Eleições americanas vão tomando forma (1)

Dada a influência que os EUA têm sobre o destino do mundo, acaba por ser um bocado injusto que apenas os americanos tenham o direito de votar – especialmente tendo em conta a falta de bom senso (e as trafulhices) que marcaram as duas últimas eleições na grande superpotência. Resta-nos apenas seguir apreensivamente os desenvolvimentos, e a super tuesday (este ano uma super-duper tuesday por incluir mais estados) trouxe finalmente uma ideia mais clara sobre o que esperar dos dois partidos no sufrágio que se avizinha (valores aproximados, ainda não encontrei dois sites com resultados idênticos) . Razão suficiente para debitar as minhas primeiras impressões, começando pelo pior cenário: se tivermos de aturar mais um republicano.

I – Republicanos

McCain, o mal menor

John McCain surge como o vencedor republicano da super tuesday, arrecadando até agora 680 delegados contra os 462 amealhados pelos restantes três candidatos do Grand Old Party (ref: cnn). Tendo em conta o nível baixo de expectativas que coloco neste partido, McCain é o melhor que se pode esperar (não confundir com aceitável). Em termos de política externa há de continuar a linha dura dos falcões americanos. Na economia, a mesma postura neoliberal (sendo de esperar favoritismos mercantilistas, claro) e a típica aversão a tudo o que possa cheirar levemente a socialismo. A nível de valores há de ser o ‘Deus, pátria, família’ do costume (incluindo as cruzadas contra o aborto). Mas talvez tudo isto seja moderado por uma réstia de bom senso que faltou ao seu antecessor.

Embora tenha apoiado a intervenção militar no Iraque tem sido bastante crítico em relação à forma como foi conduzida, para além de ser um detractor do uso de tortura e das detenções ilegais de suspeitos de terrorismo (a experiência enquanto prisioneiro de guerra em Hanoi há de contribuir neste capítulo). Apesar de ser fortemente anti-aborto apoia o uso de células estaminais para fins terapêuticos e de investigação. Parece aceitar a evolução das espécies embora se mostre algo aberto ao ensino de ‘teorias alternativas’. No que diz respeito à energia aparenta estar sensibilizado para os problemas ambientais em vez de apenas focar a questão da independência energética. Tem ainda o bónus da animosidade mútua com o actual presidente, em boa parte devido à campanha difamatória a que esteve sujeito da última vez que concorreu (provavelmente orquestrada por Karl Rove embora este o negue).

Mitt Romney, o mormon

Os dois opositores directos de McCain são o que seria de esperar do partido do elefante. O milionário mormon Mitt Romney é a grande aposta da indústria petrolífera após a saída de Giuliani. Desde o carvão (e derivados) ao nuclear, passando pelas reservas petrolíferas americanas por explorar, tudo serve quando o único objectivo explícito é a independência energética. De resto apoia abertamente a tortura enquanto método de interrogação e a prisão de Guantanamo (uma é pouco…). Noutras questões tem recuado um pouco, tendo até admitido que o departamento da educação possa ter utilidade (sem comentários).

Depois há o facto de ser mormon… de todas as denominações cristãs não tenho o mínimo pudor em declarar a dos “Latter-Day Saints” como a mais ridícula (e acho que a sigla LDS deve ser um anagrama da sua verdadeira inspiração). Acreditar que houve um profeta americano chamado Moroni (cf. uma possível origem etimológica da palavra) que escreveu umas tábuas douradas e que mais tarde voltou como anjo para as traduzir para inglês ao fundador da religião (levando convenientemente as tábuas de volta ao céu) está para lá do aceitável – mas dá jeito para conseguir votos no Utah. Pelo menos não tem ilusões de impor a sua religião sobre o país por isso não cair bem nas bases evangélicas do partido. Conta até agora com 270 delegados.

Huckabee, o evangélico

O último republicano com hipóteses (176 delegados) é a encarnação da direita religiosa americana: Mike Huckabee. Já comparou o aborto ao holocausto, acha que os dez mandamentos deviam fazer parte do currículo obrigatório, é o mais acérrimo detractor de qualquer eventual uso de células estaminais e acha que o financiamento de investigação sobre o VIH devia ficar a cargo das celebridades de Hollywood. Não acredita na evolução das espécies, defende o ensino do criacionismo nas escolas e quer mudar a constituição com base na bíblia. Escusado será dizer o que acho deste candidato.

Ron Paul, o libertário

Qualquer que seja o meu limite para o liberalismo, Ron Paul ultrapassa-o. É uma espécie de crocodilo: tem piada (é quase cómico) enquanto é pequeno, mas se cresce mete medo. Sempre foi um underdog, como o confirmam os míseros 16 delegados, mas é um fenómeno de culto que tem suscitado pequenos núcleos de devotos por todo o mundo (e Portugal não é excepção).

Na política externa é o autismo completo (sempre havia de ser melhor não intervir que intervir mal, mas há responsabilidades!). A ideia de um mercado mundial livre de proteccionismos até tem os seus encantos, mas quando pretende acabar com impostos, com a reserva federal, com a participação em qualquer organização internacional ou com a educação estatal é difícil levá-lo a sério. Por ele o Estado quase que ficaria limitado a guardar as fronteiras. E eu tenho uma profunda desconfiança em relação a libertários. Tal como no caso do ‘nosso’ Pedro Arroja, ninguém defende a anarquia só pela anarquia, esta apenas abre espaço para o emergir de uma nova ordem – tipicamente uma que poucos se atrevem a defender frontalmente. Isto pode soar a Cassandra, mas cuidado com os crocodilos.

One response to “Eleições americanas vão tomando forma (1)

  1. Somehow i missed the point. Probably lost in translation :) Anyway … nice blog to visit.

    cheers, Botchy

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