Monthly Archives: Janeiro 2008

Gandhi

«It’s not me. It’s the principle.»

«For this cause I too am prepared to die, but for no cause, my friend, will I be prepared to kill.»

Mohandas Gandhi, a quem chamaram Mahatma (e se alguém merece o título é ele), foi assassinado há 60 anos, a 30 de Janeiro de 1948. A efeméride fez-me pensar não só no legado de Gandhi, mas também na forma como outra das referências maiores do pacifismo é encarada: porque é tão complicado a um cristão compreender que Jesus foi também um homem. Talvez não apenas um homem, mas um homem como Gandhi.

Ambos quiseram elevar a Humanidade a valor essencial e universal. Mas Jesus foi colado à religião monoteísta em que nasceu. De Cristo criaram o cristianismo, com qualidades e defeitos unidos de forma indissociável por virem de Deus; de Gandhi ‘apenas’ o pacifismo, a entreajuda e a democracia podem ser extraídos. As ideias-chave só por si, porque valem só por si. Não pela vida eterna mas pela posteridade.

Infelizmente, a resistência pacífica não é uma fórmula infalível. Prova a superioridade moral de quem luta contra a injustiça. Cabe ao resto do mundo cumprir a sua parte.

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728 dos 774 prisioneiros enviados para Guantanamo passaram por Portugal

«As nações da Europa, aberta e correctamente, dissociam-se de Guantanamo. De facto, até vozes americanas muito poderosas, como a do ex-Secretário de Estado americano, Colin Powell, pedem agora o seu encerramento. É então algo preocupante descobrir que eu, e centenas de outros como eu, fomos transportados em correntes, com máscaras na cara, de ouvidos tapados e capuzes, sobre território português antes de chegarmos à prisão mais célebre do mundo.» – Moazzam Begg, cidadão britânico libertado de Guantanamo em 2005 (ref)

The Journey of Death – Over 700 Prisoners Illegally Rendered to Guantanamo Bay With the Help of Portugal é o título do relatório publicado hoje pela Reprieve. As conclusões são peremptórias: segundo Clive Stafford da Reprieve, sem a cumplicidade de Portugal nenhum dos 728 prisioneiros teria chegado a Guantanamo. O relatório da ONG contém uma lista com os nomes dos 728 prisioneiros transportados através de território português, incluindo fotografias e testemunhos de alguns, bem como os registos de voo obtidos por Ana Gomes em 2006 que revelam 94 voos com origem ou destino em Guantanamo e escala na base das Lajes, nos Açores, entre 2002 e 2006. O relatório revela ainda que pelo menos 9 dos prisioneiros terão sido torturados em prisões secretas da CIA antes de serem enviados para Guantanamo.

A Procuradoria-Geral da República afirma que a decisão final do inquérito crime aberto em Fevereiro de 2007 será conhecida dentro de dias. Aguarda-se a revelação de quais os papéis de Durão Barroso (perdão, José Manuel Barroso), Santana Lopes e José Sócrates nesta colaboração com a violação de direitos humanos – com especial ênfase para o primeiro.

[Já agora uns pormenores em relação à forma como a SIC deu a notícia. Para além de a citação de cima ter sido atribuída ao ex-prisioneiro errado, apesar de os eventos se terem passado nos Açores a edição da noite – ver vídeo – abriu a notícia com uma imagem Google Earth da Madeira… não é bem a mesma coisa.]

Acudam que estão a censurar o Papa!

« Quando se fecham a Bento XVI as portas de uma universidade, impedindo-o de falar, é sinal de que alguns praticam tudo o que no passado criticaram à Igreja. E ainda se orgulham disso…

(…) No tribunal de “La Sapienza” foi um Papa que quiseram colocar no lugar de Galileu, e foram cientistas que fizaram o papel do acusador de então, o cardeal Roberto Bellarmino, porventura mostrando ainda menos compaixão.» – José Manuel Fernandes, editorial no Público de 17/Jan

Em nome do ateísmo, peço desculpa por terem condenado o Papa a prisão domiciliária até ao fim da vida (apesar de ele ter uma bela casa) e que tenha sido publicada uma lei a impedir qualquer pessoa de reproduzir as ideias de Bento XVI. Mostro o meu desagrado pela forma como os carabineri reprimiram brutalmente a manifestação de apoio ao Papa. Mas vamos voltar à realidade, já que nada do que foi escrito nesta entrada até agora (citado ou não) foi verdade… Continuar a ler

A má fé de Dinesh D’Souza

Dinesh D’Souza foi galardoado pela New Humanist com o Bad Faith Award de 2007 (notícia via Obscene Desserts). D’Souza (o nome aportuguesado deve-se aos pais de Dinesh serem de Goa) é um católico fervoroso que foi conselheiro de Ronald Reagan em 1987-88.

O prémio deve-se em primeiro lugar ao livro que lançou no ano passado, The Enemy at Home: The Cultural Left and its Responsibility for 9/11. Neste livro D’Souza argumenta que a “esquerda cultural” é responsável pelo 11 de Setembro. D’Souza dá como exemplos dessa “esquerda cultural” pessoas como Noam Chomsky e organizações como a Human Rights Watch e a National Organization for Women. Como?

«I am saying that the cultural left and its allies in Congress, the media, Hollywood, the nonprofit sector and the universities are the primary cause of the volcano of anger toward America that is erupting from the Islamic world. The Muslims who carried out the 9/11 attacks were the product of this visceral rage—some of it based on legitimate concerns, some of it based on wrongful prejudice—but all of it fueled and encouraged by the cultural left. Thus without the cultural left, 9/11 would not have happened.» – Dinesh D’Souza

Ainda em 2007 Dinesh D’Souza lançou outro livro, What’s So Great About Christianity (que deve ser a sequela do seu anterior What’s So Great About America). As conclusões do livro parecem-me um pouco dúbias (no mínimo):

  • O cristianismo explica melhor o universo e as nossas origens do que o ateísmo [tenho mesmo de reler o Génesis, aparentemente escapou-me alguma coisa]
  • O ateísmo é uma crença “demonstravelmente perigosa” e “cobarde” [!!]
  • O cristianismo não é minimamente incompatível com a ciência, o ateísmo é que é [!!!]
  • Os ateus têm medo da teoria do Big Bang [tenho de admitir que o homem tem imaginação]
  • Não podemos ter a civilização ocidental nem nenhum dos seus aspectos positivos sem o cristianismo que a originou [parece que a civilização helénica não teve nada a ver com isso]

Tudo isto há de ter contribuído para que Dinesh D’Souza ultrapassasse o favorito inicial, o incontornável Papa Bento XVI, que ainda no ano passado voltou à carga contra o humanismo secular alegando que foi o ateísmo o responsável pelas “maiores formas de crueldade” (ideia ecoada por cá pelo nosso cardeal querido D. José Policarpo, para quem “Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade”).

Os nomeados incluiram ainda nomes de peso como Chuck Norris, por ter afirmado que se fosse presidente iria “tatuar uma bandeira americana com as palavras ‘In God we trust’ na testa de cada ateu”, o bispo de Carlisle, já aqui referido por ter afirmado que as cheias no Reino Unido foram a paga divina pela postura do país face à homossexualidade, a igreja baptista de Westboro, conhecida por slogans como “God hates fags” e “Thank God for dead soldiers” (ver vídeo), ou ainda o arcebispo católico de Moçambique Francisco Chimoio, com a sua teoria de que a Europa estava a produzir preservativos infectados com VIH para exterminar os africanos.

Estão abertas as inscrições para 2008. No Obscene Desserts é desde já avançado o nome de Jonah Goldberg pelo seu livro Liberal Fascism, onde argumenta que o Nazismo foi um regime liberal de esquerda. Já tinha visto esta ideia nalgum lado

Do Desassossego

[Este espaço tem sido muito negligenciado em Janeiro, mas isso deverá mudar nos próximos dias.]

Para já fica a recomendação da peça Do Desassossego, criada a partir do Livro do Desassossego de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, em cena no teatro da comuna até 8 de Março. A sinopse é um bocado enganadora no que diz respeito à música:

«Fernando Pessoa, ele próprio , será o musico , sem palavras, mas que através da execução musical de temas originais e, recorrendo aos mais variados instrumentos, preencherá silêncios , anunciará as mudanças marcará os ritmos- maestro por excelência – dos seus heterónimos.

O actor, representará seis personagens que compõem o imenso caleidoscópio de vivências que “O Livro do Desassossego” propõe; O Escriturário , A Criança , O Mendigo , O Palestrante , Homem/Mulher, Revoltado.»

Penso que isto é um exagero do papel de Hugo Franco, o músico. Fica então a minha sinopse: Hugo Franco enquanto Fernando Pessoa, ele próprio, lê o prefácio e a partir daí Carlos Paulo encarna o Livro do Desassossego. O trabalho de Hugo Franco na peça limita-se à inclusão de efeitos sonoros aqui e ali, e dar igual importância ao músico e ao actor é extremamente redutor em relação ao trabalho de Carlos Paulo. O actor é o centro da peça e fez por merecer a longa ovação (de pé) que recebeu no fim – tudo o resto são pormenores.

Quarta a sábado às 2130 e domingo às 17h até 8 de Março. Quartas e quintas a 5€. Sexta a domingo 7,5€ para estudantes e terceira idade e 10€ para o resto. Vale a pena.

De volta ao nazismo

A entrada sobre o mito do nazismo ser um regime ateísta não foi suficientemente clara. O objectivo não era associar o nazismo ao cristianismo ou ao Vaticano. Espero já ter deixado claro que não aprecio este tipo de comparações gratuitas quando César das Neves tentou associar a despenalização do aborto ao nazismo (apesar de o regime combater activamente o aborto). O objectivo da entrada era simplesmente afirmar que não faz sentido associá-lo ao ateísmo (o que José Manuel Fernandes fez com leviandade) usando a propaganda e acções do regime como prova. Não faz sentido associar um movimento que é contra o dogmatismo a um regime totalitário dogmático, muito menos no caso do regime nazi que apelou de forma clara à religião para promover os seus ‘valores’. “Hitler tinha fortes convicções religiosas e usou o cristianismo como catalisador”, esta foi a frase central e as citações que se seguiram visavam apenas reforçar este ponto e não alinhar a igreja com o nazismo.

Convém ainda salientar que o “cristianismo positivo” que Hitler defendia não é o cristianismo típico, já que Hitler via Jesus como um “combatente ariano” que se insurgiu contra os judeus, e detestava os aspectos pacifistas da cristandade. Acredito até que se Hitler tivesse tido oportunidade, teria acabado por erradicar a igreja católica para substituí-la por uma igreja estatal em que ele seria uma figura central. Espero que tenha ficado tudo mais claro. Gostava que acabasse esta tendência por parte de algumas pessoas religiosas para considerarem o nazismo um resultado do ateísmo, isso está muito longe da verdade, e antes de acusarem o ateísmo teriam de acusar a religião. Culpem antes o racismo, o nacionalismo exacerbado e o autoritarismo, faz mais sentido.

Novo Aeroporto de Lisboa: LNEC escolhe Alcochete

 O estudo do LNEC sobre a localização do novo aeroporto considera a hipótese de Alcochete “globalmente mais favorável” do que a Ota, do ponto de vista técnico e financeiro, e o governo irá seguir as recomendações do estudo. José Sócrates anunciou ainda que a terceira ponte sobre o Tejo será rodo-ferroviária e ligará Chelas ao Barreiro. (ref)

De referir ainda que o campo de tiro de Alcochete não fica minimamente no concelho de Alcochete mas sim dividido entre Benavente e Montijo, afectando principalmente a freguesia de Canha. Segundo o presidente da câmara de Alcochete, “o Campo de Tiro de Alcochete foi fundado em 1904 pelo Rei D. Carlos I e ninguém se preocupou com o nome”.(ref)

Tanto quanto sei o estudo ainda não está disponível para o público em geral, mas o governo assegurou ontem que ele será publicado quando for entregue ao Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.(ref) Entretanto ficam aqui os “factores críticos de decisão” e para que lado pendem (ref).

Vantagens de Alcochete:

  • “Segurança, eficiência e capacidade das operações do tráfego aéreo”
  • “sustentabilidade dos recursos naturais e riscos”
  • “compatibilidade e desenvolvimento económico e social”
  •  “avaliação financeira”

Vantagens da Ota:

  • “conservação da natureza e biodiversidade”
  • “sistemas de transportes terrestres e acessibilidades”
  • “ordenamento do território”

Quanto ao redesenho da rede de TGV ou qual o papel da Portela a longo prazo, ainda não ouvi nada de explícito. Eram pontos fulcrais nas alternativas propostas pela CIP e pela ACP.