Ilusionistas e Cepticismo (3)

[parte 1, parte 2]

Ilusionistas vs Charlatães

Para além de incentivarem o pensamento céptico, desde há muito que alguns ilusionistas têm um papel importante a desmascarar os charlatães do paranormal. Houdini não ficou só célebre pelas suas fugas e morte trágica mas também pelo trabalho que teve a expor espíritas e semelhantes após a morte da sua mãe. Para além de ir por vezes disfarçado a sessões de ‘actividade paranormal’ para denunciar os burlões às autoridades, também integrou o painel de especialistas do prémio da Scientific American para mediums.

Hoje em dia o sucessor deste prémio é o da James Randi Educational Foundation. Este prémio, no valor de um milhão de dólares, será oferecido a quem demonstrar poderes paranormais num ambiente controlado. Já tentaram concorrer mais de mil mediums mas nenhum conseguiu sequer passar os testes preliminares. Infelizmente, nem o prémio nem o trabalho de Randi a desmascarar fraudes famosas (chegou a ter um programa na tv) parece impedir que os charlatães prosperem. Existe no público em geral uma permissividade enorme para aldrabões que invoquem o sobrenatural. Neste vídeo James Randi aborda alguns destes fenómenos: Uri Geller, uma das grandes fraudes do século (passado), Peter Popoff, um tele-evangelista, e os ‘cirurgiões sem bisturi’ filipinos:

Uri Geller: mini-crónica de uma fraude

Três exemplos detestáveis, mas se Popoff ficou falido e não tenho ouvido falar de mais cirurgiões filipinos, Uri Geller ainda consegue ter quem o leve a sério. Então a ideia de que se pensarmos nas coisas elas acontecem parece estar mais popular do que nunca (maldito ‘Segredo). O sucesso que ele teve a enganar até alguns cientistas durante a década de 70 é ainda usado por Geller para se tentar afirmar como alguém com poderes sobrenaturais (que lhe foram oferecidos por extraterrestres…). Com o passar do tempo muitas das técnicas que usa têm sido descobertas, desde fazer mexer bússolas até às leituras telepáticas (para não falar das colheres). É ridículo como Geller conseguiu enriquecer a dobrar colheres em que tinha de mexer com as mãos, quando um simples céptico consegue fazer muito melhor com o poder da mente (aquele poder da mente que permite perceber de química – ver explicação):

Este princípio já foi usado por ilusionistas com bastante sucesso. Até um adolescente consegue demonstrações mais interessantes com um garfo que as de Uri Geller com uma colher (a dobrar colheres como Uri há muitos). Mas o mais cómico foi Andrija Puharich, o “investigador” que ajudou a catapultar Geller (e outros charlatães). Tive a oportunidade de ler parte do livro dele: Uri Geller – Crónica de um Enigma. É hilariante, cheio de relatos de mensagens de extraterrestres que são enviadas a Geller e Puharich de uma forma muito curiosa: aparecem num gravador de voz, mas desaparecem assim que eles as ouvem (depois torna-se um bocado repetitivo). Para além dos extraterrestres também defende que Uri Geller é um profeta bíblico destinado a liderar a humanidade… Acho que este excerto, retirado do epílogo, diz muito sobre o livro:

«Como podia eu esperar que as pessoas acreditassem na minha história, se as mais ínfimas provas em que pudesse apoiar-me tinham desaparecido? A minha única esperança residia no facto de que, aproximando-me o mais possível da verdade, esta acabaria por penetrar no coração dos homens.(…)

Vi-me depois, a braços com o problema de encontrar um editor.(…) Ao lerem as cinco páginas que constituíam o esboço deste livro, todos eles se recusaram delicadamente, como se se encontrassem perante o trabalho de um espírito demente. Alguns pediram-me que limitasse a história apenas aos factos que pudessem ser confirmados cientificamente. Em primeira análise eu tê-lo-ia feito, mas havia que ter em conta a urgência que me era imposta, pois restavam apenas alguns anos antes de se verificar a aterragem em massa

O livro foi publicado em 1974, Andrija Puharich morreu em 1995 e eu ainda estou à espera dessa grande aterragem de discos voadores. Isto ultrapassa o ridículo. Também já vi gente escrever que o Uri Geller tem poderes a sério mas às vezes usa truques. Não há limite para a irracionalidade, e Uri sabe explorar isso.

Ninguém quer ganhar um milhão?

Este ano Uri Geller esteve à frente de um programa de tv para encontrar o seu ‘sucessor’, onde teve a infelicidade de revelar (por desleixo) como fazia para mover bússolas. Este programa foi importado para os EUA com o nome Phenomenon e uma pequena diferença no objectivo: uma competição de mentalistas para o prémio de 250 mil dólares. Sendo o mentalismo uma vertente do ilusionismo exclui-se a hipótese de poderes sobrenaturais verdadeiros, mas isso não impediu Uri Geller de aceitar ser associado à actividade para fazer parte do júri (desde que seja uma via para dinheiro fácil, ele está lá).

Criss Angel, um mentalista a sério (ou seja, honesto), também aceitou integrar o júri e deixou logo claro que não ia tolerar charlatães a denegrir a arte. Não tardou a surgir um desses aldrabões, Jim Callahan, que afirma ser possuído pelo espírito de um escritor falecido que lhe revela que objecto está numa caixa fechada (para o espírito não ter nada melhor que fazer, a eternidade deve ser muito entediante). A produção deve ter adorado a ideia, já que um espírita dá mais audiência que um ilusionista. Vale a pena ver a actuação absolutamente ridícula de Jim Callahan, e como o público aceita logo a ideia de ser uma prova do sobrenatural.

Tão paranormal quanto um inventário. Até como actor Jim Callahan é patético, e incomoda-me ver o espírito de um escritor a cometer um erro ortográfico em apenas 3 palavras (weels?!). Callahan passa por aquilo para ganhar 250 mil dólares, mas se estiver em causa um milhão já não se dá ao trabalho. Grande parte das pessoas, claro, acredita. Parece-lhes tão inexplicável… A Raven escolheu em segredo um objecto dum conjunto de cem e guardou-o numa caixa sem que Callahan visse. Raven, convencida pela actuação (é muito crédula), faz questão de salientar que esteve sempre de volta da caixa e que não era possível alguém ter visto o objecto que estava lá dentro. A solução vai sob a forma de uma pergunta: quem esteve a vigiar os outros 99 objectos?

Reacções. Também é interessante ver as reacções dos intervenientes: Callahan adopta uma postura abertamente agressiva, atacando directamente Criss Angel em tudo o que se lembre (ad hominem…). Uri Geller é mais experiente, tem um ataque mais subtil, e tenta puxar (de forma medíocre) para a pseudociência e invocar a incerteza, as duas formas típicas de defesa dos charlatães do paranormal. Nenhum dos dois sequer explica porque os seus ‘poderes’ não lhes permitem ver o envelope.

Raios partam a pseudociência. Como a pseudociência é coisa que me incomoda particularmente, lá vou ter de perder tempo com esse ponto. Com que então Uri diz que ninguém compreende a equação-maravilha de Einstein… eu nem sou muito dado à física mas até aí ainda chego, e já agora: foi escrita pela primeira vez em 1905 e não 1925, mas adiante. Quanto à energia ser indestrutível, de facto num sistema isolado a quantidade de energia é constante (lei da conservação da energia). Mas se formos assumir que a energia passa para o outro lado (i.e. para fora do mundo físico, do universo tal como o conhecemos), esta lei tem de ser violada. A lata de Uri ao tentar usar uma lei que contraria uma hipótese como prova dessa hipótese. Para não falar que o que define os nossos pensamentos não é a energia em si mas os padrões em que flui no nosso cérebro. Sem este tipo de suporte físico a energia tem tanta consciência como uma pilha de 9 volts. Mas há quem acredite nas justificações de Uri…

Os charlatães que continuem a aparecer, mas não peçam respeito. Felizmente eles raramente trazem ideias novas, e a maior parte são velhas conhecidas dos ilusionistas.

7 responses to “Ilusionistas e Cepticismo (3)

  1. eu quero e aprender fazer ilusoes

  2. Sugiro que não se faça confusão entre o ilusionismo de mágicos de espetáculos e o Mentalismo Hermético Abrangente que tem origem na máxima de Hermes Trismegisto “O Universo é Mental” e o respectivo Princípio do Mentalismo.
    Quem muda seus pensamentos derrotistas em positivos logo se lança no rumo da vitória e isso não tem nada a ver com prestidigitações.

  3. Não passava pela cabeça de ninguém fazer essa confusão, porque ninguém tinha ouvido falar em tal coisa…

    Mas que fique clara a distinção: o mentalismo do ilusionismo é uma arte, o «mentalismo hermético abrangente» é uma baboseira.

  4. 1-Se é uma arte, por que a crítica do artigo?
    2-Pode não passar pela SUA cabeça, mas milhões de pessoas no mundo sabem o que é o Mentalismo Hermético.
    3-Se vc não ouviu falar, como sabe que é baboseira?
    Abraços,
    Xenon.

  5. 1- Leia o texto, sff:
    « Sendo o mentalismo uma vertente do ilusionismo exclui-se a hipótese de poderes sobrenaturais verdadeiros(…)»
    «Criss Angel, um mentalista a sério (ou seja, honesto), também aceitou integrar o júri e deixou logo claro que não ia tolerar charlatães a denegrir a arte.»

    2-Duvido que haja um número significativo de pessoas para quem a palavra mentalismo os faça pensar no hermetismo.

    3-Não tinha ouvido falar. Depois do seu comentário li superficialmente sobre isso. Se calhar o termo ‘baboseira’ foi um pouco agressivo.
    Digamos apenas que não reconheço correspondência entre a realidade e essas crenças herméticas, nem acho que tenham alguma base racional relevante.

    Abraços.

  6. Grato pela resposta.
    O Princípio do Mentalismo, de Hermes Trismegisto também baseia a Cabala, logo, milhões de pessoas ligam mentalismo a hermetismo. Lembremos que o Princípio do Mentalismo é a base do Hermetismo, portanto, estão mais do que ligadas.
    Se tiver tempo de estudar mais a fundo o tema, vai tirar conclusões que nos enriquecerão a ambos.
    A questão da realidade é controversa, pois não é mais possível hoje em dia acreditar apenas nos cinco sentidos, os quais são facilmente iludidos.
    O Princípio do Mentalismo não pode jamais ser confundido com as prestidigitações. Uma coisa nada tem a ver com outra.
    Mais uma vez muito obrigado por sua elegância e honestidade.
    Xenon.

  7. O criticismo tão arraigado do autor do blog chega a ser suspeito. Ciúmes? Rejeição por parte dos verdadeiros conhecedores do assunto? Dá-nos a impressão de que “ouviu o galo cantar, mas não sabe onde”…

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