidos a partir de think-tanks financiados por empresas com interesses dúbios, que raramente têm a dignidade de sequer incluir cientistas. E muitos dos argumentos usados vão sendo refutados, embora com menos visibilidade. No geral, fico-me pela opinião de quem está ligado à ciência. E vou lendo o que posso.

Crise?

A razão porque escrevo agora esta entrada são os últimos desenvolvimentos no Darfur. O conflito nesta região sudanesa foi em boa parte motivado por desertificação e procura de água em zonas sobrepovoadas. E não parece ter solução à vista. Esta situação pode bem ser um prenúncio do tipo de instabilidade que o aquecimento global (e outras questões) promete(m) agravar. Contorço-me um bocado cada vez que algum ecologista fala da necessidade de salvar o planeta. Vamos esclarecer uma coisa: o planeta está bem e recomenda-se. Podemos ter um holocausto nuclear que o planeta recupera (eventualmente). Mesmo reduzindo a vida às espécies mais simples, com uns quantos milhões de anos a evolução irá gerar substitutos para tomar os lugares vagos. O problema aqui é a humanidade, as multidões na primeira linha dos conflitos que a competição por recursos escassos possa gerar. Mesmo a questão da biodiversidade é no nosso próprio interesse, pelo conhecimento potencial que ainda pode ser extraído da biosfera para além de muitos outros benefícios.

Mas continua a haver quem prefira agarrar-se a qualquer estudo que pareça pôr em causa qualquer afirmação que suporte a tese do aquecimento global antropogénico, como prova de um grande embuste. Li alguns casos destes em blogues respeitáveis, mas com tendências para um laissez-faire exagerado nestas questões. Esquecem-se muitas vezes que a única coisa que conseguem provar é a incerteza. Se há a possibilidade de se estar a correr para um abismo, faz sentido abrandar um pouco enquanto se tenta verificar a hipótese. Mesmo que seja do tipo de abismo que só resulta nuns ossos partidos. Penso que ninguém pode afirmar em boa fé que não vale a pena agir. Os problemas mais graves não serão imediatos, mas é uma questão de responsabilidade. E quanto a quem a incerteza das previsões parece demasiada, que tenha uma atitude construtiva e ao menos colabore para a melhoria das simulações, por mais pequeno que seja o contributo.

Soluções?

Quanto a soluções, é uma questão complexa e de proporções épicas. Este também é um ponto atacado por neoliberais, que aproveitam para atacar qualquer solução parcial como prova da impossibilidade de inverter as tendências. A facilidade com que se salta da negação para declarações de impotência. A insustentabilidade existe a vários níveis, não há um pacote bonitinho de medidas que se possa legislar de um dia para o outro e declarar vitória. É antes um somatório de pequenas soluções, como é sabido.

Um ponto que me parece central é a fusão nuclear no problema da energia (muito ligado aos outros). Uma fonte de energia limpa, sustentável e barata, que nem parece estar tão longe quanto isso. O problema é que não parece estar longe há muito tempo, e não conheço nenhuma previsão de quando possa eventualmente entrar em fase de produção [adenda: lá para 2050, com sorte]. Nem sei se o ITER ainda demora muito… A partir daí existe um grande número de pequenas soluções parciais. Os biocombustíveis, por exemplo, não são uma panaceia mas ao menos prometem manter parte do dióxido de carbono num ciclo sustentável. Para além de parecer uma boa forma de ocupar agricultores europeus e americanos enquanto se liberaliza o mercado mundial de produtos alimentares, e uma forma simpática de estarmos menos dependentes do petróleo. Quando por cima das maiores reservas de um recurso natural está uma horda de fanáticos, eu interpreto isso como um sinal. E há também o hidrogénio, que ainda tem o problema de a sua síntese libertar CO2.

A eficiência energética começou finalmente a ter um lugar de destaque, e é um ponto incontornável de uma solução. Desde processos industriais, regulação da temperatura de edifícios, eficiência na iluminação (um exemplo) e racionalização de redes de transporte até pequenas questões de hábitos. E existem inúmeros outros passos, alguns estranhamente interessantes, como a proposta da Atmocean de usar bombas de água (usando energia das ondas) para trazer água fria e rica em nutrientes para a superfície e aumentar assim a capacidade de fixação de CO2 dos oceanos. Dados recentes parecem corroborar a importância deste efeito dos oceanos. Claro que o problema em muitas destas hipóteses, como diria um comentador desportivo, é a questão da intensidade. Neste caso a conclusão do estudo parece oscilar entre 3 e 33% de impacto do decréscimo na capacidade de retenção de CO2 nos oceanos no aumento deste gás durante as últimas décadas.

O crescimento da população.

Também há quem alerte para o problema ser em grande parte inerente ao crescimento da população. Isto já é uma questão antiga. Juliette Lewis escreveu este ano no Observer que é necessário encontrar maneiras de controlar o crescimento da população. Deixa em aberto o que fazer em relação ao problema, enquanto afirma que medidas de promoção do planeamento familiar são insuficientes. Mas embora reconheça porque certo tipo de medidas podem causar calafrios a qualquer um, parece querer quebrar esses tabus.

Pessoalmente acho que não há necessidade sequer entrarmos por aí, já que a questão do aumento da população parece redutível a outros desafios que a humanidade enfrenta. Também o cenário apocalíptico defendido por apoiantes de Malthus foi afastado por outros factores. Olhando para as taxas de natalidade no mundo parece logo haver uma relação inversa entre crescimento da população e prosperidade. Esta relação existe devido a vários factores, incluindo acesso a contraceptivos, nível de educação (em especial na população feminina), participação de mulheres no mercado de trabalho e a eliminação da ideia de que a função primária de uma mulher é procriar. Concluindo, melhorar a economia e direitos humanos no terceiro mundo parece ser a melhor direcção.

Claro que aí há quem argumente que como os países industrializados consomem e poluem mais que os subdesenvolvidos, isto só agravará o problema. A solução aqui é a solução de problemas como o aquecimento global: precisamos de estilos de vida sustentáveis, que possam ser mantidos pela grande maioria da população, sem pressupor estilos de vida sub-humanos em certas regiões. E a postura da Europa deverá afastar-se das tentativas de subir a taxa de natalidade no continente. Penso que o foco deveria ser mais em procurar formas de absorver eficazmente (sim, alguma aculturação) os excedentes populacionais de outras regiões. A relação entre natalidade e prosperidade económica agrava a injustiça social, num padrão fractal que pode ser observado à escala mundial ou dentro de um país, e aumenta a assimetria na distribuição de riqueza. Uma Europa aberta mas exigente deixaria de ‘definhar’ sem ter de subir desesperadamente a natalidade nem contribuir para o agravamento dos problemas demográficos actuais.

Não foi possível ser abrangente, como é óbvio. Mas espero que isto sirva para passar a ideia de que existe realmente um problema, mas não é o fim do mundo. Não vale a pena enfiar a cabeça na areia nem exclamar impotentemente que vem aí o apocalipse. É preciso uma postura séria.

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