Monthly Archives: Junho 2009

Fairy Tales (Hypernova)

Hypernova, uma Banda de Teerão radicada nos EUA desde 2007. Do álbum Through The Chaos de 2008. Segundo a wikipedia:

«Like many other Iranian rock bands, the group was formed in the wake of president Khatami‘s relaxed stance on cultural policies in Iran in the late 1990s and the early decade of the 21st century. Arguably, Hypernova is at the forefront of the Iranian “rock” movement, recently garnering the most attention and press coverage. This is not just due to the novelty of them being a rock band from Iran, but because they are being recognized as a solid rock band, with accomplished musicians that produce well-written songs.»

A música até é orelhuda, mas não dá para abstrair do país de origem. Dá-lhe uma aura subversiva que é sempre bem vinda.

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Revolução iraniana?

Isfahan

Não sei se lhe quero atribuir o estatuto de revolução, mas a verdade é que os eventos decorrentes das eleições de dia 11 parecem ter dificuldade em cingir-se à categoria de protestos. As manifestações prosseguem, apesar da sua ilegalização, das prisões e até das mortes. Os familiares de pessoal da embaixada britânica estão a deixar o Irão.  Foi noticiado que o governo iraniano já está em falta num compromisso com países do G8, o que revela a sua insegurança.

Fraude

«(…)There is no chance for voters to register their opposition to the theocratic system or tell the ayatollahs to go back to the mosques. The candidates have been carefully screened to exclude anyone opposed to the ruling clerical establishment; each is part of the Islamic Revolution’s old guard.
Nor is it likely that the votes will be fairly counted; indeed most analysts concluded that the 2005 election was manipulated to produce Mahmoud Ahmadinejad’s presidential victory. Vote destruction and ballot stuffing are easy in a hidden process controlled by the Interior Ministry. And if all else fails, the 12-man Guardian Council has the power to throw out the results in districts where there were “problems” — problems like a reformist victory.
(…)» Elliot Abrams – Lebanon’s Triumph, Iran’s Travesti, op-ed no NYT 11/Jun/2009

Este editorial do dia das eleições lembrava que a euforia verde não garantia nada no Irão. Tudo indica que terá ocorrido de facto uma fraude eleitoral.

A vitória tão folgada (63%) do actual presidente levanta à partida suspeitas. As sondagens davam vitória a Mousavi, que mesmo assim necessitaria de uma segunda volta. Segundo vários relatos de jornalistas, a oposição a Ahmadinejad era avassaladora, não só nas cidades como também no Irão rural. No país com dois terços do eleitorado abaixo dos 30 anos não era de esperar um voto a favor dos mais conservadores.

Walter Mebane, professor dos departamentos de Ciências Políticas e de Estatística da Universidade de Michigan, analisou o caso comparando os resultados discriminados das eleições de 2005 e 2009. Entre as conclusões do relatório que elaborou pode ler-se:

«(…) In general, combining the first-stage 2005 and 2009 data conveys
the impression that while natural political processes significantly contributed to the election
outcome, outcomes in many towns were produced by very different processes. The natu-
ral processes in 2009 have Ahmadinejad tending to do best in towns where his support in
2005 was highest and tending to do worst in towns where turnout surged the most. But
in more than half of the towns where comparisons to the first-stage 2005 results are feasi-
ble, Ahmadinejad’s vote counts are not at all or only poorly described by the naturalistic
model. Much more often than not, these poorly modeled observations have vote counts
for Ahmadinejad that are greater than the naturalistic model would imply
. While it is not
possible given only the current data to say for sure whether this reflects natural complexity
in the political processes or artificial manipulations, the numerous outliers comport more
with the idea that there was widespread fraud than with the idea that all the departures
from the model are benign.
»

Recentemente o Conselho de Guardiães admitiu que em cerca de 50 cidades houve mais votos que eleitores. Estranhamente terão achado que isto ajudaria a afastar a ideia de fraude, por Mousavi ter dito que eram 170 as cidades com esta irregularidade.

Junte-se a isto as suspeitas que já existiam nas eleições anteriores, quando Ahmedinejad foi eleito pela primeira vez:

«”I was personally witness to interference of Guardians Council monitors’ serious interference in voting stations where I was commissioned to survey the sound process of election,” Ali Mirbaqeri, the managing director of the Interior Ministry’s Majlis Affairs, told IRNA.» (CNN)

Ali Mirbaqeri terá sido preso por protestar com o que achou ser uma fraude eleitoral. Nestas eleições voltaram a haver afirmações semelhantes por parte de funcionários do Ministério do Interior, e fala-se inclusivamente de uma fatwa permitindo a falsificação de votos emitida por Mesbah Yazdi. Yazdi é o mentor de Ahmadinejad e principal figura da ala mais radical (ainda mais que os radicais) do Irão, fortemente ligada com os Pasdaran.

Perante tudo isto sinto-me incomodado cada vez que vejo alguém propor que não terá havido fraude, que quem protesta são as elites e que o eleitorado rural (35%) deu a vitória a Ahmedinejad. Num op-ed do New York Times um estudante de Teerão exprime também o seu desagrado:

«(…) To our great dismay, what we find is that in important sectors of the American press a disturbing counternarrative is emerging: That perhaps this election wasn’t a fraud after all. That the United States shouldn’t rush in with complaints of democracy denied, and that perhaps Mahmoud Ahmadinejad is the president the Iranian people truly want (and, by extension, deserve).

Do not believe it. Those so-called experts warning Americans to be leery of claims of fraud by the opposition are basing their arguments on an outdated understanding of Iran that has little to do with the reality of what we here are experiencing during these singular days. (…)»

Revolução ou uma mera mudança?

O outro Irão, aquele que sente o sufoco da teocracia e não se revê nos ayatollahs, faz-se ouvir. É o Irão do álcool contrabandeado, rock clandestino e dos prazeres culpados da intimidade. Ou talvez mais o de quem apenas quer uma vida menos sufocada. É difícil saber onde está o centro de massa dos protestos, ou sequer se há massa crítica para uma revolução que traga uma democracia a sério. Uma coisa é certa: desde a revolução de 1979 que não se via tanta gente nas ruas nem uma intenção tão clara de induzir a mudança.

Os protestos face à fraude eleitoral são o culminar de uma onda de contestação que já se fazia sentir há algum tempo e teve manifestações pontuais. A 17 de Junho de 2005, pouco antes das últimas eleições presidenciais, houve um protesto de mulheres frente à Universidade de Teerão, algo inédito desde 1979, reivindicando o fim da descriminação:

Mais recentemente, em Dezembro de 2007, manifestações estudantis na Universidade de Teerão exigiam uma mudança de rumo no país:

Protestos na universidade de Teerão, Dezembro de 2007

Resta saber em que vai isto desembocar. Mousavi não inspira a mínima confiança. Este post da Ana Cássia Rebelo sobre Mousavi diz tudo o que tenho a dizer neste aspecto:

«(…) Dois anos depois da revolução, foi nomeado primeiro-ministro por Khomeini. Foi responsável, como presidente do Conselho da Revolução Cultural, pelo fecho de universidades, por uma revisão constitucional que permitiu a concentração de todos os poderes no líder supremo. Na época, conduziu uma política económica estatizante com declarada inspiração soviética. Foi responsável pela perseguição e morte de muitos presos políticos. Consta que apoiou a fatwa de Khomeini contra Salman Rushdie. No ano de 1988, quando ainda era primeiro-ministro, foram ordenadas execuções maciças de milhares de opositores do regime. Foram enterrados em valas comuns e convenientemente esquecidos pelo Irão e pela comunidade internacional. Não se sabe o número exacto de quantos iranianos morreram no Verão de 1988. A Amnistia Internacional aponta entre 4000 e 5000 mortos.(…)

(…) Hoje defende uma economia de mercado e mais liberdade. Porém, bem vistas as coisas, só pode ser considerado moderado e reformista quando comparado com o ultraconservador Ahmadinejad. O que faz toda a diferença. Eu também posso ser considerada um torpedo de mulher se me compararem com a Susan Boyle. (…)»

Quero só acrescentar que Mousavi é um ávido defensor do programa nuclear iraniano. Graças à pré-selecção do Conselho de Guardiães sobre os cerca de 500 candidatos iniciais (ref), entre os quais muitas mulheres, basicamente restou aos iranianos escolher entre quatro baldes de merda. Mousavi e Karroubi são os que cheiram menos mal. A teocracia de Ahmadinejad é muito mais sufocante que a teocracia que Mousavi quer.

Agora que a questão saiu para fora do limitado sistema eleitoral iraniano resta saber o que querem as pessoas e até onde estão dispostas a ir. Se estivermos a falar de ter alguns direitos humanos, Mousavi é uma via possível e talvez a que implique menos violência. Se estivermos a falar de democracia tem qualquer coisa de Goldstein.

Há esperança?

Achei interessante este post de Michael Hirsh:

«Now that they’ve had their bloody crackdown, the next step for Iran’s mullahs is economic reform. That, after all, is the “China model” they’ve been talking about in Tehran for years. If we give the people a taste of the good life, it will take their minds off political freedom and we’ll get to keep our authoritarian regime. The problem is, there is very little evidence that Ayatollah Ali Khamenei and Mahmoud Ahmadinejad have any clue how to reform and open up their economy the way Beijing’s mandarins did after 1989. Or that they want to even try. (…)»

Já Mousavi parece mais que disposto a seguir essa via. Ainda acalento a esperança de isto resultar numa revolução que eleve o Irão a democracia, e não apenas uma versão mais branda da teocracia (ou a mesma linha dura). Claro que aqui há que ter reservas.

«The government’s strategy appears to be Tiananmen in slow motion: the application of low-level but steady violence in the hopes that the protesters will eventually give up. There are some signs that the strategy is working. Protests continued Saturday night and Sunday, but the numbers are down. (…)

The Iranian government is dominated by a generation that remembers not only the Revolution of 1979, but more immediately the Iran-Iraq War with its million Iranian dead. The basijis who are doing the skull-cracking and shooting now are the same force that launched suicidal human wave attacks against much better (American) armed Iraqi forces in the marshes. In other words, this is a regime that has no trouble accepting casualties and has the forces available that are ready to both inflict and absorb much, much more. If one must have a Chinese analogy, we might be seeing the beginning of an Iranian Cultural Revolution rather than the next Velvet Revolution.»

Resta-me acrescentar que uma parte significativa das ondas humanas enviadas sobre campos minados  eram menores desarmados encarregues de encontrar uma arma no campo de batalha. Mesmo que haja vontade na população de levar a mudança mais longe (há pelo menos uns laivos disto), se for posta em causa a revolução islâmica a repressão terá outra magnitude. Não me esqueço da última vez que pensei estar a ver uma revolução, nem da forma inglória como acabou.

Mas era bom que isto resultasse em algo mais. Podia ser o início de uma nova vaga.


A campanha póstuma II – desabafos

Parem com isso, a sério.

[parte de uma conversa há duas semanas]

A: Esta campanha tem sido um nojo…

B: Não a achei muito diferente das outras.

A: Precisamente.

A campanha para as europeias foi péssima, se é que se pode dizer que existiu. Tresandou por todos os poros a prelúdio das legislativas. Para dizer a verdade nem sei bem o que pertenceu à pré-campanha em curso para as legislativas e o que era efectivamente destinado às europeias. Não sei quando começou esta obsessão com os ‘cartões amarelos’ (que já foram promovidos a vermelhos), mas é algo incrivelmente estúpido num ano em que vamos ter mais duas eleições. São só mais uns meses para as legislativas, e grande parte da espera será em silly season (passa num instante!). Há assuntos nacionais que podem ser transportados para a Europa, mas levar as coisas a este extremo é ridículo. Fora esta particularidade das europeias, as campanhas vagas merecem o mesmo comentário que quaisquer outras: relaxem no pathos e apostem um bocadinho no logos, se faz favor. Houve muita parvoíce e os cartazes foram penosamente exemplificativos. Prometo que as minhas críticas serão tão edificantes quanto a  campanha.

PSD

O PSD foi quem mais abertamente prosseguiu a estratégia de fusão entre legislativas e europeias, integrando a campanha para as europeias na ‘política de verdade’. O cartaz inicial da campanha foi muito criticado pelo ar tristonho. Pessoalmente, com o menino guerreiro, o alto astral e os cartazes dos putos de olhos dengosos bem frescos na memória, taciturno foi uma lufada de ar fresco. Já o cartaz da linha SOS Suicídio da Manuela (“não desista, somos todos precisos”) foi levar o conceito um pouco longe demais.

Paulo Rangel entrou em cena como candidato europeu e prometeu interpelar mais José Sócrates, o que faz imenso sentido para o parlamento europeu. Nos cartazes assinava por baixo de slogans que não se percebia bem o que queriam dizer, ora exaltando a grande teta europeia ora defendendo as famílias portuguesas contra as famílias políticas. O inesperado resultado de Rangel apenas prova que o PSD decidiu exilar o seu maior trunfo para as legislativas no parlamento europeu. Resta por cá a dupla improvável Ferreira Leite e Santana Lopes para lutar pelas próximas eleições.

A campanha prossegue e eu ainda não percebi o que é isso da ‘política de verdade’. Deve ser algo do género de o Rangel ter votado a favor das mudanças no financiamento dos partidos quando de verdade estava contra, como veio dizer depois. Ou a Ferreira Leite que tanto criticava Santana Lopes, quando de verdade achava que era o homem certo para Lisboa.

PS

O PS entrou com o “Nós, Europeus”. Nós, europeus, temos lapsos de memória: a troca da data da assinatura com a data da entrada foi infeliz; atirar as culpas para a gráfica foi muito difícil de compreender. Foi a conjuntura a dar cabo do cartaz. Mesmo sem a falha o slogan é dolorosamente vago. “Vocês, europeus” responde o eleitor cuja opinião não conta na aprovação do tratado. Em retrospectiva, a escolha de Vital Moreira só pede uma pergunta: em que estava o PS a pensar?

A única coisa que me ocorre é chatear os anarquistas. Escreviam nas paredes “Avô Cantigas ao poder!”, nas europeias isso transformou-se numa posição política. De resto o PS achou que isto iria ser um passeio de domingo. Que campanha bonita, foi ver Vital a andar de caiaque, e mais tarde a visitar os amiguinhos dos tempos de escola. PS: já não estamos no tempo do governo de Santana, em que tudo o que era preciso fazer para ganhar umas eleições com maioria absoluta era, muito simplesmente, não ser o Santana Lopes. Subestimaram Rangel e deram-lhe força com o comentário infeliz da papa Maizena. Uma parca carreira política é encarada como uma bênção pelo eleitorado, a ‘classe política’ tradicional não está nas boas graças dos portugueses caso não tenham reparado.

Depois há também a brilhante ideia de acumular nomes na lista das europeias e nas autárquicas, e depois justificar que iam só lá picar o ponto e voltavam. Brinca-se com o eleitorado até certo ponto, espero que alguém tenha aprendido alguma coisa com os resultados. Houve ainda o lançar do imposto europeu para a discussão sem moldes concretos. Nada como ouvir falar na criação de um imposto para motivar um eleitor. Para finalizar, Vital veio gesticular contra a “roubalheira” no BPN. Um valente tiro no pé, não por causa do Freeport como alguns invocaram, mas porque remete para a pergunta: porque decidiu um determinado partido afundar 1,5% do PIB nessa roubalheira sem relevância para a economia? Não é o tipo de atitude que se quer exportar para a Europa.

Os pequenos

Isto já vai longo e não vai haver tanto espaço para os partidos pequenos. Quanto à CDU, aka o PCP mais o gajo dos verdes,  continuam no costume e o slogan foi genérico o suficiente para servir todas as campanhas. “Sim é possível – uma vida melhor”, e lá continuam eles a perseguir a utopia comunista, arrebanhando os descontentes que não se importem com a falta de ideias económicas sustentáveis. Recentemente houve quem no PCP visse na efeméride de Tiananmen uma tentativa de denegrir o comunismo em plena campanha eleitoral, em claro ataque ao PCP. É bom ficar a saber que mantêm essa visão de uma vida melhor.

O BE insistiu no previsível “Porreiro para quem, pá”. Já desde a história do cherne que não esmifravam tanto um soundbite. De resto o maior pecado foi a insistência em tentar competir com o PCP quando se deviam focar mais no centro-esquerda. Nota positiva no entanto para a série fantasbloco. Entre parvoíce intencional e parvoíce involuntária prefiro sempre a primeira, e há o bónus do valor cinematográfico da coisa.

O CDS foi o campeão em campanhas parvas. “Não andamos a brincar aos políticos”. “Não andamos a brincar com os agricultores”. Eles não brincam, e nada diz mais seriedade do que uma pose à Mr T. Descobrimos ainda que querem “dar tudo por Portugal”, demarcando-se claramente de Rangel (por exemplo) que apenas assina por baixo pelo “interesse nacional”. Acabada a campanha e passada aquela inicial euforia de estar vivo, vieram com a ideia magnífica de censurar sondagens. Algo inaudito desde Santana Lopes, que mesmo assim acho que não foi tão longe. A seguir apostaram numa moção de censura a escassos meses das legislativas e contra um governo com maioria absoluta. Não sei se aguento tanta seriedade, ainda bem que não estão a brincar aos políticos.

Os micropartidos

Duas estreias nos micropartidos, e sendo com centristas é à partida positivo. O MEP destacou-se coms os seus valores católicos e ideias para a economia a puxar a à esquerda, nem sei porque ninguém se lembrou disso antes. Não deve fazer nada de bom ao país, mas tem potencial para vender que nem bolinhos quentes. O MMS tem falhas estruturais importantes: nome e símbolo. À primeira vista parece sempre um anúncio da tmn. Também podiam mostrar ideias concretas, mas é só uma sugestão. A meritocracia é algo bastante unânime, o diabo está nos detalhes.

Quanto aos restantes restantes partidos, assisti à campanha televisiva exclusivamente via youtube, o que significa ignorar 90% dos tempos de antena. Por acidente acabei por olhar para um cartaz do MPT. Parece que com a conversão do PP e afrouxamento do PCP são os eurocépticos por excelência. De resto, tal como os outros, não tive de ouvi-los e obrigado por isso. Para os micropartidos mais antigos: está na altura de morrer. O eleitorado já deixou claro que não precisa da vossa laia e o boletim de voto começa a ficar atulhado.

A campanha póstuma I – a abstenção

«Não percebo o compromisso rígido com a impotência.» – Lord Kerr of Kinlochard [ref]

Dita a propósito de outro assunto, a colorida expressão resume bem a postura de muitos face ao poder político. Dizer mal do poder político é um desporto nacional, mas ai de quem se atreva a fazer algo que possa eventualmente ser confundido com uma acção concreta: parece que é um colaboracionista. O abstencionista mantém a pureza ideológica virginal de quem não se comprometeu minimamente com uma opção, não estando assim constrangido no desígnio da maledicência.

Ainda hoje alguém que conheço confessou-se como abstencionista crónico: perto dos 30 anos de idade e nunca viu de perto uma mesa de voto. O pior é que argumentava que a abstenção devia contar como voto em branco. “Levanta o rabo do sofá e vai votar em branco!” foi a resposta unânime (das outras duas pessoas presentes, mas unânime). Já me incomoda o suficiente quando as televisões enfiam abstenção, brancos e nulos no mesmo saco. Ter isso feito por decreto era o cúmulo. Ouvi-lo a criticar o voto do outro elemento da conversa também não me gera simpatia.

Quem vota em branco deixa claro que até queria votar mas não concorda minimamente com nenhuma das alternativas. O voto nulo é tipicamente uma versão mais paranóica do voto em branco, em que se impede que alguém ponha lá uma cruzinha quando mais ninguém estiver a olhar. Nenhum destes dois é a minha escolha, mas são participações democráticas viáveis embora os seus efeitos directos sejam equivalentes à abstenção. Namoro há algum tempo a ideia de o voto em branco eleger lugares vazios, e gostei de vê-la aparecer recentemente. Não vamos confundir isto com quem pura e simplesmente não se dá ao trabalho, se viu impedido de comparecer por alguma razão, ou está apenas morto (o número de recenseados é suspeito). Não posso ouvir coisas destas:

«(…) uma amiga, com pouco mais de 30 anos, perguntara-me há dois dias: “Oh, Ana Paula, que taxa de abstenção é que obriga a anular as eleições?“… sorri… e respondi ao seu rosto surpreendido: “Nenhuma, Inês!“… Pois é… nenhuma!… e deveria talvez existir… não para impôr o voto aos eleitores mas, para obrigar os partidos a respeitarem o eleitorado, realizando campanhas esclarecidas e verdadeiras sobre o que, efectivamente, está em causa!(…) » – Ana Paula Fitas

A brincar ou não, que ninguém pense por um segundo em tirar-me o voto por causa de quem não é capaz de tirar uns minutos à sua atarefada agenda de domingo. Eu tenho as mesmas queixas, mas tento materializá-las de alguma forma (por mais inconsequente que seja). Isto é só uma forma mais extrema da ideia bastante disseminada de encarar a abstenção como um protesto. Um protesto é algum tipo de acção, e “não levantar o rabo” não é uma acção. É apatia. A apatia pode por sua vez ter alguma leitura política, mas não me interessa nem acho que mereça o meu interesse. Do outro lado do espectro de opiniões, também não concordo com isto:

«(…) O abstencionista é apenas um elemento anti-social, um oportunista que quer os benefícios da vida em sociedade e da democracia mas não estar disposto a mexer um dedo para dar a sua contribuição. O abstencionista não só cospe na cidadania como ainda por cima se orgulha disso.
Abster-se é tão mau como estacionar em segunda fila, como deitar cascas de laranja pela janela, como passar à frente na bicha do cinema, como meter cunhas na repartição, como violar a faixa bus, como desrespeitar o semáforo vermelho, como copiar nos exames, como urinar na piscina.
Terá o abstencionista razões para se chocar se alguém lhe chamar parasita?» – João Pinto e Castro

Concordo plenamente com o início (não transcrito), mas de resto eu até gosto do abstencionista. A não ser que esteja secretamente a planear marchar sobre Bruxelas ou São Bento, o abstencionista é inócuo. Quem estaciona em segunda fila chateia muita gente. Todas as acções descritas prejudicam os outros (e são acções). A abstenção não é nada disso. Votar é um direito e não um dever, ou pelo menos é assim que vejo as coisas. Longe de mim privar os outros de direitos, mas é legítimo abdicar deles. E há qualquer coisa de altruísta na abstenção.

A única coisa que me chateou no meu amigo abstencionista foi saber que se tivesse votado provavelmente não seria no PPE. De resto agradeço o gesto, como lhe expliquei. Quando só votam metade dos inscritos, o voto passa a valer o dobro. Se há quem em democracia prefira reduzir-se a arraia-miúda e delegar a tarefa para os outros, por mim tudo bem. Os eleitores tornam-se assim uma primeira camada de representatividade, elegendo o parlamento que por sua vez lá escolhe o presidente da comissão. Sinto-me até ligeiramente lisonjeado com o cargo.

Peço apenas aos abstencionistas que sejam coerentes com a sua condição auto-imposta de casta mais baixa da democracia: não se queixem; especialmente do voto dos outros.

Tiananmen

Há vinte anos atrás, 5 de Junho de 1989.

Tank Man

Recomendo no Obscene Desserts os links para a história da fotografia e para um documentário da PBS sobre o misterioso homem que fez frente à coluna de tanques, saindo apenas da sua posição quando o blindado tentava contorná-lo, os eventos e a evolução da China desde então.

Não se sabe quem era ou o que foi feito do rebelde desconhecido. Possivelmente um trabalhador de Pequim indignado com o massacre do dia anterior. Possivelmente executado depois de ser levado pela polícia. Ou talvez uma outra história qualquer. No documentário alguém afirma: “Ele queria mudar a China. Mas o que ele fez foi ajudar a mudar a União Soviética”, referindo-se a como pessoas no antigo bloco soviético o o invocaram como inspiração.

O fim do regime soviético

Ao ano de 1989 não faltam razões para ficar na História.  Em Fevereiro o governo comunista da Hungria anunciara que iria seguir a via pluripartidária como resposta a manifestações populares. Na Polónia, o movimento Solidariedade entrava em negociações com o regime comunista. No dia anterior à fotografia, enquanto o exército chinês disparava sobre a multidão, o Solidariedade alcançava uma vitória decisiva. Era o início da democratização da Europa de Leste.

Em Agosto, nas então repúblicas soviéticas da Estónia, Letónia e Lituânia, dois milhões de pessoas formam uma corrente humana contra o regime comunista. No fim de Outubro o partido comunista da Hungria reinventa-se como partido socialista, abre o país à economia de mercado e marca eleições livres para o ano seguinte.

Em Novembro, o grande marco: o muro de Berlin é deitado abaixo com grande pompa. Na Bulgária chega ao fim o domínio comunista. Na Checoslováquia, Outubro fechara com uma carga policial sobre manifestantes pela democracia nos festejos da independência do país; em Novembro o regime cai na Revolução de Veludo. Na Roménia, em Dezembro, uma revolução violenta chega ao fim com a imagem dos cadáveres cravejados de balas do ditador e da mulher.

Em suma, pacificamente ou com mais ou menos sangue, 1989 foi o ano do fim das ditadura comunistas. Nos dois anos que se seguiram o mapa da Europa de Leste foi redesenhado e mudou de cor. Nas duas décadas que se seguiram, o caminho foi em direcção a uma democracia cada vez mais digna desse nome. Polónia, Estónia, Letónia, Lituânia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Bulgária e Roménia são hoje orgulhosos membros da União Europeia. Alguns democracias prósperas, alguns afligidos por alguns dos mesmos males que a Rússia aquando da sua transição, a verdade é que o caminho parece estar traçado para os integrados na UE.

E a China?

Para o país da revolução que gerou o ícone que compete com a queda do muro como imagem do ano, a democracia não há de chegar tão cedo. Alimentado pelo galopar da economia nos últimos anos, o regime prosperou. Experiências com o capitalismo atraíram empresas estrangeiras e o seu know-how, e respondeu com investimento no ocidente que alterou a balança do poder negocial; a aproximação a estados pouco recomendáveis garante uma importante fonte de recursos, mercados com pouca concorrência e mais influência sobre eles que qualquer potência (assumindo por vezes o papel de mediador internacional).

O ano passado estiveram na ribalta, numa grande oportunidade de propaganda que ajudou a cimentar a coesão interna, borrifando-se alegremente para as recomendações ingénuas do comité olímpico quanto aos direitos humanos. Apesar dos confortos materiais decorrentes da estonteante subida do nível de vida de alguns sectores da população, continuam os delitos de opinião, religião ou orientação sexual. E brutal repressão para os excluídos do sistema, para além das condições de trabalho abomináveis. Sete dias por semana, treze horas por dia (se não forem obrigados a trabalhar noite fora). Tudo por menos de 100 euros por mês, recebidos anualmente. Quando os recebem. Dezenas de milhar de manifestações todos os anos, sistematicamente reprimidas sem nada que chegue perto da visibilidade que teve a iniciada por estudantes há 20 anos atrás.

Há o controlo estatal da informação. É o regime que abraçou a tarefa megalómana de censurar a internet, estranhamente com um sucesso razoável. No documentário, é mostrada a fotografia a quatro estudantes universitários de Pequim. Nenhum deles a reconhece. “Parece uma parada ou coisa parecida”. “Não sei dizer nada sobre isto, não há contexto”.  “É uma obra de arte? Inventaram isto?”

Aparentemente, a ditadura vai bem e recomenda-se.

A igualdade nada retira

«(…) Ninguém está a exigir que alguma igreja tenha de santificar casamentos de casais do mesmo sexo.(…)
Mas os opositores ao casamento gay têm razão numa coisa: o Casamento é um importante marco social. Quando o divórcio foi legalizado, quando a contracepção foi encarada como uma escolha privada dentro do casamento, quando às mulheres casadas foi dado o direito ao seu próprio crédito e herança, e quando os casamentos inter-raciais foram permitidos, o casamento foi a fornalha onde as mudanças na sociedade foram forjadas. Em cada vez, o casamento “tradicional” foi visto como estando sob ataque. (…)» — Protect all marriages, Editorial do Boston Globe em Outubro de 2005

Recomendo a leitura do editorial, especialmente para quem achar as comparações demasiado abusivas ou que o assunto só interessa a homossexuais.  O Movimento pela igualdade no acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, lançado dia 31 de Maio, contava já com quatro mil assinaturas ao fim do quarto dia. Da última vez que espreitei andava pelas 4500 e espero que continue por aí fora. A minha opinião não anda muito longe disto:

Mesmo para quem tem fortes crenças religiosas a questão devia ser simples. O que se segue foi escrito por Colin Johnson,  bispo da diocese anglicana de Toronto, aquando do acórdão do STJ Canadiano que permitiu ao governo legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2004:

«(…) O casamento é uma instituição civil e, para alguns, religiosa. Estes dois aspectos não são idênticos. (…)

A opinião de hoje refere-se principalmente à definição civil de casamento, e também reafirma a protecção para as convicções religiosas que suportam a segunda.

Na lei civil, o casamento é um contrato. Nós apoiamos o desejo e, cremos, obrigação do governo de manter a igualdade de todas as pessoas perante a lei. Direitos sobre propriedade, heranças, acesso a cuidados e apoio pessoal, são assuntos de justiça, e devem estar ao alcance de todos de uma forma justa e equitativa. (…)»  [ref]

Nem mais.

A escatologia de Newton

Sir Isaac Newton, o expoente máximo da genialidade segundo a escala de Landau. Para além de figura central da revolução científica, workaholic incansável dotado de um génio intuitivo, o pai da Física é também conhecido pelo seu lado puritano e arrogância indisfarçada. Não é ir longe demais dizer que era uma criaturinha execrável nalguns aspectos. Penso que este excerto de uma nota biográfica escrita por Stephen Hawking sobre o seu antecessor na cátedra de matemática em Cambridge é exemplificativo:
(…) Embora agora saibamos que Newton descobriu o cálculo antes de Leibniz, publicou o seu trabalho muito mais tarde. Começou assim uma enorme discussão sobre quem tinha sido o primeiro, com cientistas a defenderem vigorosamente os dois oponentes. É notável, porém, que a maioria dos artigos tivesse sido escrita por ele mesmo, e apenas publicada em nome dos amigos! Com o aumento da discussão, Leibniz cometeu o erro de apelar para a Royal Society para decidir a disputa. Newton como presidente, nomeou uma comissão «imparcial» para investigar, formada, por coincidência, apenas por amigos seus! Mas isso não foi tudo: Newton escreveu depois o relatório da comissão e fez com que a Royal Society o publicasse, acusando oficialmente Lebniz de plágio. Como ainda não estava satisfeito, escreveu uma crítica anónima do relatório na publicação privada da Royal Society. Após a morte de Leibniz, diz-se que Newton declarou que tinha ficado radiante «por ter desfeito o coração a Leibniz».
No entanto, no plano humano este episódio empalidece perante a imagem de um zelota que aparentemente se regozija com as descrições gráficas de torturas particularmente cruéis aplicadas a freiras católicas. Mesmo visto à luz do espírito da via puritana do protestantismo da altura, este moralismo exacerbado ao ponto da degeneração dos valores mais elementares não deixa de ser perturbadoramente caracterizador.
Segundo este documentário (transmitido na BBCx) o lado obscurantista tinha um domínio quase absoluto sobre a vida de Newton. O que mais me surpreende é o Principia Mathematica aparecer como um mero projecto lateral numa vida dedicada à alquimia e deambulações teológicas:
Até certo ponto é possível conciliar algum fervor religioso com a dedicação à ciência, e até ver não só traços de personalidade comuns a estes dois eixos como também um feedback positivo entre eles. Desenvolver o cálculo à velocidade a que este é leccionado hoje em dia não requer apenas génio, pede também uma disciplina rígida. Esta pode encontrar um aliado no forte sentido de propósito, restrições à conduta e líbido reprimida que a religião oferece.
Mas
[vídeo]
Há um paradoxo em alguém tão obcecado em ver Deus em tudo e que acabou por tanto contribuir para retirá-lo da equação. Uma referência maior do racionalismo tão embrenhada no obscurantismo.
Durante o documentário alguém afirma que ele não [rever esta parte] foi [só] o primeiro pensador da nova era mas [antes/também] o último da velha. Nesse aspecto lembra-me vagamente Pedro Nunes, também considerado um filósofo entalado entre dois mundos, matemático e astrólogo. Tendo a discordar um pouco neste ponto, e há uma frase célebre de Newton que é referida no documentário e merece ser reiterada:
[«aristóteles..platão..verdade»]
Penso que antes há que relembrar a ténue linha entre o génio e o louco: de uma forma simplista, cérebros com uma capacidade anormal de detectar padrões tendem a vê-los também onde não existem. Mais uma razão porque penso que o paradoxo seja assim tão grande aqui. O que separa a glória do génio das excentricidades de um louco é tipicamente o grau de sucesso.
[pósv]

Sir Isaac Newton. Para além de figura central da revolução científica, workaholic incansável e génio intuitivo, o pai da Física é também conhecido pelo seu lado puritano e arrogância indisfarçada. Não é ir longe demais dizer que era uma criaturinha execrável nalguns aspectos. Penso que este excerto de uma nota biográfica escrita por Stephen Hawking sobre o seu antecessor na cátedra de matemática em Cambridge é exemplificativo:

(…) Embora agora saibamos que Newton descobriu o cálculo antes de Leibniz, publicou o seu trabalho muito mais tarde. Começou assim uma enorme discussão sobre quem tinha sido o primeiro, com cientistas a defenderem vigorosamente os dois oponentes. É notável, porém, que a maioria dos artigos tivesse sido escrita por ele mesmo, e apenas publicada em nome dos amigos! Com o aumento da discussão, Leibniz cometeu o erro de apelar para a Royal Society para decidir a disputa. Newton como presidente, nomeou uma comissão «imparcial» para investigar, formada, por coincidência, apenas por amigos seus! Mas isso não foi tudo: Newton escreveu depois o relatório da comissão e fez com que a Royal Society o publicasse, acusando oficialmente Lebniz de plágio. Como ainda não estava satisfeito, escreveu uma crítica anónima do relatório na publicação privada da Royal Society. Após a morte de Leibniz, diz-se que Newton declarou que tinha ficado radiante «por ter desfeito o coração a Leibniz».

No entanto, no plano humano este episódio empalidece perante a imagem de um zelota que aparentemente se regozija com as descrições gráficas de torturas particularmente cruéis aplicadas a freiras católicas. Mesmo visto à luz do espírito da via puritana do protestantismo da altura, este moralismo exacerbado ao ponto da degeneração dos valores mais elementares não deixa de ser perturbadoramente caracterizador.

Segundo este documentário, Newton – The Dark Heretic, o lado obscurantista tinha um domínio quase absoluto sobre a vida de Newton. O que mais me surpreende é o Principia Mathematica aparecer como um mero projecto lateral numa vida dedicada à alquimia e deambulações teológicas.

Até certo ponto é possível conciliar algum fervor religioso com a dedicação à ciência, e até ver não só traços de personalidade comuns a estes dois eixos como também um feedback positivo entre eles. Desenvolver o cálculo à velocidade a que este é leccionado hoje em dia não requer apenas génio, pede também uma disciplina rígida. Esta pode encontrar um aliado no forte sentido de propósito, restrições à conduta e líbido reprimida que a religião oferece. Mas levado a este extremo torna-se difícil de compreender. O desejo ardente pelo apocalipse que purgasse finalmente a babilónia enfeitiçada pelo anticristo em que julgava viver obriga a questionar a sanidade do pai do cálculo.

Há um paradoxo gritante entre o cientista no topo da escala de genialidade de Landau e o obscurantista obcecado com alquimia e teologia. Espantado com o que lera nos manuscritos de Newton, Keynes acabaria por descrevê-lo como o último astrólogo. Como compreender a antítese?  Penso que antes há que relembrar a ténue linha entre o génio e o louco: de uma forma simplista, cérebros com uma capacidade anormal de detectar padrões tendem a vê-los também onde não existem. O que separa a obra do génio das excentricidades de um louco é tipicamente o grau de sucesso.

A primeira tendência é ver a centelha do génio a perspirar apesar da escuridão opressiva do misticismo.Vejo antes uma genialidade domada pelos formalismos matemáticos e os rigores do método científico. No fundo, o seu génio (ou a causa deste) manifestou-se em todas as áreas que estudou, o que as separa é o objecto e o método. Na alquimia partiu de premissas erradas mas ao submetê-las à experiência acabou eventualmente por tornar-se inegável o beco sem saída a que tinha chegado. Na exegese falha o objecto e o método. Assumindo a bíblia como fonte da verdade suprema e algo puramente interno como a fé e a inspiração divina para guiar a interpretação, acaba-se na melhor das hipóteses com uma eisegese. E não tão poucas vezes isto degenera numa espiral de autoconfirmação dos piores defeitos da mente humana. A demonização do outro é um deles. Descartando qualquer requisito de validação externa, pôde morrer com a certeza de estar certo.

Apocalipse

O que me fez voltar a este documentário foi ter ouvido mais uma referência à próxima data do fim do mundo. Felizmente foi uma referência escarninha, mas fez-me lembrar quando aconteceu o impensável de ver alguém defender, com uma cara séria, que o facto de o calendário dos Maias só funcionar até 2012 pode sugerir o apocalipse. Ainda há três anos tivémos o último fim do mundo (tal como previsto pelo bestseller Bible Code), e já só faltam três anos para o próximo. Devia instituir-se um período de luto entre os fins do mundo.

O documentário entra um pouco na onda ao apresentar o ano de 2060 como uma data do apocalipse meticulosamente calulada por Newton. Na verdade não terá sido bem isso o que ele escreveu:

«It may end later, but I see no reason for its ending sooner (…) This I mention not to assert when the time of the end shall be, but to put a stop to the rash conjectures of fanciful men who are frequently predicting the time of the end, and by doing so bring the sacred prophecies into discredit as often as their predictions fail.» – Isaac Newton [ref]

Amen.