Evolução ainda não é para todos

«In some respects, science has far surpassed religion in delivering awe. How is it that hardly any major religion has looked at science and concluded, “This is better than we thought! The Universe is much bigger than our prophets said, grander, more subtle, more elegant. God must be even greater than we dreamed”? Instead they say, “No, no, no! My god is a little god, and I want him to stay that way.”»

– Carl Sagan

Dia 12 foi o bicentenário do nascimento de Darwin, que tal como os 150 anos da publicação d’A Origem das Espécies chega em boa altura perante a teimosa investida do autismo religioso. Não, isto não vai ser um post simpático. Não tenho muita pachorra para o criacionismo. Nem compreendo uma obsessão com a negação da evolução. Até dava um Deus mais interessante… O que incomoda tanto? O nosso parentesco com os outros primatas? Será a alternativa melhor? E qual é a alternativa? Segundo a Tora/Pentateuco temos um casal criado por Deus de onde provém toda a Humanidade. Têm uma ninhada de filhos e depois? Toda a Humanidade seria resultado do incesto!.. irmão com irmã, pai com filha ou mãe com filho – são as únicas hipóteses. Nojento.

Mas pouco importam as preferências. É essencialmente uma questão de realidade. A dúvida era algo compreensível na altura em que a teoria foi formulada, e o próprio Darwin dedicou um capítulo da sua obra a explorar as fraquezas da sua teoria. Apesar de claramente superior a qualquer teoria da altura, era uma teoria com buracos. Hoje em dia não o é. Evoluiu para uma teoria sólida e abundantemente confirmada. Não bate certo com o Génesis e para os crentes a bíblia é infalível. Não é a primeira vez que uma coisa destas acontece. Agostinho de Hipona apresentou durante os primórdios da Igreja Católica a solução para o paradoxo mantendo o dogma da infalibilidade da ‘revelação’: ou se muda a interpretação das escrituras, ou se muda a interpretação da realidade. São ambos caminhos falaciosos, mas se tivermos mesmo de escolher um deles o primeiro é claramente melhor. O segundo é tecnicamente uma psicose. O ideal mesmo seria aceitar que o Génesis não tem qualquer valor científico, mas isto é sonhar alto.

As efemérides têm trazido à televisão alguns documentários interessantes sobre o autor da teoria que revolucionou a nossa compreensão do mundo. Algo que me deixa sempre um pouco perplexo é quão grande foi o salto intuitivo de Darwin em 1859. Tinha tão pouco em que se basear para além daquilo que observava. Acertou em cheio num dos princípios fulcrais da evolução: a selecção natural (que veio obliterar a hipótese de Lamarck). De resto, pouco se sabia. Darwin nem percebia como funcionava o processo de hereditariedade, e a explicação que propunha era talvez o ponto mais fraco da sua teoria. Em paralelo Mendel debruçava-se sobre este problema, e no século XX os dois trabalhos foram fundidos. Só na década de 30 surge finalmente a teoria da evolução biológica na sua forma actual, com os seus ingredientes essenciais. (a propósito disto, fica recomendada uma bela colecção de textos clássicos que a definem).

Claro que não deixou de ser refinada desde então, com uma melhor compreensão dos modelos matemáticos que a regem, da universalidade dos seus princípios básicos e as suas aplicações para além da biologia. E muitas foram as descobertas que corroboram a teoria. Desde a observação de evolução à pequena escala até aos registos fósseis que documentam o processo à grande escala. Isto para não falar do estudo da homologia em ácidos nucleicos. Só dez anos depois de A Origem das Espécies foi pela primeira vez isolado um ácido nucleico, ainda sem teorias quanto à sua função. Um século depois já a estrutura e função do ADN eram bem conhecidos, e pôde ser iniciada a revolução no estudo da homologia, mais uma vez dando mais peso à teoria. Apesar de tudo isto, ainda há quem olhe para um texto da Idade do Bronze e ache que este se sobrepõe à realidade.

Regressão para o criacionismo

religulous popechimp

João Paulo II tinha aceite finalmente a ciência moderna no que diz respeito a cosmologia e evolução da vida. Esta concessão foi a maior prova de honestidade intelectual que o Papa poderia ter dado.  Mas se não o tivesse feito, duvido muito que Ratzinger o fizesse. Bento XVI nada tem no campo da honestidade intelectual, é um antes um mestre de apologéticas, preocupado em defender o catolicismo de qualquer ideia que o possa enfraquecer.  No que diz respeito à evolução, a posição da IC tem sido progressivamente mais ambígua.

O Cardeal Schönborn, arcebispo de Viena e membro da Congregação do Vaticano para a Educação Católica, tem sido a principal face da regressão creacionista  da Igreja, espezinhando o esforço de abertura de João Paulo II:

«In his essay, Cardinal Schönborn asserted that he was not trying to break new ground but to correct the idea, “often invoked,” that the church accepts or at least acquiesces to the theory of evolution.

He referred to widely cited remarks by Pope John Paul II, who, in a 1996 address to the Pontifical Academy of Sciences, noted that the scientific case for evolution was growing stronger and that the theory was “more than a hypothesis.”

In December, Bishop Francis X. DiLorenzo, chairman of the Committee on Science and Human Values of the United States Conference of Catholic Bishops, cited those remarks in writing to the nation’s bishops that “the Church does not need to fear the teaching of evolution as long as it is understood as a scientific account of the physical origins and development of the universe.” But in his essay, Cardinal Schönborn dismissed John Paul’s statement as “rather vague and unimportant.” » Leading Cardinal Redefines Church’s View on Evolution, The New York Times 9/Jul/2005

Ao menos é um criacionismo light, ao contrário do creacionismo de evangélicos e testemunhas de Jeová que defende uma Terra com uma idade entre 6 e 12 mil anos e a interpretação literal do Génesis (dos 7 dias da criação ao incesto que nos trouxe cá). Mas não deixa de ser um terrível atentado à ciência. E não se trata de um cardinal rebelde: o artigo de Schönborn foi escrito com a benção de Ratzinger, que também se tem encostado cada vez mais ao intelligent design, recusando a macroevolução (ref).

Ainda existe quem defenda a evolução dentro da Igreja Católica, mas não deixa de ser preocupante a postura dos seus altos cargos. Schönborn propõe que o criacionismo passe a fazer parte do currículo nos colégios católicos, à semelhança do que os evangélicos queriam para as escolas estatais nos EUA.  É triste a Igreja escolher aproximar-se dos  fundamentalistas ao invés de escolher representar uma réstia de racionalidade no mundo religioso. Este excerto do filme Religulous de Bill Maher mostra a Igreja Católica nesse prisma através do padre católico George Coyne, em oposição aos delírios evangélicos. O papa teria muito a aprender com ele.

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