Huffington Post? Oi? Afinal cura-se a gripe com beijinhos?

Ainda não consegui digerir este… artigo… de Marianne Williamson no Huffington Post (via Irtiqa). Chama-se Pray Away the Swine Flu. Aqui vai:

«(…) So don’t be fooled when it comes to this conversation about the swine flu. This flu wasn’t created on the level of the body, because no disease is. It was created on the level of the mind, and it is there that we will root it out at the causal level. (…)»

Desengane-se quem pensava que no “nível causal” de uma gripe estava um vírus. A verdadeira causa é…

«(…) It is a basic truism of spiritual philosophy that, as it is written in A Course in Miracles, “all thought creates form on some level.” You get enough people agreeing in consciousness that Mexico is a dangerous place, and that dangerous thought will make it so. (…)»

Pois. E esqueçam o tamiflu:

«(…) The Western allopathic medical community is doing everything it can to treat the disease on the external planes, and of course we’re grateful for that. But each and every one of us have work to do on the internal planes, to transform the disease on the level of cause as well as ameliorate whatever effects it has already produced.

l) Pray it away. Just pray it away, asking God as you understand Him, the Divine Physician, Jesus or whatever other form of divine imagery works for you. Simply ask that it be removed from our midst.

2) Send love to Mexico. Between what’s actually been happening there with the drug wars, plus all the “Mexico is dangerous” thoughts we’ve loaded onto it over the last several weeks, it needs a major dose of love – the most powerful medicine of all – to dissolve the fear thoughts that have produced this flu.

Do your part. This thing can be turned around right now, and sent back to the nothingness from whence it came.(…)»

All you need is love. Cheguei a considerar a hipótese de isto ser sarcástico. Assim a gozar com O Segredo e o A Course in Miracles, que são referidos no artigo. E também com a homeopatia: “allopathic” é um termo perjorativo usado por homeopatas para se referirem à medicina a sério. Tenho muitas vezes alguma dificuldade em distinguir quem fala a sério e quem está a gozar nestas coisas da fé. Este monte de balelas new new age foi um desses casos. Logo pela forma como começava (a seguir à reza):

«(…) According to Martin Luther King, Jr. there is a power in us more powerful than the power of bullets.
King knew that that power was the power of the Spirit. (…)»

Se Martin Luther King sabia que o “poder do Espírito” tinha o poder de parar balas (literalmente), é estranho que não o tenha usado para, por exemplo, parar a bala que o matou (pelo menos no “plano externo” e “ao nível do corpo”). Transformar a afirmação metafórica de Luther King numa ridícula defesa de poderes mágicos da mente tinha todos os ingredientes de uma sátira. Uma forma de demonstrar que o poder do pensamento pode alterar muito o mundo, apenas se entre o pensamento e a alteração acontecer uma coisa chamada acção (e mesmo aí com os devidos limites). Para além de fazer lembrar uma das influências deste movimento: o Cristianismo Gnóstico, que defende que o mundo real é irreal – uma criação de um falso deus para aprisionar os humanos no sofrimento. Uma amiga chamava-lhe muito adequadamente Cristianismo Matrix, e nada soa mais a Matrix que parar balas com a força do pensamento.

Visto num site obscuro não traria dúvidas, mas no Huffington Post… onde escrevem Brian Williams e Michael Shermer… Tive de ir ao site da dita cuja, e ver que dá palestras com Deepak Chopra, é autora de livros como The Age of Miracles, Emma and Mommy Talk to God, e do CD-duplo Meditations for a Miraculous Life. Ela acredita mesmo nestas coisas, ou pelo menos farta-se de vendê-las. E parece que numa votação do público na Newsweek esteve entre os “50 baby boomers mais influentes”. Visto ter o apio da Oprah, isso não espanta muito.

O resto desta revelação iluminada pode ser visionado por apenas $14,95. Substituindo a palavra energia por magia é mais fácil perceber o que ela está a dizer. E há o «We look at the drama of the world, and we attach ourselves to it. We believe in it, more than we should.»  Acho que o mais reles nesta religião é a forma como os crentes são aliciados a não reconhecer o sofrimento dos outros para ‘não o aumentar’. Basta ter pensamentos positivos, comer muita fibra e ter atenção ao colesterol. E acreditar nos poderes divinos da mente. Cambada de narcisistas. Escusado será dizer que tipo de pensamentos estou a ter; só gostava que isto funcionasse de vez em quando.

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