Vamos lá deixar a língua em paz…

Por acaso deparei-me com uma peça na RTP sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa. Lembro-me de ouvir falar disso há uns anos, mas pensei que a ideia tinha morrido.

Infelizmente parece que a ideia não morreu. Ao que parece, aquilo de que tinha ouvido falar era o acordo ortográfico de 1990 que era suposto entrar em vigor em 1994, mas nessa data só Portugal tinha ratificado o acordo. Em 1998 houve um “protocolo modificativo” ao acordo que lhe retirou a data de entrada em vigor. Brasil, Cabo Verde e Portugal ratificaram-no, mas continuava a ser necessária a ratificação de todos os países lusófonos para ser oficial. Em 2004 surgiu então um “segundo protocolo modificativo” em que passavam a ser necessários apenas três aderentes. Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe ratificaram o acordo (três), e parece que Portugal se vai juntar à festa.

Mudar para quê?

Segundo o que vem na wikipédia,

O Acordo Ortográfico de 1990 almeja a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e o aumento de seu prestígio internacional, pondo um ponto final na existência de duas normas ortográficas divergentes e ambas oficiais: uma no Brasil e outra nos restantes países de língua portuguesa.

Na minha opinião, o que desprestigia a língua portuguesa são coisas destas:

«(…)wasteful projects include a prison museum, a sailing school taught aboard a catamaran, and a “Portuguese as a second language” program. Congress owes the taxpayers much better than this effort. And so today in the Oval Office I vetoed this bill. (Applause.)» – George W. Bush (versão completa)

Qual é o problema de termos duas versões da mesma língua? Segundo está na wikipédia:

«Actualmente o Português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de cinquenta milhões de pessoas com mais de uma ortografia oficial. Mesmo o castelhano apresenta dezenas de variações de pronúncia na Espanha e América hispânica, mas apenas uma ortografia. A língua inglesa por sua vez apresenta variações ortográficas nacionais significativas (comparáveis em escala àquelas observadas nas variedades nacionais da língua portuguesa), mas não conta com uma regulamentação oficial.»

Pois, não me lembro de a língua inglesa se queixar de falta de prestígio, mas o problema é que aparentemente estamos cheios de burocratas da língua e os países anglófonos nem por isso. Outra razão apontada é a unificação permitir a criação de um vocabulário comum, um dicionário único. Esta é a razão mais estúpida e deixo-a para o fim.

As alterações

A entrada das letras ‘kwy’ para o alfabeto não é nada de mais, oficialmente ou não as letras já lá estavam. Já há muito tempo que a economia keynesiana e o darwinismo andavam por aí, e wikipédia parece-me tão natural como outra coisa qualquer. Já nos anos 90 a rua sésamo ensinava às crianças esta versão do alfabeto.

O problema vem com as outras alterações. Na peça da RTP a jornalista diz que “a regra é muito simples: o que não se lê, não se escreve”. Claro que mais à frente se descobre que não é nada simples, pois seguindo a regra à letra teríamos de mudar a tabela periódica para incluir o idrogénio e o élio, o que não parece estar previsto.

Os linguistas (ou filólogos ou lá quem for) decidiram que menos era melhor. Em princípio eu concordaria com esta decisão porque sou um fã da simplicidade, mas as regras novas, que implicam retirar consoantes mudas e tremas, não vêm tornar a língua portuguesa mais simples.

A supressão do c e do p mudos mantém ou piora o problema da passagem da ortografia para a fonética. Estas letras não são completamente inúteis, servem para abrir a vogal que as precede (quando se trata de uma sílaba átona, é a única forma). As novas versões passam a engrossar as fileiras das palavras que se lêem de forma diferente sem razão aparente. Se acção passa a ação, a forma como se lê colide com cação. O mesmo se passa com adoptar que passa a adotar, colidindo com adorar. A mesma história quanto ao baptismo, já que o tipo que batisa usa batina. Os problemas gerados não são nada de novo, nunca percebi porque é que quando eu espeto um espeto leio de forma diferente a mesma coisa, mas porquê adicionar mais um aspeto à confusão?

No Brasil são necessárias menos alterações (0,5% do vocabulário contra os nossos 1,6%), mas estas não deixam de ser questionáveis. O trema também cumpria uma função útil, ao distinguir o u em linguiça e cinquenta para que não se leia como em guinada e querela. Ainda assim para Portugal é bom que não se tenha de inverter a transição neste ponto, já que nunca vi um teclado com trema. Idéia e européia também parecem ser formas de escrita mais coerentes com a fonética brasileira.

Outro aspecto que muda é a junção de palavras, um ponto que até é útil porque não faço ideia de qual seja a norma actual e é bom ter regras simples para estas coisas. Na regra adoptada usa-se hífen se existir um choque entre letras iguais, e se não houver aglutinam-se as palavras como se fôssemos alemães. Paraquedas não me soa nada bem, preferia o pára em vez do para, mas também ninguém leva a mal se eu continuar a usar a forma antiga (e dificilmente escreverei a palavra num contexto em que isso importe).

Vai ser uma dor de cabeça e não vai adiantar nada

Mudar uma língua não é nada que se deva encarar de ânimo leve. Se as alterações não vêm resolver nenhum problema (sim, eu gosto das duplas negativas), ainda pior. Falam de um “vocabulário comum”, mas por cá continuamos a ter o facto, e no Brasil usam como premissa o que penduramos num cabide. Vão continuar a haver o pebolim e os matraquilhos, gerenciadores e gestores, ônibus e autocarros, trens e comboios, esporte e desporto, prefeituras e câmaras municipais (mas em ambos os casos podemos falar de corrupção, a bem da unicidade da língua). Continua a não ser simpático falar dos filhos de um casal brasileiro dizendo-lhe inocentemente que “o puto cresceu e a rapariga é bonita”.

Um hipotético dicionário unificado continuaria a precisar de entradas duplicadas para termos diferentes, as alterações não resolvem o problema. Esse tal vocabulário não vai ficar pronto tão cedo, no Brasil vai em 350 mil palavras, em Portugal nas 70 mil. Bem que podiam contribuir o que têm para o wikcionário (que ainda vai pelas 40 mil) ou para uma coisa parecida, que seja minimamente útil. E qual é o problema de entradas duplicadas? Procure-se facto na wikipédia e observe-se que a solução é bem simples.

As diferenças são um problema?

Comunica-se muito bem de um lado para o outro do Atlântico, sem ser preciso nenhum acordo. Seja como for, os acordos nunca hão de fazer mais pela harmonização do vocabulário do que fizeram as novelas da Globo há uns anos (e se falo neste tema tenho de referir esta entrada recente no Complexidade e Contradição).

O João Pereira Coutinho, quando escreve para a Folha, faz adaptações no vocabulário e estilo de escrita (e até pode fingir que Portugal é um país de pontualidade germânica), e o Scolari faz a adaptação inversa a falar com a imprensa. As pessoas adaptam-se ao contexto em que estão e acabou-se.

Resumindo e concluindo, temos diferenças, vamos continuar a tê-las, e isso não é problema nenhum. Nas diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil, devíamos fazer o mesmo que foi feito quanto às diferenças entre inglês americano e inglês britânico: nada! Se os linguistas portugueses quiserem perder tempo com questões de língua, que seja para decidir se um bilião vai continuar a ser um milhão de milhões ou se vai passar a significar mil milhões como nos EUA, isso já seria uma questão que interessa desambiguar. Acto ou ato, isso é como o tomeito e o tomáto mas na forma escrita: não é um problema. Só não percebo porque é que esta entrada acabou por ficar tão longa, e nem quero imaginar o dinheiro gasto pelos governos lusófonos neste acordo sem sentido.

3 responses to “Vamos lá deixar a língua em paz…

  1. Pingback: 6º DESacordo ortográfico: leituras « A ILHA DOS AMORES

  2. É possível assinar uma petição manifestando-se contra o acordo ortográfico que está a ser considerado para Janeiro.
    Cumprimentos

  3. Pingback: De volta ao acordo ortográfico « a mansarda

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