As verdades inconvenientes de uma ‘Mulher em Acção’

“Verdades inconvenientes” é o título de um artigo de opinião de uma tal de Alexandra Teté na penúltima página do Público de segunda-feira. Saltou-me logo à vista, em primeiro lugar porque eu não fazia ideia que o sobrenome Teté existisse. Em segundo lugar porque vem trazer mais propaganda idiota contra a despenalização do aborto, e em terceiro porque me fez descobrir um conceito novo: a feminista católica e socialmente conservadora. Parece estranho? É mesmo.

O aborto, outra vez

Começa por referir que as autoridades noticiaram que o número de abortos legais efectuados desde a despenalização foi cerca de metade das estimativas. Como é que se usa isso para criticar a despenalização? Para Teté é simples:

«a “procura não satisfeita” do aborto voluntário será muito inferior ao propagandeado e o aborto clandestino não será tão frequente como disseram os partidários do “sim”, apoiados no “estudo científico” da APF. E é razoável esperar – e temer – que, tal como aconteceu noutros países, a oferta legal do aborto vá gerar e alimentar a respectiva procura.»

Eu pensava que o pessoal do não ia ficar feliz por existirem poucos abortos, já que um dos pontos que mais realçavam era que a despenalização iria degenerar numa orgia abortiva, mas Teté acha que este número prova que existia pouco aborto clandestino. Mesmo que houvesse pouco aborto clandestino, isso nunca serviria como argumento contra a despenalização. Infelizmente as razões não serão essas, já que continua a haver aborto ilegal e, entre outras razões, “há mulheres que julgam que ainda não é possível abortar legalmente”. O número de abortos legais deverá portanto subir nos próximos tempos, mas para Teté isto será a legalização a incentivar as pessoas a abortar.

Foi por esta altura que pude concluir que Teté era religiosa (veio a confirmar-se) e que o texto não valia um chavo (idem). Depois vêm as patacoadas do costume, incluindo que “a ciência está a demonstrar a existência de um ser humano vivo desde a concepção”, que no Reino Unido e França cresce a resistência dos médicos mais jovens ao aborto (estará a falar disto?) e que no Reino Unido o aborto é usado como contraceptivo.

Pronto, já faltava a pseudociência

O texto fica interessante quando descubro que, segundo Teté, o discurso anti-escolha «se tem tornado cada vez mais feminino e mesmo feminista»(!!), e haverão duas razões para isto. A primeira é porque na China e na Índia o aborto “discrimina maciça e escandalosamente contra os fetos do sexo feminino”. Não percebi o que é que isto tem a ver com o caso português.

A segunda razão é que «começa a ser irrecusável o rasto de sofrimento do aborto voluntário nas mulheres que o praticaram». Começo por não perceber a expressão aborto voluntário (na China até é involuntário, isto é melhor?), mas Teté explica o “rasto de sofrimento”: diz que o aborto aumenta o risco de cancro da mama e que está “associado a doenças mentais graves (…) e comportamentos de risco”. A estatística tornou-se a arma número um da pseudociência, alguém tem de explicar a esta gente que uma correlação estatística não prova nada só por si (ainda que no cancro da mama nem isso parece existir). No caso dos comportamentos de risco e afins parece-me uma situação clara de relação causa-efeito invertida (quem tem comportamentos de risco mais depressa precisa de fazer um aborto, não?).

A história de o aborto provocar cancro da mama já a tinha ouvido antes, e não tem ponta por onde se lhe pegue. Que fique claro que, segundo a AAAS (um pouco mais credível que a Teté), o aborto não aumenta o risco de cancro da mama, e a pílula abortiva até tem um químico que parece ajudar a prevenir os ditos tumores.

Associação Mulheres em Acção – As cinco feministas!

Para o fim do artigo, Teté ainda diz que «o aborto deixou de ser uma “estatística” e passou a ser uma realidade vivida, analisada, sofrida e narrada por quem o padeceu». Esta afirmação só prova o quão desfasada estava Teté da realidade, para quem o aborto só se tornou realidade depois de despenalizado. Por esta altura eu já estava a espumar pela boca: como é que o Público admite que alguém escreva tantas barbaridades? Mesmo dentro do Espaço Público, é de esperar um mínimo de critérios editoriais. No final do artigo vem escrito Associação Mulheres em Acção (AMA, que bonito). Acho que estas associações deviam ter nomes mais explícitos, Associação Mulheres em Acção tanto pode ser um grupo de empresárias dinâmicas como o título de uma daquelas cassetes que se vêem em cantos obscuros de quiosques de rua tais como O SPA das Gulosas. Não é nenhuma das duas.

Acedendo ao site da Associação Mulheres em Acção, descubro que se trata de uma pretensa associação para a “promoção da igualdade entre homens e mulheres”. Estranhei, porque não me cheirou que Alexandra Teté fosse promotora de igualdades. A página tem o perfil da sua equipa, com as respostas a várias perguntas, e foi aí que descobri o quão feminista é a presidente da associação. Qual o livro preferido desta defensora da igualdade? “Os Evangelhos”! Com que então Mateus, Marcos, Lucas e João são as grandes referências do feminismo… E quem escolhe Teté como “Mulher de destaque”? «São várias por isso a todas dou o nome de Uma: Maria». Será a mesma Maria que foi santa por ser virgem e mãe ao mesmo tempo? Nesta altura fiquei muito confuso, mas que raio de feminismo é este? Será uma beata infiltrada? Não, a associação é toda assim…

Vamos lá ver esse feminismo…

O gosto para livros de Teté não destoa do das outras quatro, há uma Maria Pia Sanchez-Ostiz Gutierrez que também escolhe a bíblia como livro preferido («A Bíblia, sempre!»). O outro elo comum entre estas duas é a profissão. Como desbravam estas senhoras o caminho para a igualdade num mundo patriarcal? Uma é “dona de casa” e a outra “Mãe”. Para quem não conhece bem a bíblia, ficam aqui umas citações dessa referência maior da luta pela igualdade entre homens e mulheres:

  • «As mulheres que obedeçam ao marido como ao Senhor» (Éf 5, 22);
  • «Durante a instrução, as mulheres devem ficar em silêncio e ouvir com humildade. não lhes admito que ensinem nem que dêem ordens aos homens(…)» (1Tm 2,11-12) ;
  • «As mulheres não devem tomar a palavra nas reuniões da comunidade»(1Cor 14, 34).

Estas pérolas são só do novo testamento, no antigo a misoginia ainda é levada mais ao ridículo (parece difícil, mas é verdade). As personagens históricas que estas mulheres mais admiram incluem Joana d’Arc, Madre Teresa, a “Rainha Santa Isabel” e Edith Stein (também conhecida como Santa Teresa Benedita da Cruz, uma freira carmelita). O que é então esse feminismo que elas defendem? Felizmente uma das perguntas é “O feminismo é…”. Para Teté: «simplesmente ser mulher. Nem mais, nem menos. E isto é muito.» OK, imagino que sim, basta ser mulher para ser feminista, vamos ver as outras: «Gostar de ser Mulher», continua vazio, «saber compreender a beleza da mulher e da maternidade», começam a haver razões para desconfiar, há outra que responde «necessário?» e a melhor é a última: «aceitar ser mulher e reconhecer que o homem nos completa». O feminismo é isto? Sempre a aprender…

Na carta de princípios da associação, a luta contra a discriminação e pela igualdade de direitos e remuneração vem em último lugar (literalmente). Antes disso vem reconhecer e valorizar que a mulher e o homem se complementam, “respeitando e promovendo os valores propriamente femininos e a contribuição insubstituível e peculiar da mulher para a sociedade e para a família”. Antes da igualdade ainda vem a “família tradicional” e a luta contra o aborto e a eutanásia.

Que continuem estas cinco bravas guerreiras da igualdade a lutar por esse paraíso feminista, em que as mulheres aceitem o quanto precisam de um homem que as complemente para poderem casar-se e dedicar a sua vida à bênção da maternidade. As sufragistas do século passado devem estar orgulhosas destas herdeiras.

2 responses to “As verdades inconvenientes de uma ‘Mulher em Acção’

  1. mas mais incrível é que essa senhora se intitule Drª, Lic. em relações internacionais – não sendo nem uma coisa sem outra… – e a Assoc. a que pertence A PEDIDO da Comissão de Crianças e Jovens da Maia faça “relatórios sociais” (como se tivesse habilitações ou pessoal habilitado e não existissem organismos estatais para o efeito…) sobre o progenitor-pai… dá para adivinhar os factos “apurados” e as conclusões?!
    O pai não faz a barba e tem a roupa em desalinho (sic.), entre outras piores… NOTA: o pai usa barba, há mais de 15 anos!!!

  2. Gostaria de saber se estás interessado(a) em assinar as minhas duas petições online.

    A primeira defende que, em caso de separação, os filhos devem permanecer à guarda da mãe (salvo excepções, claro). Está em http://www.peticaopublica.com/?pi=P2009N575

    A segunda é a favor de toda a pessoa deficiente. Está em http://www.peticaopublica.com/?pi=P2009N134

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