Tiananmen

Há vinte anos atrás, 5 de Junho de 1989.

Tank Man

Recomendo no Obscene Desserts os links para a história da fotografia e para um documentário da PBS sobre o misterioso homem que fez frente à coluna de tanques, saindo apenas da sua posição quando o blindado tentava contorná-lo, os eventos e a evolução da China desde então.

Não se sabe quem era ou o que foi feito do rebelde desconhecido. Possivelmente um trabalhador de Pequim indignado com o massacre do dia anterior. Possivelmente executado depois de ser levado pela polícia. Ou talvez uma outra história qualquer. No documentário alguém afirma: “Ele queria mudar a China. Mas o que ele fez foi ajudar a mudar a União Soviética”, referindo-se a como pessoas no antigo bloco soviético o o invocaram como inspiração.

O fim do regime soviético

Ao ano de 1989 não faltam razões para ficar na História.  Em Fevereiro o governo comunista da Hungria anunciara que iria seguir a via pluripartidária como resposta a manifestações populares. Na Polónia, o movimento Solidariedade entrava em negociações com o regime comunista. No dia anterior à fotografia, enquanto o exército chinês disparava sobre a multidão, o Solidariedade alcançava uma vitória decisiva. Era o início da democratização da Europa de Leste.

Em Agosto, nas então repúblicas soviéticas da Estónia, Letónia e Lituânia, dois milhões de pessoas formam uma corrente humana contra o regime comunista. No fim de Outubro o partido comunista da Hungria reinventa-se como partido socialista, abre o país à economia de mercado e marca eleições livres para o ano seguinte.

Em Novembro, o grande marco: o muro de Berlin é deitado abaixo com grande pompa. Na Bulgária chega ao fim o domínio comunista. Na Checoslováquia, Outubro fechara com uma carga policial sobre manifestantes pela democracia nos festejos da independência do país; em Novembro o regime cai na Revolução de Veludo. Na Roménia, em Dezembro, uma revolução violenta chega ao fim com a imagem dos cadáveres cravejados de balas do ditador e da mulher.

Em suma, pacificamente ou com mais ou menos sangue, 1989 foi o ano do fim das ditadura comunistas. Nos dois anos que se seguiram o mapa da Europa de Leste foi redesenhado e mudou de cor. Nas duas décadas que se seguiram, o caminho foi em direcção a uma democracia cada vez mais digna desse nome. Polónia, Estónia, Letónia, Lituânia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Bulgária e Roménia são hoje orgulhosos membros da União Europeia. Alguns democracias prósperas, alguns afligidos por alguns dos mesmos males que a Rússia aquando da sua transição, a verdade é que o caminho parece estar traçado para os integrados na UE.

E a China?

Para o país da revolução que gerou o ícone que compete com a queda do muro como imagem do ano, a democracia não há de chegar tão cedo. Alimentado pelo galopar da economia nos últimos anos, o regime prosperou. Experiências com o capitalismo atraíram empresas estrangeiras e o seu know-how, e respondeu com investimento no ocidente que alterou a balança do poder negocial; a aproximação a estados pouco recomendáveis garante uma importante fonte de recursos, mercados com pouca concorrência e mais influência sobre eles que qualquer potência (assumindo por vezes o papel de mediador internacional).

O ano passado estiveram na ribalta, numa grande oportunidade de propaganda que ajudou a cimentar a coesão interna, borrifando-se alegremente para as recomendações ingénuas do comité olímpico quanto aos direitos humanos. Apesar dos confortos materiais decorrentes da estonteante subida do nível de vida de alguns sectores da população, continuam os delitos de opinião, religião ou orientação sexual. E brutal repressão para os excluídos do sistema, para além das condições de trabalho abomináveis. Sete dias por semana, treze horas por dia (se não forem obrigados a trabalhar noite fora). Tudo por menos de 100 euros por mês, recebidos anualmente. Quando os recebem. Dezenas de milhar de manifestações todos os anos, sistematicamente reprimidas sem nada que chegue perto da visibilidade que teve a iniciada por estudantes há 20 anos atrás.

Há o controlo estatal da informação. É o regime que abraçou a tarefa megalómana de censurar a internet, estranhamente com um sucesso razoável. No documentário, é mostrada a fotografia a quatro estudantes universitários de Pequim. Nenhum deles a reconhece. “Parece uma parada ou coisa parecida”. “Não sei dizer nada sobre isto, não há contexto”.  “É uma obra de arte? Inventaram isto?”

Aparentemente, a ditadura vai bem e recomenda-se.

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