O caso McCann e frustração redireccionada

Os bodes expiatórios

Na entrada anterior a reacção em Portugal ao caso McCann era descrita por um colunista do Times como resultado de xenofobia primária. As reacções ao caso, tanto em Portugal como no Reino Unido, sempre me pareceram mais motivadas pela necessidade de retaliação que uma grande frustração costuma provocar do que pelos sentimentos nacionalistas ou xenófobos.

Os comentários de Rod Liddle parecem resultar da mesma necessidade de bodes expiatórios, e estar imbuídos da mesma xenofobia que procura denunciar. Muita emoção e pouca razão, assim tem sido o caso. Infelizmente, não era de esperar outra coisa. Contando apenas com a informação disponibilizada em jornais de referência ninguém pode afirmar ter a certeza de nenhuma tese sobre o que se passou, e é tudo o que vou aqui dizer sobre a investigação.

Será escusado falar do potencial de uma criança, em especial uma criança tão fotogénica como foi o caso, para provocar empatia e invocar sentimentos proteccionistas até nos mais cínicos. Dada a intensa cobertura mediática a exposição ao fenómeno foi inevitável. Pelas circunstâncias em que o rapto teria tomado lugar, cedo se afigurou bastante provável os raptores nunca serem descobertos. Esta combinação de factores desaconselhava vivamente o envolvimento emocional no caso, tudo apontava que esta postura levasse à sensação de impotência, à frustração. A motivação mais provável para o rapto da criança agrava a situação.

A postura racional pede que se procure um distanciamento emocional, que nos limitemos aos factos e que estes sejam a única base para analisar as hipóteses que sejam lançadas. Desde cedo isto leva a admitir a hipótese de nunca se vir a descobrir o que aconteceu, ou onde está a criança. Assumindo a tese de um rapto sem deixar rasto, fica sempre o fantasma de isto poder acontecer a qualquer um, a qualquer criança próxima, e os culpados hão de permanecer no anonimato sem serem responsabilizados. Dificilmente isto será aceitável para quem tiver emoções investidas no caso.

Duas formas acabaram por surgir para canalizar a dor para um alvo mais acessível. Uma, a que Rod Liddle subscreve, é a tese da incompetência gritante, ou até malícia, por parte dos investigadores. Outra é a do encobrimento por parte do casal da morte acidental da filha. Sendo a polícia portuguesa e o casal britânico, é fácil perceber o critério dos tablóides que escolheram uma ou outra tese nos dois países envolvidos e a facilidade com que as duas teses se alimentam mutuamente. Ficam dois alvos bem definidos: para uns, uma polícia incompetente e corrupta, para outros duas pessoas calculistas que colaboram numa ocultação de cadáver.

Nem a Polícia Judiciária é a polícia de república das bananas que alguns afirmam que é, nem as provas contra o casal McCann são suficientes. Não são suficientes para condená-los nem para ilibá-los perante a opinião pública, e muito menos para achar que esta linha de investigação não deveria ter sido seguida. Mas quando se tem um bode expiatório, quem precisa de razões?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s