O que José Manuel Fernandes insiste em não perceber (2) – O que é o “novo ateísmo”

[Não acho que tenha sido a melhor escolha de título mas vou mantê-lo por coerência.]

José Manuel Fernandes tenta encaixar o “novo ateísmo” com o “anticlericalismo radical”, jacobinos, revolução russa e Nietzche. Só falta dizer que comemos criancinhas ao pequeno-almoço. O movimento ateu actual não quer queimar igrejas, decapitar pessoas , assassinar padres, acabar com os valores morais nem nada que se pareça.

O “novo ateísmo” não tem assim muito de novo (para além de mais uns anos de ciência a confirmar a descrença na religião). Os seus conceitos-base são praticamente os mesmos que foram descobertos independentemente por filósofos gregos e indianos há cerca de dois milénios e meio. Procura apenas uma visão racional do mundo, a procura do saber contra os confortos da ignorância, uma ética vinda do espírito crítico e não do medo e crenças que possam ser discutidas e melhoradas em vez de cristalizarem como verdades divinas. Evitar o pensamento mágico para aquilo que tem explicações racionais.

atheism

Secções:

  • Brights!
  • Humanismo Secular
  • As causas do “novo ateísmo”
  • Leitura literal da Bíblia
  • Fé contra razão e ‘Deus’ como hipótese
  • Deus concreto e Deus abstracto

Brights!

José Manuel Fernandes começa o artigo com a seguinte frase de Dan Dennet: «Chegou o momento de nós, os iluminados, sairmos do armário». Logo aqui há uma pequena incorrecção que, embora parecendo um pormenor, tem importância. Iluminado é a tradução que JMF encontra para bright, o termo usado para evitar as simplificações que costumam ser feitas em torno do termo ateu. Bright em oposição a Super, aquele que precisa de explicações sobrenaturais e misticismo para o que tem explicações mais prosaicas. Iluminado talvez não seja a melhor tradução por não transmitir a ideia de uma luz própria, a luz que vem do intelecto e não de um putativo Deus que se revela sob a forma de arbustos a arder e vozes celestes.

O termo bright foi uma tentativa de substituir a palavra ateu de forma a evitar os simplismos associados a este termo. Acabou por não pegar e o termo ateu continua a ser usado. Por definição de dicionário, um ateu simplesmente nega a existência de Deus. Mas o movimento (se quisermos entendê-lo como um só movimento) é mais do que isso, é antes de mais um movimento céptico; o ateísmo não é mais do que a aplicação do cepticismo, o espírito crítico que leva a questionar asserções fantásticas, à religião.

Ateu é um termo incompleto que pode induzir em erro. Um budista que não creia em Deus mas que acredite piamente ser possível reencarnar numa barata, ainda que seja ateu pela definição de dicionário, dificilmente há de rever-se em Richard Dawkins ou Daniel Dennet. Por outro lado já Espinosa usava o termo Deus de uma forma completamente compatível com o “novo ateísmo”. A ênfase está no racionalismo. O ateísmo é na sua essência a oposição ao teísmo, a crença no Deus concreto criador do Universo que se dá a conhecer através de revelações e que exige, no mínimo, fé, oração e obediência.

Humanismo Secular

Uma grande fonte dos preconceitos face a ateus está no facto de, para as pessoas religiosas, os valores morais serem ditados por Deus (pelo menos nas três denominações religiosas baseadas no Deus de Abrãao). Com base nesse pressuposto, surge o preconceito de os ateus serem pessoas imorais. Onde vão buscar os valores morais senão a Deus? A resposta é simples: perante a ausência de Deus, passa-se para o segundo lugar dessa hierarquia: a Humanidade.

O ateísmo que eu defendo, assim com muitos outros que são etiquetados como simplesmente ateus, é o humanismo secular, um movimento que oferece uma alternativa racional e bastante completa à religião. Reconhece que os nossos valores têm origem humana mas que não há mal nenhum nisso. Recusa justificações sobrenaturais e coloca a ênfase na procura da verdade através do conhecimento científico.

Claro que a ciência não nos diz como viver as nossas vidas, apenas nos fornece as ferramentas para compreendermos e alterarmos o mundo que nos rodeia. É por reconhecer as limitações da ciência que o humanismo não fornece um objectivo último: cabe a cada um encontrar o sentido para a sua própria vida; repudia-se uma autoridade divina que justifique a imposição de determinado estilo de vida aos outros. É no reino da filosofia, e não da religião, que devem competir as diferentes hipóteses para um sentido da vida. Porque a religião é apenas uma filosofia que evita a discussão ao alegar ter o patrocínio do criador do Universo.

As causas do “novo ateísmo”

José Manuel Fernandes parece um pouco agressivo em relação a Richard Dawkins em particular, e a forma como o ataca revela que não terá percebido bem o seu livro, The God Delusion. A insistência em termos como “Rottweiler de Darwin” e “Darwinista empedernido” até me fazem temer alguma veia criacionista em JMF, espero que não seja o caso.

JMF parece não compreender as razões para o ressurgimento do “novo ateísmo”. Como causas, diz que “ocorreu o 11 de Setembro”, “mas não só”. Este “não só” não chega a ser devidamente explicado, apenas parece sugerir que sejam preconceitos e incompreensão. Não foi só o fundamentalismo islâmico e outras emanações violentas do fanatismo religioso que despoletaram esta nova reacção contra a fé religiosa.

«(…) falava-se do regresso das religiões no século XXI, em especial a uma Europa que o século XX descristianizara muito para além do que se esperaria em Estados constitucionalmente seculares» – JMF

No século XX, com João Paulo II a reconhecer a evolução das espécies (será que Bento XVI o teria feito?), as querelas entre ciência e religião pareciam para muitos ser cada vez mais coisas do passado. A religião parecia ter desistido de discutir com a ciência e regredia para aspectos para além do seu alcance, encolhendo à medida que o conhecimento aumentava (e a sua intransigência moral parecia afastar cada vez mais pessoas da fé).

Mas os últimos anos têm sido marcados pelo ressurgimento do criacionismo, em oposição directa a algumas das teorias científicas mais sólidas dos últimos tempos. Há quem chegue ao ridículo de afirmar que a Terra tem apenas uns dez mil anos e que Adão e Eva existiram mesmo. O que faz esta gente negar as mais elementares provas factuais que contrariam essas teorias é a crença na revelação bíblica acima de quaisquer outras fontes.

Leitura literal da Bíblia

O número de cristãos capazes de encarar a Bíblia como uma fonte mais idónea do que qualquer publicação científica ainda é assustadoramente alto. Em particular nos EUA, o poder político deste tipo de fundamentalistas parece aumentar em vez de diminuir para o nível esperado em “Estados constitucionalmente seculares”. Mas JMF parece esquecer-se deles ao refutar os ataques de Richard Dawkins à bíblia:

«(…) pelo menos no caso do cristianismo, desde o século V que se recusa a leitura literal dos textos bíblicos. Ora se Santo Agostinho o fez há 15 séculos, e estes autores o ignoram, Allen Orr interroga-se se não estarão mais interessados em provar os seus preconceitos do que em mergulhar nos inúmeros debates intelectuais que marcaram a relação entre ciência e religião.»

Não vamos confundir a Igreja Romana com o cristianismo, que entretanto assumiu outras formas incluindo algumas que defendem a leitura literal da bíblia. A Aliança Evangélica Portuguesa, por exemplo, tem vindo a aumentar a sua influência em Portugal.

Mas mesmo a Igreja Católica, que aceita a evolução contra a leitura literal do Génesis, continua a ter uma interpretação literal noutros aspectos (e se formos procurar no passado até ao século V, ainda encontramos mais). Que leitura fazem quando defendem que Maria tenha dado à luz sem ter havido uma relação sexual? E quando defendem que Jesus ressuscitou, porque não é isso uma metáfora em vez da literal “ressurreição da carne”? E os milagres que Cristo terá feito? Não há nada que suporte estes dogmas para além de uma leitura literal da Bíblia.

Fé contra razão e ‘Deus’ como hipótese

Richard Dawkins até mergulha nos “debates intelectuais que marcaram a relação entre ciência e religião”, mas JMF escolhe ignorá-lo embora a seguir toque no assunto (inadvertidamente?).

«Mais, e como encarar uma das máximas do que foi, porventura, o primeiro teólogo cristão, Credo ut intelligam (“Creio para compreender”), para quem é quase um crime sugerir que se pode chegar à compreensão seja do que for a não ser por via de uma investigação racional?» JMF

Só na religião é que se “crê para compreender”. Na ciência primeiro compreende-se, e só então se decide sobre as crenças. É esta a dicotomia entre fé e razão. Na fé acredita-se porque se acredita e martela-se a realidade para encaixar nas crenças. Santo Agostinho descobriu a fórmula: se um facto verificável não se ajustar ao que vem na bíblia, ou se muda a interpretação do facto (mais frequente) ou se muda a interpretação da bíblia (mas esta está, por definição, sempre correcta). Se a Igreja Católica defendesse apenas a investigação racional não haveria muito por onde atacá-la. Mas será que é mesmo a “investigação racional” que a igreja defende?

«Ao conhecer Deus só com a luz da razão, o homem experimenta muitas dificuldades. Além disso, não pode entrar só pelas suas próprias forças na intimidade do mistério divino. Por isso é que Deus o quis iluminar com a sua Revelação não apenas sobre verdades que excedem o seu entendimento, mas também sobre verdades religiosas e morais que, apesar de serem por si acessíveis à razão, podem deste modo ser conhecidas por todos, sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro.» – Catecismo da Igreja Católica (compêndio de 2005)

Parece que para a Igreja Católica a “luz da razão” não chega, e por isso existe a revelação (que assume a forma de textos bíblicos) para permitir chegar à verdade “com firme certeza e sem mistura de erro”. É por isto que faz sentido Dawkins revelar as incitações ao ódio e à intolerância, entre outras aberrações, que abundam no livro sagrado de onde é suposto extrairmos as nossas verdades morais absolutas. As verdades morais a que a sociedade moderna chegou suplantam e entram em conflito com as supostas verdades morais expressas na bíblia, e este é um ponto fundamental do livro de Dawkins na refutação das religiões baseadas nos livros de Moisés. A razão tornou a “Revelação” obsoleta.

«Não faz a intuição, ou a inspiração, parte do próprio método científico, já que este parte de hipóteses conjecturais que depois devem ser provadas?» JMF

“Devem ser provadas” diz JMF muito bem, mas não o são: a igreja diz que são verdade e pronto. JMF descarta o livro de Dawkins com este argumento, o que é estranho. Porque é precisamente isso que Richard Dawkins faz: assume Deus como uma hipótese e submete-a a testes de veracidade. A “hipótese Deus” (god hypothesis), até faz previsões sobre o mundo que podem ser testadas. Nos aspectos em que há sobreposição entre a teoria de Deus e as teorias científicas aceites, a hipótese teísta das religiões de Abraão falha redondamente.

Deus concreto e Deus abstracto

Outra confusão que José Manuel Fernandes parece fazer é confundir um Deus abstracto, metafórico, com o Deus concreto defendido pela religião. Isto apesar de Richard Dawkins deixar bem claro qual o conceito de Deus cuja inexistência tenta ‘provar’: o Deus intervencionista, que faz milagres, lê pensamentos, castiga pecados e responde a orações. Dawkins afirma ser religioso no sentido em que Einstein é religioso:

“To sense that behind anything that can be experienced there is something that our mind cannot grasp and whose beauty and sublimity reaches us only indirectly and as a feeble reflection, this is religiousness. In this sense I am religious.” – Albert Einstein

Dawkins deixa bem clara a distinção entre o Deus cuja inexistência é exposta, e o “Deus metafórico ou panteísta dos físicos”. Diz até ser um “acto de alta traição intelectual” fazer confusão entre os dois. Deus é atacado enquanto conceito central da religião, e não enquanto conceito abstracto. Porque o Deus de Abraão nada tem a ver com o Deus de Espinosa, cuja visão panteísta entende o termo Deus como equivalente a Universo – e não há mal nenhum em acreditar que o Universo possa fazer sentido. Não é o mesmo Deus teísta que é contra o aborto, não gosta de preservativos e defende o papel tradicional da mulher na sociedade. Mas José Manuel Fernandes insiste em misturar os conceitos e usar as referências de Einstein e Stephen Hawking a um Deus abstracto como apologia do teísmo religioso:

«(…) um dos mais notáveis físicos da actualidade, Stephen Hawking, apresentava o seu livro Uma Breve História do Tempo (edições Gradiva) como uma investigação à “mente de Deus”.» – JMF

A investigação à “mente de Deus” não é mais do que a investigação em torno de uma possível Teoria Unificadora. Não se pode confundir esta teoria unificadora, que emerge do conhecimento científico, com essa outra teoria unificadora: o Deus teísta que não é passível de ser compreendido pela razão e provas verificáveis mas antes através das escrituras. Para Hawking, com a descoberta de uma teoria unificadora simples, “poderemos todos, filósofos, cientistas e pessoas vulgares, tomar parte na discussão do porquê da nossa existência e da do Universo”. É a esta reposta que chama o”pensamento de Deus”; conhecê-lo seria “o triunfo máximo da razão humana” e não da fé no divino.

One response to “O que José Manuel Fernandes insiste em não perceber (2) – O que é o “novo ateísmo”

  1. Sobre os ateus…sinceramente acho que o simples facto de se chamarem e serem ateus já estão a dar importancia a Deus…não é possivel definirem-se pela positiva em vez de “os que não acreditam em Deus nem em nada para além da matéria”??
    Sobre Deus…o Deus de que nos tanto gostamos de falar é uma criação dos Judeus e em que os cristãos também acreditam. Logo, tem direitos de autor e não se pode falar dele em abstracto ou filosoficamente. É aquele Deus e ponto final…

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