O que José Manuel Fernandes insiste em não perceber (1) – O mito do nazismo ateísta

«Uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade.» – frase atribuída a Joseph Goebbels

Goebbels, o ministro da propaganda no regime nazi, sabia do que falava. Este princípio parece ter sido absorvido por muitos anti-ateus da actualidade que insistem em associar o regime nazi ao ateísmo, quando os factos apontam no sentido contrário: Hitler tinha fortes convicções religiosas e usou o cristianismo como catalisador para a sua ideologia aberrante.

No Público de dia 23 José Manuel Fernandes (JMF) decidiu lançar a sua ofensiva contra o “novo ateísmo”. Escreveu um artigo intitulado “Ateísmo – Contra as Igrejas, contra a religião, agora também contra Deus”, com uma preocupante tendência para deturpar factos. Uma refutação geral dos argumentos de JMF ficará para entradas futuras. Nesta irei apenas tratar um dos pontos que mais voltas me deu ao estômago:

«Durante boa parte do século XX, em que as maiores tragédias foram desencadeadas por totalitarismos ateus, como o nazismo e o comunismo (…)»

Tremo ao ver esta demonstração de ignorância (ou de malícia) ser escrita pelo editor de um dos mais importantes jornais portugueses. O argumento é usado duas vezes no texto de JMF, que nem se dá ao trabalho de justificá-lo, até porque não é possível fazê-lo. É apresentado como facto um indiscutível, uma premissa para a discussão.

Já não é a primeira vez que alguém tenta apresentar estalinismo e nazismo como “totalitarismos ateus”. Se no primeiro esta designação pode ser apenas abusiva, no segundo é completamente idiota. Os estatutos do partido nazi até associavam a ideologia do partido ao “cristianismo positivo”. Tenciono aqui demonstrar a monstruosidade da mentira de José Manuel Fernandes, que mais parece o César das Neves.

Hitler, o ateísmo e a religião

“Gott mit uns” (“Deus connosco”), é o que pode ser lido nas fivelas dos cintos usados pelos soldados da Alemanha nazi. Um pouco estranho para um “totalitarismo ateu”… mais estranho ainda foi o regime nazi ter banido os grupos alemães de ateus e pensadores livres na primavera de 1933 (ver New York Times de 14 de Maio de 1933). Estas acções foram antecedidas pelo seguinte discurso no parlamento alemão:

«Pela sua decisão de levar a cabo a limpeza moral e política da vida pública, o Governo está a criar e a assegurar as condições para uma vida interior religiosa verdadeiramente profunda. As vantagens para o indivíduo que possam provir de compromissos com organizações ateístas não se comparam de forma alguma com as consequências que são visíveis na destruição dos nossos valores éticos e religiosos comuns. O Governo nacional vê em ambas as denominações Cristãs [igreja católica e protestante] o factor mais importante para a manutenção da nossa sociedade.» – Adolf Hitler, discurso no Reichtag a 23 de Março de 1933

Hitler tornou-se chanceler em Janeiro de 1933, e não tardou muito a mostrar a sua aversão ao ateísmo:

«Uma campanha contra o “movimento ateu” e um apelo ao apoio católico foram lançados pelas forças de Adolf Hitler.» – Associated Press, 23 de Fevereiro de 1933

O combate ao ateísmo era um ponto fulcral na agenda do facínora:

«Eu juro que nunca me irei associar a partidos que queiram destruir a Cristandade(…) Queremos encher de novo a nossa cultura com o espírito Cristão(…) Queremos queimar todos os desenvolvimentos imorais recentes na literatura, no teatro e na imprensa – em suma, queremos queimar o veneno da imoralidade que entrou em toda a nossa vida e cultura como resultado do excesso liberal(…)» – Adolf Hitler, citado em The Speeches of Adolf Hitler, 1922-1939, Vol. 1 (London, Oxford University Press, 1942), pg. 871-872

Penso que está bem provado que Hitler não era um ateu nem nada que se parecesse, e que até defendia o cristianismo contra os valores seculares. Qual a religião de Hitler? Se formos acreditar nas palavras do próprio:

«Eu sou agora como dantes um Católico e sempre o serei.» – Adolf Hitler, numa carta ao general Gerhard Engel, em 1941

O próprio anti-semitismo de Hitler parece ter origem nas suas convicções cristãs, ou pelo menos ser influenciado por elas:

«Quando Ele [Jesus] achou necessário, Ele expulsou esses inimigos da raça humana para fora do Templo de Deus; porque na altura, como sempre, eles [os judeus] usaram a religião como forma de avançar os seus interesses comerciais.» – Adolf Hitler, Mein Kampf (vol.1, capítulo 11)

«(…) hoje eu acredito estar a agir de acordo com a vontade do Criador Todo Poderoso: ao defender-me contra o Judeu, estou a lutar pela obra do Senhor» – Adolf Hitler, Mein Kampf

Para além da influência nas ideias aberrantes de Hitler, o cristianismo também teve um papel muito importante na aceitação do regime:

«Um estado que uma vez mais governa em nome de Deus pode contar não só com o nosso aplauso mas também com a cooperação entusiasta e activa da igreja. Com alegria e gratidão vemos como este novo estado rejeita a blasfémia, ataca a imoralidade, promove a disciplina e a ordem com uma mão firme, exige temor perante Deus, trabalha para manter o casamento sagrado e a nossa juventude espiritualmente instruída, traz a honra de volta a pais de famílias, assegura que o amor pelo povo e pela pátria não é mais escarnecido, mas arde em mil corações.» – parte do sermão do domingo de Páscoa de 1933 proferido por pastores protestantes da Baviera.

Não foi só a igreja protestante que proclamou o seu apoio a Hitler, o Vaticano firmou em 1933 uma concordata com o regime nazi. Vejamos o que disse o arcebispo de Munique sobre este evento:

«Numa altura em que os líderes das grandes nações do mundo encaram a nova Alemanha com uma fria reserva e suspeição considerável, a Igreja Católica, o maior poder moral na Terra, expressou através da Concordata a sua confiança no novo governo alemão.» -Cardeal von Faulhaber, arcebispo de Munique, num sermão de 1937

Penso que é agora claro que o nazismo não foi um “totalitarismo ateu”. Onde foi José Manuel Fernandes buscar essa crença? Não faço ideia. Termino com uma curiosidade: o Cardeal von Faulhaber da citação anterior ordenou padre em 1951 um tal de Ratzinger. Sim, esse Ratzinger.

TGF

Citações (sem nenhuma ordem especial) #1 #2 #3 #4 #5 #6

Wikipedia:

 

Hitler was not an atheist, artigo na Free Inquiry

8 responses to “O que José Manuel Fernandes insiste em não perceber (1) – O mito do nazismo ateísta

  1. Pingback: Quando se percebe só aquilo que interessa « perspectivas

  2. Pingback: Quando só se percebe aquilo que se quer perceber « a mansarda

  3. Que cretinice, insinuar de forma rasca que ratzinger é nazi.
    é reconfortante saber que nas universidades o que se ministra nao é nada do que você gostaria que se ensinasse, portanto continue a chover no molhado que é indiferente.

  4. Não estou a insinuar que Ratzinger é nazi. Nem sequer que Faulhaber era nazi. Que isto fique bem claro.A última frase é mesmo só um pormenor que descobri quando escrevia isto.

    O objectivo desta entrada é dizer que não faz sentido chamar ao nazismo um “totalitarismo ateu”. Ponto.

  5. Bem, devo dizer entao que também retiro as palavras que proferi. Acho no entanto que o meu caro está redondamente enganado mas haverá tempo para discutir mais.

  6. Pingback: De volta ao nazismo « a mansarda

  7. NAZI FOI A MELHOR COISA QUE PODE ACONTECER NO PLANETA TERRA….

  8. Quanto ao Papa bento XVI – Não seja leviano, o alistamento no regime nazista era obrigatório e os jovens que se recusavam sofriam represarias.

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