Quando só se percebe aquilo que se quer perceber

Ia continuar a entrada anterior explicando o que é esse tal “novo ateísmo” que os religiosos não entendem. Infelizmente vou ter de perder tempo com questões acessórias. Por enquanto digo apenas que o “novo ateísmo” é o humanismo secular militante, desenvolvimentos ficam para uma entrada futura.

«Sabemos que Tony Blair se “converteu” ao catolicismo; mas sabemos também que Tony Blair quer o lugar de Durão Barroso na EU. Confundir convicções religiosas com política dá nisto

Por estranho que pareça, isto é suposto ser uma crítica à minha entrada anterior, vinda do perspectivas. As convicções religiosas e a política misturam-se, não é dando um exemplo isolado que se refuta essa tese. Só no parágrafo seguinte a crítica tenta chegar a algum lado:

«É sabido que Hitler utilizou a cultura cristã da Alemanha para chegar ao poder, e que utilizou o paganismo ariano durante o seu consulado. Hitler perseguiu os ateus marxistas e não os ateus por serem ateus, e escamotear esta realidade é de uma grande desonestidade intelectual.»

Desonestidade intelectual? Um de nós tem-na certamente caro Orlando, e quer-me parecer que não sou eu. Tenho um pequeno pedido a fazer a quem me quiser dirigir críticas: tenham a decência de ler o que eu escrevo. E, já agora, de perceber o que está escrito. O objectivo da entrada anterior era explicar que o nazismo não foi um “totalitarismo ateu” como tinha afirmado José Manuel Fernandes. Para além disso, afirmei que “Hitler tinha fortes convicções religiosas e usou o cristianismo como catalisador para a sua ideologia aberrante”. Mesmo que tudo no post de Orlando estivesse correcto, não refutava o que escrevi. Mas não está tudo correcto:

«É sabido que Hitler utilizou a cultura cristã da Alemanha para chegar ao poder e que utilizou o paganismo ariano durante o seu consulado»

Utilizou o cristianismo não só para chegar ao poder mas também para cimentá-lo. Quanto ao “paganismo ariano”, isso não existe. Existiu sim o arianismo, que não era uma religião pagã mas sim uma forma exótica de cristianismo, que Hitler combinou com o cristianismo corrente e com as suas filosofias hediondas.

«Hitler perseguiu os ateus marxistas e não os ateus por serem ateus»

Não, Hitler perseguiu os pensadores livres por serem pensadores livres. Porque um pensador livre não se dá bem com autoritarismos. Isto pode fazer confusão a algumas pessoas porque associava muitas vezes o ateísmo ao marxismo tal como associava o liberalismo aos judeus. Um dos primeiros alvos de Hitler foi a Deutsche Freidenkerbund (Liga Alemã de Pensadores Livres), que não era uma organização marxista. Não eram apenas os marxistas que incomodavam Hitler. Sobre Social-Democratas, por exemplo, disse que «tudo o que ouvi teve o efeito de despertar o mais forte antagonismo em mim» (Mein Kampf, capítulo 2). E uma das razões foi a forma como atacavam a “religião” e a “moral”.

Ainda tentou demonstrar que Hitler era contra o cristianismo. Isto depende de aquilo que se considere um “cristão”. Para prová-lo, Orlando serve-se de citações de um livro obscuro que diz conter “conversas secretas” de Hitler, que Orlando não se inibe de apresentar como um “discurso” (ai, a desonestidade intelectual). Admitindo que as citações são verdadeiras, temos de compreendê-las no seu contexto: o que era o cristianismo que Hitler defendia e o que era o cristianismo que atacava.

Como eu escrevi na entrada anterior, o partido nazi defendia aquilo a que chamava “cristianismo positivo”. É óbvio que coisas como “dar a outra face” eram intoleráveis para Hitler. Ele acreditava que Jesus era um combatente ariano e não um pacifista (dada a ambiguidade da religião, cada um pode adaptá-la às suas convicções). Para compreender este conceito de “cristianismo positivo”, convém ir ao que Hitler escreveu:

«Quer pastor Protestante ou padre Católico, tanto juntos como particularmente nas primeiras querelas, existia realmente em ambos os lados apenas um único Reich Alemão sagrado(…)» — Adolf Hitler, Mein Kampf (capítulo 3)

«No seu funcionamento, mesmo a religião do amor é apenas a reflexão fraca da vontade do seu sublime fundador [Jesus]» — Adolf Hitler, Mein Kampf (capítulo 8 )

E já agora recomendo a leitura da entrada anterior.

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