Igreja vs Galileu no século XXI: o mito relativista

Há uns tempos revisitei um post anterior para dar algumas respostas (tardias) a comentários lá colocados. Entre eles estava uma referência a Galileu enquanto “um mito do Iluminismo” (onde irão buscar estas expressões?), o que é receita certa para o meu sangue começar a coalhar. Isto sem que ninguém tivesse feito antes a mínima referência a Galileu. Tive a seguinte reacção:

Mas qual mito do iluminismo?.. As ideias de Galileu não foram consideradas heréticas? Não ficou proibido que quem quer que fosse as reproduzisse? Ele não foi coagido a retirar o que tinha dito? Poucos anos antes o heliocentrista Giordano Bruno não tinha sido atirado para a fogueira?
E existiam provas para a superioridade do modelo de Galileu em relação à teoria geocêntrica que a igreja defendia. O de Copérnico talvez não, o de Galileu sim. Não venha com histórias.

E recebi a seguinte resposta:

« Ai meu saco!
vossa senhoria só vem com clichês anti-católicos!!
essa do Galileu é de doer!!
é um assunto que ninguém leu uma linha da VERDADEIRA história e vai vomitando “achismos”..
Eis o artigo que demonstra o que REALMENTE ocorreu( se tiver o que contestar do artigo, por favor, entre em contato com o mesmo site e apresente PROVAS concretas, ok?):

http://www.veritatis.com.br/article/420 »

O site referido não tem mais que o famoso discurso de Ratzinger na Sapienza, reformatado e com uns ataques extra ao protestantismo. Procurando pela citação de Planck fui levado para uma catadupa de sites católicos que debitam os mesmos argumentos. Ocasionalmente algum site honesto e demonstrador de alguma investigação em torno do assunto, e com interpretações de algum interesse (embora discorde delas). Mas a grande maioria são meras apologéticas de papagaio. Não fazia ideia que estas falsas concepções estivessem tão difundidas.

Primeiro quero reafirmar que o que eu tinha dito não era nenhum “cliché anti-católico” ou falsidade:

  • A condenação de Galileu deveu-se ao facto de as ideias que defendia terem sido consideradas “formalmente hereges”;
  • As obras de Galileu foram incluídas no índice de livros proibidos;
  • Galileu foi coagido a contradizer perante a inquisição tudo o que tinha afirmado em defesa do heliocentrismo;
  • Giordano Bruno, contemporâneo de Galileu, foi mesmo queimado na estaca por heresia;
  • O modelo defendido por Galileu era (e é!) claramente superior ao modelo que era então defendido pela ortodoxia católica.

Futuramente abordarei por aqui o tema em mais detalhe. Quanto ao que reiterei, basta procurar qualquer site credível, de preferência neutro (nem propaganda católica nem propaganda anti-católica) e com poucas interpretações porque se tratam de factos.
O argumento que mais me tem incomodado nisto tudo (e que aparece nesse Veritas Splendor) é o do relativismo para dizer que a igreja estava certa e Galileu estava errado. Parto de um exemplo, retirado de um site dedicado a contradizer sites protestantes de qualidade duvidosa (entre “” é a tal citação de Planck que prolifera em sites católicos – estará completa e bem traduzida? Não a encontrei em nenhum site independente, mas é conhecido que Planck chegou a defender o catolicismo e é bem capaz de ser autêntica.):

«(…) As desculpas que coube a Galileu foi apenas por sua rápida reclusão domiciliar, não por Galileu estar certo e a Igreja errada. Isto é falso! Hoje sabemos que a Igreja fez muito bem, defendendo a palavra de Deus como está na Bíblia, em Josué 10:13, a menos que alguém queira discutir com Max Planck e Albert Einstein (da Teoria da Relatividade): “(…)Segundo a teoria física da relatividade, que atualmente pode ser considerada como aquisição científica assegurada, ambos os sistemas de referência e os modos de consideração que lhes correspondem são igualmente corretos e igualmente justificados, e é fundamentalmente impossível, sem arbitrariedade, decidir entre eles através de quaisquer medições ou cálculos” (…)

Isto claramente prova que a Igreja, não estava “errada”, como pregam certos indoutos linguareiros, para rapinar na ignorância. (…)» in cai a farsa

Primeiro a “rápida prisão domiciliar”: durou cerca de nove anos, e só não durou mais porque Galileu morreu entretanto (a pena era perpétua, e só foi comutada de prisão para prisão domiciliária porque Galileu tinha amigos nos locais certos)… Quanto ao resto, quem ouve até pensa que a igreja tinha alguma noção sobre relatividade. Talvez o que mais incomoda neste argumento é o facto de esta noção de relatividade ter sido precisamente introduzida por Galileu (e mais tarde aperfeiçoada por Newton e finalmente por Einstein), precisamente no livro que despoletou o processo inquisitorial contra o cientista e a consequente colocação da sua obra no índice de livros proibidos. É preciso ter lata!

Para além de o argumento roçar um pouco o absurdo. Claro que está matematicamente correcto. Podemos colocar o referencial onde bem entendermos. Posso colocá-lo no meu umbigo e concluir que quando faço flexões não é o meu corpo que se eleva mas sim toda a Terra que é empurrada para baixo (Chuck Norris: cuidado comigo!). Fingir que os meus pés fazem a Terra girar enquanto ando sem me deslocar. Penso que a arbitrariedade da escolha do meu referencial umbilical é evidente. Tão arbitrária quanto a escolha da Terra para referencial fixo do sistema solar.

Posso assumir que a minha mão é o centro do Universo, agitá-la freneticamente e concluir que todo o Universo entra num bailado convulso enquanto a minha mão permanece no mesmo sítio. Continuava a poder descrever plenamente o que se passava, embora precisasse de uma certa ginástica mental adicional. Mais complicado seria eu perceber como conseguia mover todo o Universo usando apenas a força do meu braço.

É precisamente este aspecto que torna o sistema de Copérnico-Kepler tão importante: permitiu compreender as causas do movimento. Na próxima grande revolução da Ciência (e porventura a maior de sempre), Newton, entre tantas outras descobertas, iria partir do modelo de Kepler para revelar ao mundo a causa dos movimentos planetários. Galileu já havia aberto o caminho ao postular que o movimento dos objectos que caem na Terra e dos planetas que se movem no espaço têm a mesma causa (Copérnico também se aproximara um pouco desta noção), e dedicou boa parte da sua vida a estudá-la. Kepler teve uma enorme contribuição ao descobrir a verdadeira forma das órbitas e o que ditava a velocidade de deslocamento. Numa rara demonstração de humildade Newton reconheceu o quanto devia aos seus predecessores: «Eu só vi mais longe porque me coloquei sobre os ombros de gigantes».

Mas este ponto parece não ser bem compreendido:

«De início, cabe notar que o eminente Max Planck fala em “sistema de referência”. Realmente, não podemos afirmar que o universo possui um ponto fixo (seja o sol, a terra ou qualquer outro astro). Não estamos falando de um carrossel com cavalinhos girando em torno de uma base!» – in Veritas Splendor

E isto vai sendo repetido ipsis verbis (sem citar referências):

«Note que o eminente Max Planck fala em “sistema de referência”. Realmente, não podemos afirmar que o universo possui um ponto fixo (seja o sol, a terra ou qualquer outro astro). Não estamos falando de um carrossel com cavalinhos girando em torno de uma base! Portanto, Galileu precipitava-se. Assim o Papado acertava pela cautela, e pela fé na palavra de Deus, que não foi mudada nem mudará.» – in cai a farsa

Vai aqui uma certa confusão. Será o carrossel tão conceptualmente diferente do sistema solar ao ponto de estar imune às noções relativistas? Nem por isso: também poderíamos assumir que o nosso cavalinho estava quieto e que era a Terra a girar em torno dele. Seria possível (mas mais complicado) construir um sistema físico com estes pressupostos. Tal como num carrossel há uma força (transmitida através da base) que obriga o cavalinho a fazer a sua translação, também entre um planeta e o Sol existe uma força gravítica (ou, se preferirmos, uma deformação do espaço-tempo, ou gravitrões..) que obriga o primeiro a descrever a sua órbita elíptica. Órbita elíptica…num sistema heliocêntrico, claro! Num sistema geocêntrico, a órbita de um planeta em torno da Terra é mais uma espécie de novelo ou coisa que valha:

Acho que até mesmo Newton teria dificuldades em demonstrar que isto é o resultado de uma força inversamente proporcional ao quadrado da distância. E o movimento de rotação da Terra tinha efeitos mensuráveis que foram mais tarde demonstrados. Galileu estava “certo”.

No tempo de Galileu não era sabido com certeza que era isto que se seguiria, mas o modelo heliocêntrico tinha já claras vantagens em relação ao seu predecessor. Era muito mais simples e tinha uma maior correspondência com a realidade observada. Para além disso os pressupostos da filosofia de Aristóteles que lhe serviam de base teórica tinham sido deitados por terra. Galileu cometeu erros, e alguns dos seus argumentos em defesa do heliocentrismo estavam errados. Mas dizer que a igreja estava certa e o cientista errado nesta questão é ir longe demais.

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