Putin, Vladimir Vladimirovich

Na quinta-feira passada foi revelado que a presença da OSCE nas próximas eleições russas, a realizar a 2 de Dezembro, será reduzida para um máximo de 70 pessoas por imposição do Kremlin. Nas eleições passadas o número de observadores da OSCE foi de 465: uma redução de 85% não deixa antever nada de bom para a democracia na Rússia.

Uma tomada de posição muito preocupante, especialmente tendo em conta a postura abertamente autocrática de Putin, que motiva aqui um resumo sobre a ascensão do presidente da Federação Russa e o seu regime, e a ameaça que representam.


Rússia: Entre Oligarcas e o FSB

 

Yeltsin. Um dos principais motores da ascensão de Putin e do seu apoio popular foi o fracasso do seu antecessor. Boris Yeltsin, em concordância com o FMI e o Banco Mundial, adoptou uma terapia de choque para a transição da economia planeada para o capitalismo ocidental. Para um país que nunca tinha conhecido o mercado livre, e dava ainda os primeiros passos na democracia, esta tarefa foi muito subestimada. Iniciou-se uma grande depressão económica, que levou a uma descida a pique no nível de vida de largos sectores da população com o colapso dos serviços estatais, inflação galopante, pesados impostos, taxas de juro altíssimas e desemprego generalizado (ou salários em atraso). As reformas originaram uma aversão ao capitalismo ocidental, uma Rússia decrépita simbolizada pelo seu presidente copofone.

Ascensão dos oligarcas. A ditadura comunista já tinha uma tendência entranhada para o tráfego de influências. Com a falência do país a corrupção foi agravada pela maior permeabilidade a subornos de todos os sectores do governo. As privatizações ao desbarato da indústria russa durante a era Yeltsin, com corrupção à mistura, permitiram a emergência dos novos oligarcas russos, uma espécie de robber barons, frequentemente no lusco-fusco entre actividades económicas e actividades menos lícitas. A reeleição de Yeltsin em 1996 parecia impossível, mas a ajuda dos oligarcas permitiu financiamento da propaganda e o (quase) monopólio dos meios de comunicação social que deram a volta às sondagens. Como contrapartida puderam aumentar ainda mais o seu poder e fortuna com mais despojos das privatizações. Dois exemplos paradigmáticos são os famosos Boris Berezovsky e Roman Abramovich, instrumentais na vitória de Yeltsin. Na nova Rússia dinheiro e poder são perfeitamente transmutáveis, graças à alquimia da corrupção e dos media.

A herança da Cheka. Já existia uma promiscuidade entre o governo e as principais figuras do crime organizado, mas a década de 90 trouxe algo de novo: máfias emergentes baseadas em membros dos extintos KGB e NKVD. Extintos principalmente a nível de nome, já que o FSB não parece ser assim tão diferente das suas temíveis congéneres soviéticas. O mercado livre e a perda de relevância do governo central permitiu que estes grupos prosperassem, em grande parte com os seus próprios impostos sobre negócios emergentes (a típica taxa de ‘protecção’).

 

O ovo da serpente. O primeiro cargo de destaque de Putin, um ex-KGB, foi o de director do FSB em Julho de 1998. Em Agosto de 1999 Yeltsin despediu o primeiro-ministro para substituí-lo por Putin. Em 2000 Yeltsin acabou por abdicar da presidência a favor de Vladimir Putin. Como veio este ilustre desconhecido a tornar-se um homem de confiança de Yeltsin? A ideia terá saído da família de conselheiros, que na ânsia de manter o controlo da situação terão subestimado a capacidade de Putin para recuperar a hegemonia da facção KGB sobre os restantes blocos de poder.

Morder a mão que dá de comer. Putin chegou ao poder com uma agenda própria: recuperar o poderio do regime soviético, com centro no seu núcleo duro de conhecimentos do antigo KGB. Iniciou-se uma anti-perestroika de que Yeltsin tinha tido uns laivos. Cedo se soube que os oligarcas não iriam ser os aliados do costume, mas Putin começou por cortar o cordão umbilical político que o levara ao poder. O regime de Yeltsin tinha dado um tiro no pé.

O Putinismo e a hegemonia do FSB. A decadência dos anos da abertura ao capitalismo ajudou a criar uma certa nostalgia pelos tempos da velha superpotência. Putin apareceu como o salvador da pátria, o homem que iria repor a ordem e recuperar o respeito perdido da Rússia. Faltava-lhe destronar os oligarcas e rodear-se pelos seus. A luta mais emblemática tem sido com o seu velho aliado Berezovsky, que se tornou entretanto a principal força da oposição a Putin. O principal critério de Putin no ataque aos oligarcas parece claro: se entram na política para causar incómodo, sofrem retaliação pelos abusos do passado. Kryshtanovskaya já revelou como Putin trouxe o FSB para o poder. Na Rússia de Putin o FSB é o núcleo de uma elite priveligiada, que controla cada vez mais o país, e as implicações são evidentes. Serve de bonita metáfora constatar que o FSB mantém a sede no edifício do NKVD.

A Rússia no Mundo. Outro ponto central da Rússia de Putin é reclamar o estatuto perdido de superpotência. Em relação aos EUA o único alinhamento foi a nível da ameaça do terrorismo, que serviu para Putin tentar legitimar um maior autoritarismo na política interna e defender a postura russa no conflito com a Chechénia. De resto a Rússia tenta opor-se aos blocos ocidentais sempre que pode, aproveitando qualquer oportunidade para relembrar o poder militar recuperado. Os últimos temas quentes globais que me lembro são o Kosovo, o sistema de defesa anti-míssil, e a exportação de armamento. A China é a grande aliada de circunstância, pelo interesse comum em contrapor a influência ocidental e o gosto partilhado pelo despotismo. Uma aliança que parecia o destino: a China, com a sua economia galopante, precisava de combustível e tecnologia militar, a Rússia, rica em recursos energéticos e com tecnologia militar de ponta, precisava de dinheiro. Os estados-pária são outro interesse comum enquanto oportunidades económicas e políticas fora do alcance dos blocos democráticos. É emblemática a acção combinada dos dois países no conselho de segurança a bloquear qualquer acção na Birmânia. A Rússia protegia assim os seus negócios de armamento com o regime enquanto a China mantinha a sua influência política e contratos vantajosos. Quando Putin falou em Lisboa da cooperação a nível dos direitos humanos, nem sei se foi ocasião para indignação ou gargalhadas.

 

Os assassinatos. Este regime está no centro das suspeitas em dois escândalos preocupantes, que evocam os perigos da promiscuidade entre o governo e o FSB. Um deles é o assassinato de Litvinenko, caso que Marina Litvinenko, a viúva, tentou relembrar em Lisboa. O recurso ao polónio-210 relembra os célebres assassinatos dos tempos soviéticos, e o governo parece confirmar tacitamente as suspeitas pela defesa obstinada do principal suspeito. O outro caso bem presente é o assassinato de Anna Politkovskaya, que levanta sérias dúvidas sobre a liberdade de imprensa num país onde o novo politburo já tem domínio sobre grande parte dos media e ser jornalista é uma profissão de risco elevado. Para além de a jornalista ter sido bastante incómoda para o governo, a ligação com o FSB parece adensar suspeitas sobre o regime.

 

Popularidade de Putin. A adoração pelo líder parece ter retornado ao nível da velha CCCP, num apoio popular bem financiado (e manipulado) pelo governo. O desastre de imagem que era Yeltsin no final do segundo mandato deve ter tido influência, num país onde metade das mortes na população activa masculina têm como causa o consumo abusivo de álcool. Também a depressão em que a Rússia entrou nos anos 90 criou uma aversão ao mundo do capitalismo, e Putin aparece como a resposta autoritária contra a anarquia instalada.

 

A primeira medida que me lembro de Putin ter tomado foi a substituição do hino da
Federação Russa pelo hino da União Soviética, uma acção menos inocente do que seria de supor na altura. O combate aos oligarcas, o bodes expiatórios perfeitos para a desgraça russa, muito há de ter contribuído para a simpatia popular. Um fenómeno interessante são os Nashi, uma espécie de juventude putinista, do que defende obstinadamente o líder. Por algumas acções parecem estar a tornar-se os capangas do regime. Tentam estar presentes em qualquer manifestação da oposição, e parecem ser a resposta do regime para evitar uma revolução laranja, uma ameaça muito temida pelos poderes instalados. Mais temida do que as manifestações de grupos neo-nazis, bem reveladoras de um nacionalismo exacerbado no país que mais vidas perdeu durante a segunda guerra. Mas que pode tão facilmente ser canalizado para o governo, e talvez por isso não preocupe tanto o regime.

Democracia? A candidatura de Putin a primeiro ministro parece estar bem encaminhada para uma vitória a 2 de Dezembro. Impedido pela constituição de cumprir mais mandatos enquanto presidente, parece ter tomado a opção certa para se manter no centro do governo. Pela popularidade actual e domínio sobre os media o próximo presidente também deverá ser da sua escolha. Voltando à notícia que motivou este post, mesmo que a popularidade falhe, há razões para supor a existência de um plano de contingência. Pôr a democracia de lado é uma ideia que já vem do tempo de Yeltsin, se for de forma encapotada mais depressa resulta. A comparência obrigatória de funcionários do governo em comícios só aumenta as preocupações.

A posição bem cimentada de Putin parece protegê-lo a médio prazo de hipotéticas ofensivas internas dentro do núcleo duro do FSB. A única ameaça credível parece vir dos oligarcas que tentam recuperar a influência, encabeçados por Berezovsky, mas este lado das trincheiras também dificilmente terá a democracia real como objectivo. A democracia parece ameaçada, num país onde nunca esteve de boa saúde. Vladimir Putin aparenta ter um futuro risonho pela frente.

 

 

5 responses to “Putin, Vladimir Vladimirovich

  1. Duma votou unanimemente a renúncia ao tratado CFE.
    (http://news.bbc.co.uk/go/rss/-/2/hi/europe/7082501.stm)
    «The Duma approved the bill in the 418-0 vote.
    In the motion, MPs said the CFE treaty “no longer responds to the security interests of the Russian Federation” in light of Nato expansion and other factors in Europe.»

  2. Ontem, dando aula de português para a minha aluna Russa, aproveitei para perguntar sobre essas questões. Ela me disse que todos os que ela conhece adoram o Putin e gostariam de vê-lo por mais um mandato na presidência.

    Mas ela também falou que a Rússia meio que voltou para os tempos do Czarismo (não da URRS), com Putin como o Czar e seus poucos escolhidos enriquecendo com os recursos do país.

    Infelizmente o nível de português dela parou por aí… e ela não fala inglês, nem eu russo.

  3. De facto o Czarismo talvez seja uma metáfora mais adequada: parece haver uma enorme concentração de poder em torno de Putin, distribuído de forma quase feudal, sem nada que se assemelhe a um politburo.

    É pena que o português dela (ainda) não lhe permita aprofundar mais, fiquei curioso por saber mais da perspectiva dela sobre a questão. E obrigado pelo seu comentário.

  4. Muito do que acontece agora na Rússia se deve ao apoio que os ocidentais deram às políticas erradas da era Yeltsin. O povo russo sofreu mais até do que no período soviético e o país estava uma bagunça. Mas acredito que esse era o objetivo dos paises ocidentais: tornar a Rússia uma nação de famintos e bêbados, apenas fornecedora de matérias primas. Assim o “urso” do leste não ameacaria mais ninguém. Putin rompeu esse processo e, é claro, organizou o país e o está preparando para tornar a ser uma grande potência. Por essa razão ele é adorado na Rússia e não somente lá!!!!!!

  5. Pingback: Rússia: democracia cada vez mais uma miragem « a mansarda

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