Rússia: democracia cada vez mais uma miragem

«The future Russian president got just over 70 percent of the vote, a remarkably similar result to Putin’s four years ago. This was hardly a real election campaign – more a form of karaoke with the lyrics dictated by Putin, and with a decidedly bored national audience looking on.» – Uwe Klussmann, Spiegel

Sem ter sequer participado num único debate, Dmitry Medvedev ganhou as eleições presidenciais russas com mais de 70% dos votos. O partido comunista foi o segundo mais votado, abaixo dos 20%. E se não for suficientemente desagradável a ideia de a autocracia de Putin ter como concorrência mais séria os saudosistas da união soviética, resta acrescentar que o terceiro classificado foi o partido ultra-nacionalista de Girinovsky, com cerca de 10%. Com pouco mais de 1% ficou Bogdanov, que já foi apontado como uma marioneta do regime para transmitir a ideia de pluralidade. (spiegel)

Fachada

Claro que tudo isto são os números oficiais. Estive a reler a entrada que tinha escrito sobre Putin em Novembro passado, quando o Kremlin reduziu drasticamente o número de observadores da OSCE, e a situação tem-se agravado sem grandes surpresas. The Other Russia, o movimento de oposição encabeçado por Kasparov, revela algumas das fraudes descobertas. Mais votos registados do que os eleitores que compareceram, votos comprados, eleitores pró-Medvedev a votar várias vezes (com autocarros cheios a fazer excursão por vários postos eleitorais), votos sob coacção, votos forjados e observadores independentes impedidos de assistir às contagens são alguns dos abusos relatados. Os observadores europeus destacados para a Rússia confirmam o défice democrático, falando da exclusão do único candidato independente, acesso desequilibrado aos media e casos de pressões, apesar de terem tido acesso a apenas uma ou duas centenas dos mais de 90 mil postos eleitorais.

Como afirmou David Miliband, existe uma óbvia “distinção entre uma eleição livre e justa e o que aconteceu”. Mas tal como no resto dos países europeus, a mensagem de desconfiança quanto ao processo eleitoral tem sido compensada por uma expressa vontade de cooperar com o novo representante (ver caso de Merckel, por exemplo). É a vida. A assembleia parlamentar do conselho europeu afirmou que o sufrágio esteve mais próximo de um plebiscito do que de uma eleição democrática (guardian).

É bem provável que não fossem necessárias trafulhices para dar a vitória a Medvedev, tudo indica que os apoiantes de Putin estejam em maioria. As fraudes terão antes o objectivo de diminuir o peso do adversário mais directo, o partido comunista, dar uma vitória mais expressiva ao candidato apadrinhado por Putin, mas principalmente de aumentar o nível aparente de participação eleitoral. Pretende-se assim retirar impacto ao boicote eleitoral decretado pela oposição democrática no seguimento da exclusão de Mikhail Kasyanov, o único candidato considerado uma alternativa democrática, do processo eleitoral – apesar de ter reunido o número de assinaturas necessárias, a comissão eleitoral russa rejeitou a candidatura por 15% das assinaturas serem alegadamente inválidas. A tarefa foi cumprida, com os números oficiais a apontarem para uma participação de 67% no sufrágio, contra os 25-50% que eram previstos. (guardian)

Protestos

A forma como as eleições foram conduzidas levou a que fossem convocadas manifestações em Moscovo e São Petersburgo. A manifestação de Moscovo não foi permitida pelo governo, levando a que centenas de polícias à paisana e com fardas da OMON cercassem as escassas centenas de manifestantes que se juntaram na capital apesar da proibição. Foram feitas cerca de 250 detenções, incluindo membros destacados de movimentos de direitos humanos e pró-democracia. Em São Petersburgo o número de manifestantes ascendeu a perto de 3000, que puderam assistir a discursos de líderes do movimentos da oposição. (guardian, The Other Russia)
Dmitry Medvedev

Dmitry Medvedev faz parte do grupo restrito de colaboradores escolhidos pessoalmente por Putin aquando da sua nomeação por parte de Yeltsin para primeiro ministro em 1999. Antes de Putin o ter escolhido para seu sucessor Medvedev este estava na direcção da Gazprom, o gigante russo do gás natural de grande importância estratégica detido pelo estado e anteriormente usado para pressionar Ucrânia, Bielorrússia e Geórgia (e parece que voltaram cortar fornecimento à Ucrânia por alegada falta de pagamentos). Medvedev prometeu abandonar a Gazprom (que fornece 25% do gás natural da UE) assim que tomar posse como presidente.

Tudo indica que Medvedev continue a ser o braço direito de Putin, seguindo lealmente a sua orientação. Mas convém notar que o regime russo se tem tornado tendencialmente presidencialista, e que Putin também foi em tempos um homem de confiança de Yeltsin e Berezovsky. Medvedev detém teoricamente mais poder que o seu mentor político, e se por enquanto a sua popularidade está ligada ao emblemático líder russo, nada o impede de tentar construir a sua imagem para tentar eventualmente um ‘assalto ao poder’ semelhante ao que Putin iniciou em 2000. Putin há de ter esta situação prevista, e Medvedev não deve ter grande influência no FSB. É provável que Medvedev se dê por contente como nº2, abrindo no futuro caminho ao regresso definitivo de Putin à presidência (times). De resto a oposição é impotente e a população parece, no geral, apática e resignada com o mal menor que é o regime progressivamente autocrático.

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