Monthly Archives: Maio 2009

Vanitas (Fernando Vicente)

Fernando Vicente - Escorzo

Escorzo

Presentimiento

Presentimiento

Fernando Vicente, série Vanitas (via Neurophilosophy)

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Relembrando o caso da bandeira

Condenado por distribuir ‘panfletos clandestinos’? Talvez não…

A partir do Blasfémias fui levado a esta notícia:

«Cerca de seis horas depois foi libertado, com a leitura da sentença a ser adiada para o dia seis de Junho, no âmbito de um processo de distribuição de panfletos clandestinos, que criticavam Alberto João Jardim e o PSD-Madeira.
(…)
Depois de algumas diligências, o militante do PND ficou a saber que teria sido detido para ouvir uma pergunta da juíza. “Fui detido para a juíza me perguntar se eu estou disposto a prestar serviço comunitário, pelo crime de distribuição de panfletos clandestinos”, disse Coelho, que considera a medida de coação “abusiva”, pois nunca se recusou a estar presente nas sessões do tribunal.
(…)
O ex-deputado recorda que iniciou a distribuição de panfletos clandestinos do movimento democrático de Gaula, em 2003, mas garante que desde a condenação pelo crime em 2005 nunca mais os distribuiu.» – Expresso

Uma condenação por distribuição de propaganda clandestina mete medo. Ainda mais quando se descobre que o nome da juíza encarregue do processo é Susana Mão de Ferro. Porque se defende o ex-deputado do PND dizendo apenas que já não é responsável pela sua distribuição? Por muito mal que esteja a democracia na Madeira, terá sido “distribuição de panfletos clandestinos” a justificação dada pela condenação a 186 horas de trabalho comunitário?

«O arguido foi condenado a prestação de trabalho comunitário por crimes de difamação, mas interrompeu a pena em Abril de 2008 por ter iniciado funções como deputado na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira.» – Público

Difamação. Já faz mais sentido.

«(…) foi condenado pelo crime de difamação, por distribuir panfletos denunciando alegados casos de  corrupção do ex-presidente da câmara municipal de Santa Cruz e críticas ao PSD/Madeira.» – JN

O ter havido abuso ou não já depende dos detalhes. Conhecendo o estilo de José Manuel Coelho, não espanta se a acusação for justa. Conhecendo o regime da ilha, também não espanta se houver ali uma mãozinha. O caso até tem contornos estranhos, mas não foi uma condenação por literatura dissidente. Sucessivos abusos fazem com que se encare muito a ilha como uma singularidade política onde se se aplicarem as leis da física é uma sorte, quanto mais as outras, e até um ‘detalhe’ destes tende a passar despercebido.

The Crowd Around (Katzenjammer Kabarett)

Isto andava a precisar de música. Lançaram este ano um álbum novo, esta é do antigo.

Katzenjammer Kabarett

Alberto João Jardim, o presidente eterno (El País / Courrier Internacional)

[Alberto João Jardim foi recentemente agraciado com a medalha Tiradentes. Quero salientar, para quem (como eu) tem a História brasileira muito enferrujada, que a medalha não é um prémio sarcástico a distinguir o carácter arruaceiro do presidente do governo regional da Madeira. Tiradentes (assim apelidado por ser dentista) foi um célebre revolucionário republicano brasileiro enforcado e esquartejado pela coroa portuguesa no século XVIII. Aparentemente é a condecoração mais importante no estado de Rio de Janeiro e distingue a dedicação à “causa pública”.

«Não é  segredo para o mundo as coisas que o dr. Alberto João Jardim tem feito pela ilha da Madeira» disse Domingos Brazão, deputado estadual do Rio de Janeiro. O que Alberto João tem feito na Madeira não é de facto segredo nenhum, resta saber é o que há de positivo nisso, quanto mais merecedor de qualquer condecoração.

Em boa hora a Courrier Internacional publicou nesta edição (Maio 2009) um artigo do El País de 25 de Janeiro deste ano, da autoria de Francesc Relea, que resume bem o regime de Alberto João:]

Presidente eterno
Como o líder da autonomia da Madeira mantém o controlo do arquipélago há 30 anos. Um olhar vindo de Espanha.

Alberto João Jardim, de 65 Anos, é um político fora do comum, que ostenta o recorde mundial de permanência no poder pela via democrática. Nada menos do que 30 anos como presidente do Governo Regional da Madeira, região autónoma de soberania portuguesa, ganhando eleição após eleição por maioria absoluta. Só Muammar Kadhafi acumula mais tempo como líder supremo da Líbia (39 anos), mas o coronel nunca se submeteu ao escrutínio das urnas.

Adorado e odiado, Jardim não deixa ninguém indiferente. O seu carácter histriónico e os modos caciquistas levam-no a desdenhar, insultar e incomodar os adversários políticos e também os que estão no seu partido, o Partido Social Democrata (PSD). Estas características pessoais não são impedimento para que o presidente regional seja membro das mais altas instâncias portuguesas, como o Conselho de Estado e o Conselho Superior de Defesa Nacional.

Jardim é um produto genuinamente madeirense, catapultado em partes iguais pela igreja e pelo antigo regime. Durante a ditadura, foi protegido do homem do Salazarismo na Madeira, o seu tio Agostinho Cardoso, cujo pensamento direitista ficou reflectido nas colunas, por vezes incendiárias, que publicava na «Voz da Madeira», altifalante do ditador na ilha. Hoje, Jardim é o cacique local do PSD, cuja versão madeirense pouco tem que ver com o principal partido da oposição à escala nacional em Portugal. Na Madeira, são do PSD velhos quadros do salazarismo que conservam cargos locais.

Trinta anos no poder e o povo continua a votar nele. Qual é a chave do êxito? O dinheiro, em primeiro ligar. A Madeira tem sido durante décadas a região portuguesa que, proporcionalmente, mais tem beneficiado da solidariedade nacional e da União Europeia (UE). O regime autonómico permite-lhe receber integralmente todos os impostos que se pagam no arquipélago, sem devolver nada a Lisboa. O Estado português contribui com cerca de 300 milhões de euros por ano para compensar os efeitos da insularidade; e, durante décadas, a UE injectou grandes quantias de dinheiro: dois mil milhões de euros de fundos comunitários nos últimos 15 anos. Com esta almofada, quem não ganharia eleições com maioria absoluta? «Nestas condições, nem o Papa seria capaz de derrotar Jardim», afirma o deputado socialista Carlos Pereira, um dos seus críticos mais mordazes.

No meio do Atlântico, a  313 milhas marítimas da terra firme mais próxima (a costa africana) e a duas horas de voo de Lisboa, está a ilha da Madeira, com 200 mil habitantes. Outros 600 mil vivem emigrados, repartidos, sobretudo entre Venezuela e a África do Sul. Destino tradicional do turismo de terceira idade, com predomínio britânico, e escala de grandes cruzeiros que sulcam o Atlântico, a ilha mudou de cara nos últimos 30 anos, deixando para trás parte da pobreza ancestral, com a construção de túneis, viadutos e vias rápidas, que permitem o acesso às zonas mais afastadas. As obras públicas foram, desde o primeiro dia, a grande aposta de Jardim. Contava com avultados fundos de Lisboa e Bruxelas. «Com milhões faço inaugurações, com inaugurações ganho eleições», foi o lema que lhe permitiu triunfar por maioria absoluta em nove eleições consecutivas. Ignorando as recomendações do Tribunal Constitucional, as inaugurações converteram-se em actos de campanha, com almoços pagos à população.

Na Madeira, a linha que separa meios de comunicação e propaganda é imperceptível. O «Telejornal» da cadeia pública RTP Madeira é conhecido popularmente como «Telejardim». Da dezena de emissoras de rádio privadas, todas receberam subsídios do Estado. O «Jornal da Madeira», outrora propriedade da igreja, é o único diário estatal em Portugal e serve de instrumento de propaganda. A lei impede que seja gratuito e vende-se ao preço simbólico de dez cêntimos.

«Jardim ganha sempre porque tem uma máquina de propaganda gigantesca. Aparece todos os dias na televisão local, onde não há debates. A imprensa está amordaçada e há medo de informar», diz Carlos Pereira, porta-voz do grupo socialista no Parlamento regional, que sentiu na própria carne o clima político opressivo para os dissidentes que impera na Madeira.

«Jardim ganha sempre porque tem uma máquina de propaganda gigantesca. Aparece todos os dias na televisão local, onde não há debates. A imprensa está amordaçada e há medo de informar», diz Carlos Pereira, porta-vos do grupos socialista no Parlamento regional, que sentiu na própria carne o clima político opressivo para os dissidentes que impera na Madeira. Em 2005, era director do Centro Internacional de Negócios, zona franca livre de impostos, quando decidiu candidatar-se a presidente da Câmara do Funchal nas eleições municipais daquele ano. «Perdi, depois de uma tremenda campanha de terror. Mas o mais grave foi a perseguição pessoal e a discriminação social. Até o grupo de comapanheiros com os quais corria oas domingos se afastou de mim. Por fim, conseguiram até a minha demissão como director da Zona Franca».

Os 30 mil funcionários distribuídos pelas dependências da administração regional, municipal e serviços da República são um pilar fundamental do regime de Jardim. É um número que fala por si para uma população activa de 120 mil pessoas e que absorve 23,9 por cento do orçamento da Madeira. Não é preciso perguntar em que vota este exército de burocratas.

Os secretários regionais raramente comparecem para prestar contas. E assuntos não faltam. A dívida global, por exemplo, ascende a três mil milhões de euros, metade do PIB regional. Se for ao Parlamento em alguma ocasião, o presidente, a quem o regulamento autoriza a falar sem limite de tempo, não é obrigado a responder a perguntas dos deputados. O debate brilha pela ausência num Parlamento que não exerce a sua função de fiscalização, e em cuja mesa só está representado o PSD, partido do Governo. Os deputados não estão sujeitos a nenhum regime de incompatibilidades, caso único em Portugal, o que lhes permite fazer negócios com o governo ou à margem dele.

«A democracia é uma ilusão na Madeira», afirma João Marques de Freitas, ex-procurador-geral adjunto, que reconhece que a maneira de viver tranquilo é «não se meter em política». Por isso, «o melhor é falar de futebol e do Cristiano Ronaldo».

Como exemplo de uma anomalia temos o caso ocorrido [em Dezembro de 2008] , numa sessão plenária, quando o deputado José Manuel Coelho, do pequeno agrupamento opositor Partido Nova Democracia (PND), acusou o governo de Jardim de «nazi-fascista», exibindo em seguida uma bandeira com a cruz gamada. No dia seguinte, agentes de segurança privada impediram a entrada do deputado nas dependências parlamentares.

A oposição, seja de esquerda ou de direita, concorda que o regime político da Madeira tem todos os tiques de uma república das bananas, em plena Europa. «O governo confunde maioria absoluta com poder absoluto», sublinha José Manuel Rodrigues, presidente do Centro Democrático Social (CDS), o partido que exerce a oposição à direita.

Apesar da unanimidade das críticas, que o presidente Jardim recusou comentar nas páginas de «El País», em 30 anos não surgriu uma frente de oposição. É provável que não devamos procurar uma explicação na Madeira, mas sim em Lisboa, onde há um grande desconhecimento e desinteresse sobre o que acontece naquela ilha do Atlântico. «Não há vontade política de olhar para a Madeira como parte de Portugal», lamenta Carlos Pereira.

Huffington Post? Oi? Afinal cura-se a gripe com beijinhos?

Ainda não consegui digerir este… artigo… de Marianne Williamson no Huffington Post (via Irtiqa). Chama-se Pray Away the Swine Flu. Aqui vai:

«(…) So don’t be fooled when it comes to this conversation about the swine flu. This flu wasn’t created on the level of the body, because no disease is. It was created on the level of the mind, and it is there that we will root it out at the causal level. (…)»

Desengane-se quem pensava que no “nível causal” de uma gripe estava um vírus. A verdadeira causa é…

«(…) It is a basic truism of spiritual philosophy that, as it is written in A Course in Miracles, “all thought creates form on some level.” You get enough people agreeing in consciousness that Mexico is a dangerous place, and that dangerous thought will make it so. (…)»

Pois. E esqueçam o tamiflu:

«(…) The Western allopathic medical community is doing everything it can to treat the disease on the external planes, and of course we’re grateful for that. But each and every one of us have work to do on the internal planes, to transform the disease on the level of cause as well as ameliorate whatever effects it has already produced.

l) Pray it away. Just pray it away, asking God as you understand Him, the Divine Physician, Jesus or whatever other form of divine imagery works for you. Simply ask that it be removed from our midst.

2) Send love to Mexico. Between what’s actually been happening there with the drug wars, plus all the “Mexico is dangerous” thoughts we’ve loaded onto it over the last several weeks, it needs a major dose of love – the most powerful medicine of all – to dissolve the fear thoughts that have produced this flu.

Do your part. This thing can be turned around right now, and sent back to the nothingness from whence it came.(…)»

All you need is love. Cheguei a considerar a hipótese de isto ser sarcástico. Assim a gozar com O Segredo e o A Course in Miracles, que são referidos no artigo. E também com a homeopatia: “allopathic” é um termo perjorativo usado por homeopatas para se referirem à medicina a sério. Tenho muitas vezes alguma dificuldade em distinguir quem fala a sério e quem está a gozar nestas coisas da fé. Este monte de balelas new new age foi um desses casos. Logo pela forma como começava (a seguir à reza):

«(…) According to Martin Luther King, Jr. there is a power in us more powerful than the power of bullets.
King knew that that power was the power of the Spirit. (…)»

Se Martin Luther King sabia que o “poder do Espírito” tinha o poder de parar balas (literalmente), é estranho que não o tenha usado para, por exemplo, parar a bala que o matou (pelo menos no “plano externo” e “ao nível do corpo”). Transformar a afirmação metafórica de Luther King numa ridícula defesa de poderes mágicos da mente tinha todos os ingredientes de uma sátira. Uma forma de demonstrar que o poder do pensamento pode alterar muito o mundo, apenas se entre o pensamento e a alteração acontecer uma coisa chamada acção (e mesmo aí com os devidos limites). Para além de fazer lembrar uma das influências deste movimento: o Cristianismo Gnóstico, que defende que o mundo real é irreal – uma criação de um falso deus para aprisionar os humanos no sofrimento. Uma amiga chamava-lhe muito adequadamente Cristianismo Matrix, e nada soa mais a Matrix que parar balas com a força do pensamento.

Visto num site obscuro não traria dúvidas, mas no Huffington Post… onde escrevem Brian Williams e Michael Shermer… Tive de ir ao site da dita cuja, e ver que dá palestras com Deepak Chopra, é autora de livros como The Age of Miracles, Emma and Mommy Talk to God, e do CD-duplo Meditations for a Miraculous Life. Ela acredita mesmo nestas coisas, ou pelo menos farta-se de vendê-las. E parece que numa votação do público na Newsweek esteve entre os “50 baby boomers mais influentes”. Visto ter o apio da Oprah, isso não espanta muito.

O resto desta revelação iluminada pode ser visionado por apenas $14,95. Substituindo a palavra energia por magia é mais fácil perceber o que ela está a dizer. E há o «We look at the drama of the world, and we attach ourselves to it. We believe in it, more than we should.»  Acho que o mais reles nesta religião é a forma como os crentes são aliciados a não reconhecer o sofrimento dos outros para ‘não o aumentar’. Basta ter pensamentos positivos, comer muita fibra e ter atenção ao colesterol. E acreditar nos poderes divinos da mente. Cambada de narcisistas. Escusado será dizer que tipo de pensamentos estou a ter; só gostava que isto funcionasse de vez em quando.

A homeopatia às cavalitas da acupunctura

Saiu há umas semanas atrás uma notícia no Público que me provocou alguma comichão. O título «Alguns hospitais públicos já têm consultas de acupunctura» não indiciava nada de mal. A comichão começou com isto:

Continuam a ser poucos os médicos que incluem na sua prática clínica terapêuticas não convencionais como a acupunctura, a homeopatia, a fitoterapia, mas dizem que há cada vez mais abertura da classe médica.»

Não o facto de serem poucos os médicos a apostar em terapêuticas não convencionais, mas esta tendência de enfiar as terapêuticas não convencionais no mesmo saco (repetida pelo artigo fora). Uma técnica corrente entre charlatães que promovem idiotices acoplando-as a técnicas com alguma credibilidade. Idiotices como a homeopatia. O artigo salta entre acupunctura e homeopatia de uma forma completamente irresponsável. Aliás o título enganador esconde que o foco é mesmo na homeopatia e a acupunctura só aparece para emprestar credibilidade. E os homeopatas esfregam as mãos de contentes.

Acupunctura

A acupunctura tem aplicações médicas viáveis em algumas áreas, como o alívio de dor e da ansiedade. É aliás uma área sob intensa investigação científica e não é à toa que é reconhecida pela Ordem dos Médicos como competência médica, como refere o artigo.

Convém no entanto salientar que a sua eficácia terapêutica não deve ser tomada como suporte à teoria tradicional subjacente. Os místicos meridianos de energia ‘Qi’ são uma ideia obsoleta sem qualquer tipo de suporte científico. A sua eficácia terá antes a ver com a libertação de endorfinas provocada pela inserção das agulhas, o que poderá explicar o seu sucesso a mitigar dores e na cessação tabágica. Vários estudos sugerem que é tão eficaz espetar agulhas nos pontos prescritos pela acupunctura tradicional como noutros quaisquer.

Homeopatia…

Já a homeopatia não tem a mínima ponta por onde se lhe pegue. E faz-me muita confusão ver que há médicos a aderir a isto. Não percebem a idiotice pegada que é a homeopatia? Um médico/charlatão de um hospital ortopédico que se queixa da falta de aceitação desta prática até parece perceber:

«O maior desafio é a explicação científica. “Como explicar que se dá substâncias como o enxofre ou o ouro em doses muito diluídas com efeitos terapêuticos?”»

Pois, ora aí está um excelente pergunta. E convém referir que para além do desafio da explicação, tem o desafio de mostrar quaisquer resultados positivos. Infelizmente a jornalista prefere não seguir estes pontos e falar antes logo na linha a seguir sobre a marginalização que a vice-presidente da Sociedade Portuguesa Médica de Acupunctura sentia há uns anos atrás. Depois salta novamente para a defesa da homeopatia.

Como ‘funciona’ a homeopatia

Ainda vou notando quando falo com alguém sobre o tema a ideia de que os medicamentos homeopáticos consistem em medicamentos muito diluídos. O que é usado na homeopatia não são os medicamentos mas sim os venenos. Caso o enxofre na situação anterior não seja suficiente para espantar, basta referir a popularidade do arsénico em soluções homeopáticas. Felizmente os venenos são diluídos ao ponto de dificilmente sobrar uma molécula que seja do veneno no produto final.

A teoria homeopática é das coisas mais absurdas que conheço. Quando querem curar determinada maleita, procuram primeiro uma substância que provoca os mesmos sintomas (daí a profusão de químicos com efeitos nocivos). Porque por alguma razão acham que dois males com efeitos semelhantes se anulam. Assim como uma bofetada cura qualquer mal que provoque o avermelhar da cara. Depois diluem essa substância o mais que conseguem (até ao absurdo), porque defendem que quanto mais diluída for a substância nociva mais potentes se tornam os seus “efeitos curativos”. A sério, é mesmo isto. Este fragmento de uma palestra de James Randi explica melhor a homeopatia. Deixo também o link para o post agregador da série homeopatetices de Palmira F. Silva no De Rerum Natura, é bem mais exaustiva e vai desde as origens da homeopatia (e o porquê destes métodos) à desconstrução das teorias inacreditáveis usadas actualmente pelos charlatães que a promovem.

Burla com placebos

Este segmento da palestra de Randi dá um exemplo concreto de um desses ‘medicamentos’ homeopáticos:

O absurdo que é alguém considerar que uma substância que é usada como veneno para ratos pode ser usada para curar uma gripe. A diluição de 100X significa que é mais provável ganhar o euromilhões do que encontrar uma só molécula do suposto princípio activo. Se isto evita riscos de envenenamento, não deixa de ser uma fraude vender água destilada a um preço 70% acima da média para um antigripal.

É simplesmente desonesto que existam médicos a vender placebos (na melhor das hipóteses) como se tivessem algum poder curativo. Medicina há essencialmente só uma. A que submete qualquer proposta de cura ao método científico. As soluções homeopáticas são perfeitamente passíveis de serem submetidas a ensaios clínicos, e em nenhum foi demonstrado que surtissem qualquer efeito. Usar a credibilidade da sua formação em medicina para afirmar o poder curativo de métodos que desafiam a química, a física, a lógica e o bom senso, e lucrar com isso, tem para mim todos os ingredientes de uma burla. Resta esperar que o “desprezo” e os “comentários pouco abonatórios” referidos no artigo voltem a atormentar estes médicos.