Monthly Archives: Março 2009

AdNonsense

Já há muito que o wordpress advertia que ia enfiar publicidade no blog. Davam sempre a ideia de que isso iria ser feito com contenção, mas parece que nem por isso. A porra dos anúncios são enfiados DENTRO dos posts, e só me apercebi disto hoje. Dá-me volta ao estômago. Vai estando na altura de ‘mudar de casa’. Odeio estas merdas. E o AdSense do google ainda deixa muito a desejar… isto foi num post sobre a violação na bíblia:

adnonsensemansarda

[post-edit 5/Abr/2009: mau dia, não liguem. Se calhar precisava mesmo de terapia :) ]

O declínio das potências peninsulares (David S. Landes)

[ Queria publicar isto antes, mas também queria debitar as minhas considerações sobre o tema e nunca mais o fazia. Fica para outra altura. A propósito do belo texto de Antero de Quental no República e Laicidade, intitulado O Catolicismo como Causa da Decadência Nacional (encontrado num local com muitas coisas interessantes),  lembrei-me do livro A Riqueza e a Pobreza das Nações, de David Landes. Foi-me dado há poucos anos em consequência de ter manifestado algumas opiniões similares sobre uma importante causa para o atraso de Portugal lá para o fim do Renascimento. Com intenção de ler apenas os capítulos relevantes para essas opiniões, acabei por não resistir a começar do início. Muito, muito recomendável. Fica aqui a parte mais relevante ao tema.  (os títulos entre [] e em bold são da minha autoria e servem apenas para segmentar o texto) ]

[o paradoxo do declínio das potência ibéricas]

Se a Espanha não tem dinheiro, nem ouro nem prata, é porque tem essas coisas, e se é pobre, é porque é rica. (…) Podia pensar-se que alguém quis fazer desta república uma república de gente enfeitiçada, vivendo fora da ordem natural. – Martin Gonzalez de Cellorigo, 1600

Muito antes da agricultura e das manufacturas vieram as presas de guerra e as pilhagens. A permuta colombiana redistribuiu a riqueza, assim como a flora e a fauna – transferência numa etapa dos velhos ricos para os novos ricos. O significado económico primário do influxo de riqueza no ultramar reside, porém, nos seus efeitos desiguais. Algumas pessoas enriqueceram só para gastar; outras para poupar e investir. O mesmo acontece com os países: no fim, alguns estavam apenas um pouco mais ricos do que no começo, ao passo que outros usaram a sua nova fortuna para ganhar ainda mais dinheiro.

Ironicamente, as nações que tinham começado tudo, Espanha e Portugal, acabaram perdedoras. Aí reside um dos grandes temas da história da teoria económica. Todos os modelos de crescimento, no fim de contas, sublinharam a necessidade e o poder do capital – o capital como substituto do trabalho, possibilitador de crédito, bálsamo de projectos frustrados, redentor de erros, segunda hipótese da grande empresa, principal nutriente do desenvolvimento económico. Garantindo o capital, o resto viria naturalmente. E, graças ao império, Espanha e Portugal tinham o capital.

[opulência deslumbrante]

A Espanha, em particular. A sua nova riqueza chegou em bruto, como dinheiro para investir ou gastar. A Espanha optou por gastar – em luxo e em guerra. A guerra é o mais perdulário dos usos: destrói em vez de construir, ignora limites e restrições, e a inevitável desigualdade e escassez de recursos leva à implacável irracionalidade, que , por sua vez, eleva os custos. A Espanha gastou com muito maior liberdade porque a sua riqueza foi inesperada e imerecida. É sempre mais fácil deitar fora a riqueza que se ganhou sem esforço num golpe de sorte.

[…]

(…) Em 1545 os fabricantes espanhóis tinham pedidos de encomendas para seis anos de compradores no Novo Mundo. Nessa época, em princípio, o império ultramarino era solicitado a comprar exclusivamente a produtores espanhóis. Mas clientes e lucros ficavam à espera, e os comerciantes espanhóis voltaram-se para fornecedores estrangeiros e usaram os seus próprios nomes para dar cobertura às transacções. Que se danem as regras. Nem mesmo o tesouro americano ia para a agricultura espanhola; a Espanha podia comprar alimentos. Como disse um feliz espanhol em 1675, o mundo inteiro trabalha para nós:

Deixem Londres fabricar aqueles tecidos que lhe alegram o coração; a Holanda as suas cambraias; Florença as suas telas; as Índias as suas peles de castor e de vicunha, Milão os seus brocados; a Itália e a Flandres os seus linhos, enquanto o nosso capital pode desfrutar de todos esses bens. A única coisa que isso prova é que todas as nações treinam os seus artesãos para servir Madrid e que Madrid é a rainha dos Parlamentos, pois todo o mundo a serve e ela não serve ninguém.

Semelhante insensatez ainda hoje é ouvida, em jeito de vantagem comparativa e teoria neoclássica do comércio. Ouvi académicos da maior seriedade dizerem que os Estados Unidos não têm de se preocupar com o seu gigantesco défice com o Japão. Afinal, os japoneses estão a dar-nos coisas úteis em troca de papel impresso com o retrato de George Washington. Isso soa bem, mas é mau. A opulência não é tão boa como o trabalho, nem as riquezas são tão boas como os salários. (…)

[…]

[a ética protestante segundo Weber]

Provavelmente, a mais estimulante explicação é a que é oferecida pelo cientista alemão Max Weber, que começou como historiador do mundo antigo, mas culminou com a paixão pelas ciências sociais publicando em 1904-05 um dos mais influentes e persuasivos ensaios já escritos em qualquer época: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. A sua tese: o protestantismo — mais especificamente, as suas ramificações calvinistas — promoveu a ascensão do capitalismo moderno, ou seja, o capitalismo industrial que ele conheceu na sua Alemanha natal. Para tanto, disse ele, o protestantismo não atenuou ou aboliu os aspectos da fé romana que tinham impedido ou dificultado a actividade económica livre (a proibição da usura, por exemplo), nem encorajou, muito menos inventou, a busca de riqueza; mas definiu e sancionou uma ética de comportamento quotidiano que conduzia ao sucesso nos negócios.

O protestantismo calvinista, disse Weber, fez isso inicialmente ao defender a teoria da predestinação, segundo a qual ninguém pode ganhar a salvação pela fé ou pelas suas acções; essa questão já tinha sido decidida para cada um de nós desde o princípio dos tempos e nada podia alterar o destino que nos fora traçado.

Uma tal crença podia ter facilmente ter encorajado uma atitude fatalista. Se o comportamento e a fé não fazem a mais pequena diferença, porque não nos entregamos aos prazeres e extravagâncias que habitualmente evitamos? Porque ser bom? Porque, de acordo com o calvinismo, a bondade é um sinal plausível de eleição. Qualquer um pode ser eleito, mas é razoável supor que a maioria dos eleitos teria mostrado pelo seu carácter e pelo seu modo de vida a qualidade da sua alma e a natureza do seu destino. Essa reconfortante garantia implícita era um poderoso incentivo à conduta e aos pensamentos apropriados. Como a inglesa Elizabeth Walker escreveu ao seu neto em 1689, aludindo a um dos mais importantes sinais de graça: «Nem todas as pessoas asseadas são boas, mas existem poucas pessoas boas que não sejam asseadas.» E, embora a crença firme na predestinação não durasse mais de uma geração ou duas (não é o género de dogma que exerça uma atracção duradoura), acabou por se converter num código secular de comportamento: trabalho preseverante, honestidade, seriedade, uso parcimonioso do dinheiro e do tempo (ambos concedidos por Deus). «O tempo é breve», advertiu o teólogo puritano Richard Baxter (1615-1691), «e o trabalho é longo».

Todos esses valores ajudam os negócios e a acumulação de capital, mas Weber sublinhou que o bom calvinista não visa a riqueza. (Ele poderia facilmente acreditar, porém, que as riquezas conseguidas honestamente são sinal de favor divino).  A Europa não teve de esperar pela Reforma Protestante para encontrar pessoas que queriam ser ricas. A tese de Weber é que o protestantismo produziu um novo tipo de homem de negócios, um diferente tipo de pessoa, que tinha por objectivo viver e trabalhar de certo modo. Esse modo é que era importante e a riqueza seria, quando muito, um subproduto.

[…]

[secularização e progresso no mundo protestante]

Num influente livro intitulado Religião e Ascensão do Capitalismo, o historiador social inglês R. H.  (“Harry”) Tawney rejeitou o vínculo entre protestantismo e crescimento económico. A economia inglesa, disse ele, só descolou no século XVI, quando a influência religiosa diminuiu, para ser substituída por atitudes seculares. Uma coisa Tawney concedeu à ética puritana-dissidente: esta protegeu os comerciantes e fabricantes contra as pedras e flechas de desprezo das classes altas e dos seus códigos de bom-tom. Deu-lhes um sentimento de dignidade e virtude, um escudo num mundo de preconceitos anticomerciais. E assim, não cedendo às tentações de um ócio aristocrático, os bons calvinistas mantiveram-se fiéis à sua tarefa de geração para geração, acumulado riqueza e experiência pelo caminho.

A mesma espécie de controvérsia girou à volta da derivada tese do sociólogo Robert K. Merton, que argumentou a favor da existência de um vínculo directo entre o protestantismo e o nascimento da ciência moderna. Merton não foi o primeiro a defender esta tese. No século XIX, Alphonse de Candolle, de uma família huguenote de Genebra, procedeu a um levantamento segundo o qual dos 92 membros estrangeiros eleitos para a Academia de Ciências Francesa no período de 1666-1866, 71 eram protestantes, 16 católicos e os 5 restantes judeus ou de filiação religiosa indeterminada — isto numa população de 107 milhões de católicos e 68 milhões de protestantes fora de França. Uma contagem semelhante de membros estrangeiros da Royal Society de Londres, em 1829 e 1869, mostrou quantitativos iguais de católicos e protestantes num conjunto populacional em que os católicos superavam numericamente os protestantes em mais de três para um.

Essa situação reflectia sem dúvida, em boa parte, o maior acesso de católicos em países católicos às mais antigas profissões liberais e à burocracia governante, e daí a sua preferência por um tipo diferente de escolaridade. Mas muito era ditado pelos temores da hierarquia clerical, devido à sua aversão às descobertas e paradigmas de uma ciência que negava a doutrina religiosa. Nas palavras de um químico e ministro unitarista inglês, Joseph Priestley, o papa, ao apoiar e favorecer a ciência, «estava a abrigar um inimigo disfarçado», pois «tinha boas razões para tremer até diante de uma bomba de ar ou de uma máquina eléctrica».

[…]

Duas características especiais dos protestantes reflectem e confirmam essa ligação. A primeira era a ênfase sobre a instrução e a cultura, tanto para raparigas como para rapazes. Isto era um subproduto da leitura da Biblia. Esperava-se que os bons protestantes lessem a Sagrada Escritura para si próprios. (Em contraste, os católicos foram catequizados mas não tinham de ler, e eram explicitamente desencorajados de ler a Bíblia.) O resultado: maior número de pessoas instruídas e um maior leque de candidatos à escolaridade de níveis superiores; também maior garantia de continuidade de instrução de geração para geração. Mães instruídas fazem a diferença.

[…]

[o sufoco da ortodoxia católica]

Por mais importante que fosse essa proliferação de uma nova classe empresarial, era apenas um aspecto da transferência do poder económico e da riqueza do Sul para o Norte. Não só o dinheiro se mudou, mas o saber também; e foram os conhecimentos, sobretudo os conhecimentos científicos, que ditaram as possibilidades económicas. Nos séculos anteriores à reforma o Sul da Europa era um centro de saber e investigação intelectual: Espanha e Portugal, por estarem na fronteira das civilizações cristã e islâmica e terem o benefício dos intermediários judeus; e a Itália, que tinha os seus próprios contactos. Espanha e Portugal foram os primeiros a sofrer essa perda, porque a paixão religiosa e a cruzada militar afastaram os estrangeiros ali residentes (os Judeus e depois os conversos) e desencorajaram os estudos e investigações dos que eram vistos como potenciais hereges; mas a Itália continuou a produzir alguns dos mais destacados matemáticos e cientistas da Europa. Não foi por acaso que a primeira sociedade erudita (a Académia dei Lincei, Roma, 1603) ali foi fundada.

A Reforma Protestante, porém, mudou as regras. Imprimiu um grande impulso na alfabetização, gerou e multiplicou dissidências e heresias e promoveu o cepticismo e a recusa de autoridade que estão no âmago da actividade científica. Os países católicos, em vez de aceitarem o desafio, responderam com o fechamento e a censura. A reacção dos domínios dos Habsburgos, que incluíam os Países Baixos, veio logo depois da denúncia de Lutero. A presença de refugiados marranos ali, temidos e odiados como inimigos da verdadeira Igreja e acusados de propagarem deliberadamente as novas doutrinas, agravou a histeria.

Seguiu-se uma chuva de interdições (a partir de 1521), não só de publicar, mas também de ler matérias heréticas em qualquer língua. As autoridades espanholas, leigas e clericais, consideravam os luteranos (todos os protestantes eram vistos como luteranos) não como dissidentes, mas como não cristãos, tão inimigos da verdadeira fé como os Judeus e os Muçulmanos. Quaisquer ideias de pôr fim à Inquisição foram abandonadas e a Igreja e as autoridades civis uniram-se no controlo do pensamento, do saber e da crença. Em 1558 introduziu-se a pena de morte para quem importasse livros estrangeiros sem licença prévia. As universidades foram reduzidas  a centros de doutrinação; livros heterodoxos e perigosos eram colocados num Index Liborum Prohibitorum (1557 em Roma, 1559 em Espanha) e os livros considerados de confiança apareciam com um imprimatur (imprima-se) oficial. Entre os livros da lista espanhola: obras científicas banidas porque os seus autores eram protestantes. Apesar do contrabando, perigoso, a difusão de novas ideias na sociedade em geral viu-se drasticamente reduzida. (Recorde-se o parecer crítico sobre o livro e o expurgo perepetrado no começo de  Dom Quixote. A questão não envolve apenas o papel do capricho, mas as absurdas razões invocadas — as trivialidades que implicavam um risco para uma sociedade impregnada de fantasia e faminta de conhecimento.)

Aos espanhóis nem sequer era permitido estudar no estrangeiro, com receio de que absorvessem doutrina subversiva. Naquele mesmo ano (1559) a coroa proibiu a frequência de universidades estrangeiras, com excepção de centros tão seguros como Roma, Bolonha e Nápoles. O efeito foi drástico. Estudantes espanhóis tinham frequentado desde longa data a Faculdade de Medicina da Universidade de Montpellier: deixaram nesta altura de o fazer — 248 estudantes de 1510 a 1559; 12 de 1560 a 1599; (O que terá sido feito dessa dúzia de rebeldes?) Cientistas subversivos eram silenciados e forçados à autocrítica. Os regimes que exercem o controlo do pensamento e impõem à força a ortodoxia nunca se satisfazem com proibições e punições. O culpado deve confessar e arrepender-se — para a sua própria salvação e dos outros também.

A perseguição redundou numa interminável «caça às bruxas», na qual não faltaram delatores pagos, vizinhos indiscretos e uma racista limpieza de sangre. Convertidos judaizantes eram apanhados por vestígios comprometedores da prática mosaica: recusa de comer porco, muda de roupa branca às sextas-feiras, uma oração entreouvida, frequência irregular à igreja, uma palavra mal empregue. A limpeza, em especial, era motivo de suspeita, o banho era visto como prova de apostasia para marranos e mouros, indistintamente. «A frase ‘era do conhecimento geral que o acusado toma banhos…’ é muito comum nos registos da Inquisição.» Imundície herdada: pessoas limpas não precisam de se lavar.

Em tudo isso, tanto os espanhóis como os portugueses se rebaixaram e desprestigiaram. A intolerância pode causar maiores danos ao perseguidor que à sua vítima.

Assim, a Ibéria e toda a Europa mediterrânea perderam o comboio da chamada revolução científica. Na década de 1680, Juan de Cabriada, um médico valenciano, travava uma guerra acirrada com os doutores de Madrid, tentando em vão persuadi-los a aceitarem a descoberta de Harvey da circulação do sangue, em face da antiga tradição galenista. «O que há de errado com Espanha?» — perguntava ele. «É como se fôssemos índios, sempre os últimos a aprender novos conhecimentos.»

O historiador britânico Hugh Trevor-Roper argumentou que esse recurso reaccionário, antiprotestante, mais do que o próprio protestantismo, selou o destino da Europa meridional nos 300 anos seguintes. Uma tal retirada não foi predestinada nem requirida por doutrina. Mas, uma vez tomado esse caminho, a Igreja, repositório e guardiã da verdade, achou muito duro ter de admitir o erro e mudar de rumo. Duro até que ponto? Ouvimos agora que Roma finalmente reabilitou Galileu depois de quase 400 anos. Esse é o ponto da «dureza».

A bíblia sobre a violação

Ainda a propósito do caso do arcebispo que excomungou todos os envolvidos no aborto a uma criança violada, deixando de fora o violador. Porquê? Segundo o arcebispo:

«Ele cometeu um crime hediondo, mas não está incluído na excomunhão. Existem tantos outros pecados graves. Mais grave do que isso, é o aborto, eliminar uma vida inocente» (ref)

Pois, casos que levam à excomunhão são coisas graves como o aborto, heresia, apostasia, consagração de um bispo sem autorização ou bater num papa (às vezes apetece). Violação de crianças nem por isso, basta ver como a igreja protegeu padres pedófilos de acções judiciais.

O que me leva a pensar sobre o aborto e a violação na ideologia das religiões de Abrão e nas tretas revelações que as guiam. A bíblia nem prevê o aborto. Segundo a interpretação da igreja católica, o aborto cai dentro do enquadramento legal do “não matarás”. Isto embora nada na bíblia especifique quando começa a vida humana, pelo que seria lógico a igreja aceitar as conclusões científicas sobre o assunto. Mas lógica e igreja não são os melhores amigos, e lá tem o óvulo fecundado de ser promovido a ser humano.

Então e quanto à violação? A a palavra do senhor deus todo sapiente e todo poderoso e todo amor deveria ter algo sobre isso… Mesmo a sociedade da idade do bronze bárbara, ignorante e retrógrada inspirada por deus que serve de referência para os valores morais da igreja devia lidar com violações e ter leis sobre isso. E tem, embora nada específico sobre violação de menores.

A violação só está prevista no caso de mulheres virgens; nas não virgens (que se assumem casadas) conta a lei do adultério (homem e mulher apedrejados até à morte). Dentro das virgens há a distinção entre as noivas e as não prometidas a ninguém. Porquê esta distinção? Porque, segundo a bíblia misógina sagrada, a mulher é algo equiparável a propriedade de um homem, como nos mostra o décimo mandamento:

«Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença» (êxodo 20:17)

Passando agora para o capítulo 22 do deuteronómio, que tem uma secção dedicada à violação (o deuteronómio é um livro de leis, onde também está o tal “não matarás”). No caso de uma noiva virgem que tenha sido forçada «nos campos» por um homem que «usou de violência para com ela», ele será morto. Porquê «nos campos»? Porque se for na cidade também ela será morta, já que se ninguém a acudiu antes do acto é por ela «não ter gritado, pedindo ajuda, encontrando-se na cidade». Se a moça não for noiva de ninguém, aplica-se a seguinte lei absurda divina:

«Se um homem encontrar uma donzela virgem, que não esteja noiva, e sobre ela exercer violência, abusando dela, e se forem surpreendidos em flagrante, o homem dará ao pai da donzela cinquenta siclos de prata, e ela tornar-se-á sua mulher, porque a violou. » (dt 22:28-29)

Relembro que o castigo para um filho que desobedeça aos pais, ou para alguém que apanhe lenha ao sábado, é o apedrejamento até à morte. Para não falar do simpático que é fazer a vítima viver com o violador. Para dar uma ideia do que representam 50 siclos de prata: se um marido acusar a mulher de não se ter casado virgem, e os pais da moça apresentarem as vestimentas com sangue da noite de núpcias para a ilibar, o marido terá de pagar 100 siclos de prata pela calúnia. Caso contrário ela será… apedrejada até à morte. À frente da porta dos pais.

Só se esqueceram do violador (errata)

[correcção do post anterior]

Afinal parece que a menina esteve de fora dos excomungados. Comecei a estranhar poucas referências à excomunhão da menina, e segundo O Globo/BBC Brasil:

O Brasil só permite abortos em caso de estupro ou riscos para a mãe. Os médicos disseram que o caso da menina de nove anos se enquadrava nas duas situações, mas o arcebispo de Olinda e Recife, José Carlos Sobrinho disse que a lei de Deus está acima de qualquer lei humana.

Ele disse que as excomunhões se aplicariam à mãe e aos médicos, mas não à menina por causa da idade dela. (ref)

Devia ter confirmado isto antes de publicar, mas confiei na TSF:

Vários políticos, entre os quais o presidente Lula da Silva, criticaram o arcebispo do Recife por ter decidido excomungar uma menina de nove anos, forçada a abortar depois de ter sido violada pelo padrasto, bem como toda a equipa médica responsável pela interrupção da gravidez. (ref)

Parece que a idade poupou a criança à excomunhão. Mantenho as críticas.

Só se esqueceram do violador

Resultado do aborto à menina de nove anos grávida de gémeos: equipa médica e mãe da menina excomungados pelo arcebispo do Recife. E falta a parte mais absurda: caso faltassem provas da imbecilidade desumana do arcebispo católico, este decidiu também excomungar a própria criança violada. O padrasto que a violou continua a pertencer à família católica, parece que a excomunhão é só para crimes graves.

E que não se pense ser ‘apenas’ a opinião do arcebispo. O absurdo continua pela hierarquia acima:

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota, na sexta, em que destaca o mandamento “não matarás” e reforça as críticas feitas ao aborto. A imprensa italiana informou que o Vaticano apoia a decisão do arcebispo. (ref) Continuar a ler

Father Maverick

Outro excerto do Religulous (2008)