Vamos lá deixar a internet em paz…

Quanto mais artigos leio de César das Neves mais dificuldade tenho em perceber o que o torna um colunista respeitável aos olhos de tanta gente. Desta vez o tema é a Internet e os abusos que nela ocorrem. Um tema muito batido, a que o colunista do DN não vem trazer nada de novo (com a possível excepção do estilo inconfundível do yeti).

«A Internet é a maior colecção de insultos, mexericos, boatos e disparates alguma vez reunida na história da humanidade. Existem também coisas excelentes, belas e grandiosas, com uma qualidade única e inovadora. Mas não há dúvida que numa grande parte dos blogs, mensagens, comentários e sites de debate dominam o pedantismo e a grosseria, maldade e despeito, vacuidade e a mais pura e prístina estupidez.»

Nada de novo, e retirando a parte da estupidez (claro!) eu até diria que este blog cumpre os requisitos. Cada um há de projectar os seus ódios de estimação para esta descrição, mas o mais normal é concluir que existem muitos broncos por aí e que isso transparece na internet. César das Neves afasta logo essa hipótese, porque «é evidente que quem frequenta as novas tecnologias da comunicação ainda pertence a uma elite favorecida(…)». Diz antes que «a Net tende a trazer ao de cima os instintos mais baixos dos que a frequentam». Que «se podem expandir os preconceitos e ideias feitas, teorias mirabolantes ou ódios de estimação, tudo admissível porque aquele é o seu espaço, com regras por ele definidas». Acho que falar de uma perversidade intrínseca de internet nem merece comentários, quanto à última frase convém perguntar quando foi a última vez que César das Neves foi sujeito a qualquer tipo de controlo editorial. Será que ele não usa “o seu espaço” no DN para as suas “teorias mirabolantes”, “ódios de estimação”, “preconceitos e ideias feitas”?

O que não compreende é que tanto o que há de bom como o que há de mau na internet se deve a este ser um meio de comunicação deliciosamente democrático, e penosamente democrático. Não há antídoto para a imbecilidade, maledicência e tudo o mais que se lembre, muito menos numa democracia (uma ditadura sempre permite que alguém imponha o seu bom gosto). Não percebe que a internet não é só uma transposição do mundo dos jornais ou livros (que dá como contra-exemplo), mas também (e cada vez mais) das conversas de café, discussões de copos, debates de barbearia, inconfidências de porteiras e o ‘sabes o que disse o amigo do primo de um colega duma amiga sobre o ministro?’. A internet (pelo menos a parte a que se refere) está sob a alçada da justiça, e os abusos permitidos são os mesmos que se admitem na democracia em geral, em qualquer tipo de publicação. Se um blog pisa a linha da legalidade, pode ser responsabilizado tal como qualquer pasquim de carbono. Se não for caso para tanto, responde-se ou ignora-se.

Ao chegar à conclusão de isto tudo, o estilo inconfundível do yeti vem ao de cima:

«Assim a Net revive um drama antigo da civilização. O grande psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905-1997) disse que os EUA deveriam construir em Los Angeles uma “Estátua da Responsabilidade”, para compensar a de Nova Iorque. A liberdade só floresce se apoiada no esteio dos valores e da cultura. Ao longo dos séculos todas as sociedades se esforçam por elaborar um edifício cultural e tradicional de valores que defenda o espaço pessoal da liberdade. A tradição, que tantos vêem como um entrave, só existe como protecção crucial dessa autonomia.

Perante um choque, como ao nascer de um novo continente ou forma de comunicação, a tradição é pulverizada. Então, no Far West e Internet, como nas revoluções, uma sociedade vive algum tempo com uma estrutura cultural mínima, que não chega para orientação. Nessas fases da História, e enquanto não se criam novos quadros de referência, vêm ao de cima os instintos mais básicos e boçais. É isso que por enquanto se vê na Net, apesar dos esforços intensos que um dia conseguirão civilizá-la.

Aqui surge outro problema. Muitos espantam-se por sociedades avançadas e sofisticadas tolerarem tais comportamentos. O que leva a Alemanha de Bach e Goethe a ajoelhar-se diante de Hitler? Serve-nos de aviso a afirmação de S. Bernardo: “Não há nada tão firmemente estabelecido na alma que a negligência e o tempo não enfraqueçam” (De Consideratione, I, ii, 2). »

Pronto, já cá faltava o nazismo numa inversão da lógica. É este o estilo inconfundível a que me referia: começar a falar contra algum tipo de liberdade, defender uma via mais autoritária e por fim, com a maior naturalidade, afirmar que se não limitarmos a liberdade caminhamos para um estado nazi. Já o fez antes, numa coluna que serve de exemplo para as “teorias mirabolantes”, “ódios de estimação”, “preconceitos e ideias feitas” de César das Neves. E onde já referi que o nazismo floresceu porque as pessoas desejavam essa higienização e normalização da cultura e costumes que César das Neves defende a cada oportunidade. Penso que esta foi uma das grandes lições que o horror do nazismo devia ter gravado na consciência colectiva da humanidade. Mas tal como disse, e bem, S. Bernardo: “Não há nada tão firmemente estabelecido na alma que a negligência e o tempo não enfraqueçam”.

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