Acudam que estão a censurar o Papa!

« Quando se fecham a Bento XVI as portas de uma universidade, impedindo-o de falar, é sinal de que alguns praticam tudo o que no passado criticaram à Igreja. E ainda se orgulham disso…

(…) No tribunal de “La Sapienza” foi um Papa que quiseram colocar no lugar de Galileu, e foram cientistas que fizaram o papel do acusador de então, o cardeal Roberto Bellarmino, porventura mostrando ainda menos compaixão.» – José Manuel Fernandes, editorial no Público de 17/Jan

Em nome do ateísmo, peço desculpa por terem condenado o Papa a prisão domiciliária até ao fim da vida (apesar de ele ter uma bela casa) e que tenha sido publicada uma lei a impedir qualquer pessoa de reproduzir as ideias de Bento XVI. Mostro o meu desagrado pela forma como os carabineri reprimiram brutalmente a manifestação de apoio ao Papa. Mas vamos voltar à realidade, já que nada do que foi escrito nesta entrada até agora (citado ou não) foi verdade…

O que se passou realmente

Convite e Petição. O Papa Bento XVI foi convidado pelo reitor da universidade Sapienza de Roma para o discurso de inauguração do ano académico de 2008. Foi criada uma petição de protesto assinada por 67 professores da universidade. A principal razão foi não fazer muito sentido ter o líder de uma igreja que coloca a fé e as revelações acima da procura racional do conhecimento a proferir o discurso de abertura numa instituição que deve prezar acima de tudo a procura racional do conhecimento. Penso que era a isto que se referiam ao dizer que seria “incongruente”. Trata-se de universidade onde estudou Fermi, não faz sentido começar o ano com rezas e água benta. Para ilustrar o ponto de vista recorreram a um discurso proferido pelo mesmo Ratzinger na mesma universidade em 1990, em que era citado Paul Feyerabend (que discordava com o método científico) a dizer que o tratamento dado a Galileu pela igreja tinha sido “razoável e justo”. O Papa não disse que apoiava a citação (mas também não a refutou convenientemente as ‘citações’ apresentadas) [Ratzinger até chama ao episódio de Galileu um “mito do Iluminismo”].

A censura! O reitor não retirou o convite, mas o Papa achou que não estavam reunidas as condições para uma recepção “dignificada e tranquila” e acabou por recusá-lo. O discurso que o Papa tinha preparado foi lido por um professor na universidade e recebeu uma ovação. Grande censura. O discurso foi também publicado em vários meios de comunicação social. Entretanto o reitor voltou a convidar o Papa.

A histeria

Claro que não faltou gente a clamar que era o fim da liberdade de expressão. O editorial de José Manuel Fernandes pode ser lido na íntegra no cidadaniaPT, um blogue que subscreve também um “manifesto de apoio ao Papa”, onde falam da “vergonha para a Itália” e de como o caso põe em evidência “a incapacidade do governo italiano de garantir o direito de expressão em território italiano a um chefe de Estado estrangeiro”.

Vamos relativizar: quando Guterres foi apupado no Masters de ténis ou quando Durão Barroso foi apupado no Estádio da Luz, alguém se insurgiu contra a forma como a classe política estava a ser censurada ou disse que corria o risco de entrar para a clandestinidade (ler editorial de JMF)? Tudo o que os estudantes em protesto disseram foi que iriam receber o Papa com cartazes e música rock alta (Ratzinger já falou contra este género musical). Não teria sido simpático mas também não teria sido um atentado à liberdade de expressão, acho até que é uma consequência dessa liberdade.

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