São Nuno de Santa Maria, e a santidade em geral

«Pope creates 5 saints including Portuguese warrior» – título da notícia na Reuters

São Nuno de Santa Maria, padroeiro da guerra, do patriotismo, das queimaduras oculares e dos acidentes na cozinha. E oftalmologista honoris causa post mortem:

Foi hoje canonizado Nuno Álvares Pereira, um evento que apenas evocaria estranheza não fosse o facto de a Assembleia da República e o Presidente da República terem feito questão de apoiar a iniciativa enquanto detentores dos respectivos cargos. Não deveria ser preciso salientar o óbvio: o critério da laicidade anda muito relaxado. Uma cerimónia que confirma a ocorrência de um milagre provocado por um defunto é claramente o campo da religião. O secularismo implica que actos de fé não devem receber nem apoio nem repressão por parte do Estado.

A moção na assembleia contou com o voto contra apenas do Bloco de Esquerda. O PCP absteve-se e os outros votaram a favor. Por parte do PP não seria de esperar outra coisa, e quanto ao PSD, liderado por alguém que não há muito tempo afirmou na assembleia que “Portugal é um país católico”, idem. No que diz respeito ao PS, suposto defensor histórico do Estado laico, não se percebe. Ou melhor, percebe-se face à proximidade de eleições, mas mais valia que não se percebesse. Quanto ao senhor presidente foi o líder do executivo que protagonizou o triste caso de O Evangelho segundo Jesus Cristo, livro vetado da lista de candidatos a um prémio literário por supostamente ofender o tal “país católico” (quantas vezes é preciso relembrar que se trata de um país constitucionalmente secular?).

Tudo é um milagre!

Passando à frente desta questão, há algo de cómico na canonização. A começar pelo lado bélico, pouco compatível com a história de dar a outra face. E principalmente no suposto milagre que permitiu a canonização. Uma mulher ficou com o olho queimado por um salpico de óleo enquanto fritava peixe. Depois melhorou. Milagre! Milagre! Porquê? Porque algures entre a queima e a cura ela rezou a uma imagem de um general / beato de espada em riste.

A reacção mais comum que recebi ao relatar o milagre a alguém foi “estás a falar a sério?”. Mas o cardeal José Saraiva Martins parece atribuir grande importância a esta ocorrência numa entrevista ao DN:

Como foi comprovada a cura?
A cura foi meticulosa, escrupulosa e cuidadosamente examinada pelos médicos da Congregação, para ver se se tratava de um milagre. Uma praxe necessária, já que, muitas das que chegam à Congregação dos Santos, como milagrosas, nem sempre o são. Os médicos da Congregação têm de nos dizer se aquela cura específica tem alguma explicação científica à luz da ciência médica actual.
Como se determina que uma cura não tem explicação científica?
Os médicos não têm de nos dizer se foi ou não milagre, mas se não é explicável cientificamente. Aliás, os médicos que avaliam os casos de milagre são na maioria das vezes ateus e agnósticos. À Igreja não interessa senão que eles comprovem o facto científico.

Sim, os “médicos da Congregação” devem ser certamente ateus e agnósticos. A única intervenção de um ateu numa canonização que me recorde foi Christopher Hitchens no caso da madre Teresa. É óbvio que ninguém na hierarquia católica o levou a sério, caso contrário ela não seria santa. E também nesse caso houve um ‘milagre’ (um tumor detectado a tempo que foi curado), como em qualquer canonização. Os médicos e o marido da milagrada atribuíram a cura do tumor à medicação (que não serve para encher chouriços), mas a congregação do Vaticano deliberou ter havido uma acção sobrenatural da santa defunta. Tudo muito meticuloso, escrupuloso e cuidadoso, como é costume…

Voltando ao caso, gostava de saber como se comprova o “facto científico” de algo não ser “explicável cientificamente”. Primeiro, não ser possível explicar algo com o conhecimento científico actual dificilmente implicaria um milagre. A cura de uma gripe não deixou de ser um milagre quando se descobriu o sistema imunitário. Foi sempre algo natural e isento de intervenção divina, quer se conhecessem ou não os detalhes. Segundo, este caso nem parece estar para lá do conhecimento científico actual. É preciso uma explicação científica para a regeneração da córnea? Se os danos forem superficiais basta a migração de células para a zona afectada e posterior replicação por mitose. Se os danos forem mais profundos é necessário que os fibroblastos entrem também em cena. Simples.

Desconheço a extensão da lesão no olho da senhora miraculada (apenas sei que foi provocado por salpicos de óleo), mas não é preciso procurar muito para descobrir que a regeneração do olho em queimaduras oculares graves não é nada do outro mundo. Nada que requeira a intervenção de forças sobrenaturais.  Aliás, parece que a conclusão dos médicos não foi bem o anunciado:

«O processo, confidencial, diz que os médicos consultados concluíram que a cura poderia ter sido por causa miraculosa ou por causa dos medicamentos.» – Público 25/Abr/2009

A bitola para o que é considerado um milagre anda muito baixa. Qualquer dia basta um nascimento ou o sorriso de uma criança. O próprio processo de canonização está bastante mais folgado desde que aboliram o papel de advogado do diabo. Agora é só um bando de cardeais a dizer que sim e um papa a dizer ok. Basta ver que em todo o século XX até antes da tomada de posse de Karol Wojtyla (que aboliu o posto) tinham sido canonizadas menos de 100 pessoas. No pontificado de João Paulo II foram cerca de 500. O que implica cerca de 500 casos de intervenção sobrenatural póstuma por parte de beatos nas últimas 3 décadas. Mesmo dentro do mundo católico, terá isto credibilidade?

Por falar em credibilidade, o senhor Duarte Pio, exímio defensor da república (cada vez que abre a boca), ainda conseguiu desencantar um ‘milagre’ adicional. O Ludwig Krippahl já disse tudo:

No ano da graça de 2005, Duarte Pio de Bragança escreveu um opúsculo sobre a vida do nosso santo mais recente. Neste contou que «Quando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol». De rigor histórico duvidoso, este relato é ainda assim de um simbolismo intrigante.

A mensagem parece ser que os cavalos já sabiam onde se ia dar o milagre, cinco séculos antes da notícia chegar a uns jovens membros da espécie humana. Os cavaleiros, incluindo o Condestável, simplesmente pasmaram sem perceber o que se passava. Esta demonstração da superioridade teológica dos equídeos faz-me suspeitar que a senhora Guilhermina, sofrendo da maleita causada pelo salpico de óleo no olho, terá pegado numa figura do Condestável montado a cavalo e, inadvertidamente, amilagrado a vista com a parte inferior do boneco. Chamo por isso a atenção das autoridades eclesiásticas para a possibilidade de, no próximo dia 26, canonizarem o mamífero errado.

Atirando areia aos olhos dos leigos

A ridicularização do milagre até levou Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, a falar de “desonestidade ateísta” e defender que o milagre pouco tem a ver com a canonização, ao contrário do que defende a “campanha anticatólica, mascarada de ateísta”. Balelas. O que separa a canonização de uma beatificação é precisamente a ocorrência de um milagre. Sem milagre não há santo. Antigamente era preciso o martírio,  depois umas quantas curas para maleitas terminais. Agora basta uma pequena cura avulso que possa ser vendida aos fiéis cheios de fé como sendo obra de artes mágicas. Mas é condição obrigatória. Ainda assim é interessante ver as razões que o bispo aponta para a canonização de alguém:

«Afirmar que Nuno Álvares Pereira foi canonizado graças a um milagre que ridicularizam, é desonesto. A canonização de uma figura tem como razão primeira as virtudes fora do comum, vividas em grau heróico, que aqui são absolutamente claras: entrega total ao serviço da pátria, confiança absoluta em Deus, perdão, partilha, serviço aos pobres. A segunda prende-se com a fama de santidade, muito cedo demonstrada pelo povo, invocando o Santo Condestável. Só em terceiro lugar se atende, como confirmação, à ocorrência de um milagre (…)» – bispo Carlos Azevedo no Correio da Manhã

Este “entrega total ao serviço da pátria” num contexto religioso causa-me calafrios. Cuidado com esta fusão deus-pátria, mais própria de outros tempos de nacionalismos exacerbados. Mas pensando bem foi precisamente isso que esteve na origem do antigo testamento. E todos sabemos que foi a defesa da causa albanesa a principal razão da santidade de madre Teresa. Ou talvez não. Decerto facilita as coisas quando se está a falar do santo que o folclore popular dizia usar a cota de malha de aço debaixo do hábito, não fossem os castelhanos tentar nova investida. Mas nem sequer pega dentro da igreja:

«O cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, recusou esta tarde, em Roma, a “exaltação patriótica” da figura do Condestável D. Nuno Álvares Pereira.» – Público 25/Abr/2009

Quanto à confiança absoluta em Deus, isto também precisa de ser relativizado com um “fia-te na virgem e não corras…”. Nuno Álvares Pereira não confiou cegamente na providência, como faria mais tarde um imbecil comandante da armada espanhola. Esse comandante deixou escrito que reconhecia a superioridade dos canhões e navios ingleses mas estava ainda assim confiante na vitória porque Deus estaria certamente do lado de Espanha contra os cismáticos ingleses. Não é preciso explicar o que aconteceu à armada invencível. A vitória do condestável em Aljubarrota deveu-se em grande parte ao uso das tácticas mais avançadas da época, já ensaiadas em Crécy e que veriam o seu apogeu em Agincourt. Isto sem desprimor para as óbvias qualidades de general que exibiu. Mas Bento XVI insistiu fortemente neste ponto:

«Na homilia da cerimónia da canonização de S. Nuno de Santa Maria, Bento XVI destacou algumas características do novo santo português. “Uma intensa vida de oração e absoluta confiança no auxílio divino” E adianta: “Embora fosse um óptimo militar e um grande chefe, nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à acção suprema que vem de Deus”.“São Nuno esforçava-se por não pôr obstáculos à acção de Deus na sua vida, imitando Nossa Senhora, de Quem era devotíssimo e a Quem atribuía publicamente as suas vitórias” – sublinhou Bento XVI na homilia.» – Agência Ecclesia

Um líder aparentemente passível de captar o favor divino era um importante tónico para o soldado medieval. O efeito na moral das tropas devia ser enorme, e particularmente útil em situações de inferioridade numérica. Mas não parece viável construir uma ideia de santidade baseada na instrumentalização (mesmo que inconsciente) da religião com vista a objectivos bélicos bem mais terrenos. Descartando as façanhas militares, de difícil conciliação com a mensagem de Jesus, sobra apenas a sua vida de monge, uma mera nota de rodapé na história de Nuno Álvares Pereira. Da vida de Nuno de Santa Maria pouco sobra até hoje. Após a morte da mulher, juntou-se ao convento carmelita que mandara edificar. Uma ordem mendicante e contemplativa, virada para a oração e penitência, e portanto de peso reduzido no “serviço aos pobres”.

Quanto ao “perdão”, a imagem de cavaleiros franceses e castelhanos empalados nas fortificações anglo-lusas torna este argumento um pouco difuso. Lembro-me de ver na TV alguém a invocar que na sua piedade o condestável até prevenia pilhagens. Tendo em conta que as suas intervenções militares ocorreram em território nacional, parece mais uma questão de bom senso que de humanismo. E mesmo nesse aspecto o nevoeiro da História deixa algumas dúvidas.

Santos, anjos, arcanjos e marmanjos

Perante a debilidade da “razão primeira”, ficamos com a verdadeira motivação por detrás de uma canonização: a “fama de santidade”. Parafraseando o chato dos Contemporâneos, ‘precisas é de aparecer’. Os santos são em boa parte desde tempos imemoriais mais uma forma de integrar superstições e crenças locais com a doutrina católica.  Se as pessoas acreditam em algo, há que redireccionar essa fé para onde está a autoridade. Da mesma forma que as celebrações em torno do solestício de inverno se tornaram em Natal, ou que os cultos da fertilidade na Primavera deram lugar à Páscoa (com amêndoas suspeitas e os prolíficos coelhinhos…), a idolatria também é absorvida sob a forma de santos. Se não podes vencê-los, assimila-os. Voltando ao bispo Carlos Azevedo:

«A identificação que a referida Associação [Ateísta] faz entre religião e superstição é enganadora e velha. Pessoas com rigor intelectual não fazem equivaler formas degradadas de religião com verdadeira religião transformadora da sociedade»

Pois este caso põe em evidência o facto de religião e superstição serem um só. Qual é a diferença conceptual entre concentrar-se na imagem de um guerreiro medieval para curar uma úlcera na córnea ou colocar a imagem de um ente amado a meio de um círculo de sal para provocar a sua ‘amarração’ emocional?

Devo confessar que acho piada aos santos. São réstias do paganismo que revelam o abismo entre a cristandade retórica e aquilo que é na prática. Esta em particular tem muito das apoteoses de outrora dos heróis míticos de cada povo… a divinização de seres humanos (para além de Cristo) que a igreja ora critica violentamente, ora encoraja.

Em termos de santos gosto particularmente das ‘nossas senhoras’, desde há muito com tanta influência no cristianismo português (e da qual ‘S.Nuno’ era devoto). Parece que o monoteísmo imposto por Roma terá deixado um grande vazio no povo lusitano habituado a um panteão com uma dose generosa de figuras femininas – vêm-me à cabeça Ataegina, Trabaruna e Bandonga, para não falar das deusas importadas do panteão greco-romano (etrusco). A frieza do Deus-Pai do fogo e enxofre nunca terá convencido plenamente.

Há também o aspecto da especialização, evidente na nossa senhora que se replicou em nossas senhoras disto e daquilo dedicadas a todas as maleitas que atormentam a mente humana. Da mesma forma que há santos padroeiros para uma imensidade de funções e modos de vida. Sem esquecer os anjos que outrora moviam astros e hoje em dia servem de guarda de honra a muita gente. Não espanta muito o estudo em Itália que colocava Cristo no sexto lugar da lista de pessoas mais invocadas pelos católicos italianos em tempos de crise. Ninguém espera uma audiência com o presidente para resolver um cano a verter água, há que chamar o canalizador. Deus deve andar muito ocupado, caso contrário não aconteceriam tantas coisas más para começar. É preciso meter uma cunha com alguém mais abaixo na hierarquia para equilibrar as coisas a nosso favor…

2 responses to “São Nuno de Santa Maria, e a santidade em geral

  1. Pingback: Se calhar Portugal merece Cavaco – desabafos dum dia de reflexão | a mansarda

  2. Miguel Vilas Boas

    Apesar de considerar que é uma pessoa inteligente, pois apresenta algumas boas argumentações tem outras que saem (um bocadinho) ao lado…
    Se efectivamente não acredita em santos, nem em Cristo tenha ao menos a decência de trabalhar no Natal, pois não terá qualquer sentido tamanha celebração. Ahh… e quem diz no Natal, diz na Páscoa, ou no dia dos Fiéis, ou em qualquer outro feriado católico, não digo isto para que trabalhe mais, ou para que passe menos tempo com a sua família compreenda que é uma questão de coerência… (obviamente o mesmo se aplica às organizações ateístas).
    Relativamente a S. Nuno deu para compreender duas coisas:
    1ª – Certamente será Oftalmologista (motivo pelo qual exorto a que trabalhe no Natal e resto dos feriados) e fará falta em qualquer Hospital…
    2ª- Falta-me compreender o porquê do seu “ódio de estimação” à Igreja. Apesar de ser a “empresa” que apresenta maiores lucros, também é aquela que dá mais… tente ver uma sociedade sem religião, onde ninguém acredita em nada nem ninguém sem prova irrefutável do contrário. Onde ninguém confia, acredita, elimine a palavra fé do dicionário (se é que ainda existe) e eu falo-lhe numa sociedade “tão pior” que é inimaginável…

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