A campanha póstuma I – a abstenção

«Não percebo o compromisso rígido com a impotência.» – Lord Kerr of Kinlochard [ref]

Dita a propósito de outro assunto, a colorida expressão resume bem a postura de muitos face ao poder político. Dizer mal do poder político é um desporto nacional, mas ai de quem se atreva a fazer algo que possa eventualmente ser confundido com uma acção concreta: parece que é um colaboracionista. O abstencionista mantém a pureza ideológica virginal de quem não se comprometeu minimamente com uma opção, não estando assim constrangido no desígnio da maledicência.

Ainda hoje alguém que conheço confessou-se como abstencionista crónico: perto dos 30 anos de idade e nunca viu de perto uma mesa de voto. O pior é que argumentava que a abstenção devia contar como voto em branco. “Levanta o rabo do sofá e vai votar em branco!” foi a resposta unânime (das outras duas pessoas presentes, mas unânime). Já me incomoda o suficiente quando as televisões enfiam abstenção, brancos e nulos no mesmo saco. Ter isso feito por decreto era o cúmulo. Ouvi-lo a criticar o voto do outro elemento da conversa também não me gera simpatia.

Quem vota em branco deixa claro que até queria votar mas não concorda minimamente com nenhuma das alternativas. O voto nulo é tipicamente uma versão mais paranóica do voto em branco, em que se impede que alguém ponha lá uma cruzinha quando mais ninguém estiver a olhar. Nenhum destes dois é a minha escolha, mas são participações democráticas viáveis embora os seus efeitos directos sejam equivalentes à abstenção. Namoro há algum tempo a ideia de o voto em branco eleger lugares vazios, e gostei de vê-la aparecer recentemente. Não vamos confundir isto com quem pura e simplesmente não se dá ao trabalho, se viu impedido de comparecer por alguma razão, ou está apenas morto (o número de recenseados é suspeito). Não posso ouvir coisas destas:

«(…) uma amiga, com pouco mais de 30 anos, perguntara-me há dois dias: “Oh, Ana Paula, que taxa de abstenção é que obriga a anular as eleições?“… sorri… e respondi ao seu rosto surpreendido: “Nenhuma, Inês!“… Pois é… nenhuma!… e deveria talvez existir… não para impôr o voto aos eleitores mas, para obrigar os partidos a respeitarem o eleitorado, realizando campanhas esclarecidas e verdadeiras sobre o que, efectivamente, está em causa!(…) » – Ana Paula Fitas

A brincar ou não, que ninguém pense por um segundo em tirar-me o voto por causa de quem não é capaz de tirar uns minutos à sua atarefada agenda de domingo. Eu tenho as mesmas queixas, mas tento materializá-las de alguma forma (por mais inconsequente que seja). Isto é só uma forma mais extrema da ideia bastante disseminada de encarar a abstenção como um protesto. Um protesto é algum tipo de acção, e “não levantar o rabo” não é uma acção. É apatia. A apatia pode por sua vez ter alguma leitura política, mas não me interessa nem acho que mereça o meu interesse. Do outro lado do espectro de opiniões, também não concordo com isto:

«(…) O abstencionista é apenas um elemento anti-social, um oportunista que quer os benefícios da vida em sociedade e da democracia mas não estar disposto a mexer um dedo para dar a sua contribuição. O abstencionista não só cospe na cidadania como ainda por cima se orgulha disso.
Abster-se é tão mau como estacionar em segunda fila, como deitar cascas de laranja pela janela, como passar à frente na bicha do cinema, como meter cunhas na repartição, como violar a faixa bus, como desrespeitar o semáforo vermelho, como copiar nos exames, como urinar na piscina.
Terá o abstencionista razões para se chocar se alguém lhe chamar parasita?» – João Pinto e Castro

Concordo plenamente com o início (não transcrito), mas de resto eu até gosto do abstencionista. A não ser que esteja secretamente a planear marchar sobre Bruxelas ou São Bento, o abstencionista é inócuo. Quem estaciona em segunda fila chateia muita gente. Todas as acções descritas prejudicam os outros (e são acções). A abstenção não é nada disso. Votar é um direito e não um dever, ou pelo menos é assim que vejo as coisas. Longe de mim privar os outros de direitos, mas é legítimo abdicar deles. E há qualquer coisa de altruísta na abstenção.

A única coisa que me chateou no meu amigo abstencionista foi saber que se tivesse votado provavelmente não seria no PPE. De resto agradeço o gesto, como lhe expliquei. Quando só votam metade dos inscritos, o voto passa a valer o dobro. Se há quem em democracia prefira reduzir-se a arraia-miúda e delegar a tarefa para os outros, por mim tudo bem. Os eleitores tornam-se assim uma primeira camada de representatividade, elegendo o parlamento que por sua vez lá escolhe o presidente da comissão. Sinto-me até ligeiramente lisonjeado com o cargo.

Peço apenas aos abstencionistas que sejam coerentes com a sua condição auto-imposta de casta mais baixa da democracia: não se queixem; especialmente do voto dos outros.

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