A campanha póstuma II – desabafos

Parem com isso, a sério.

[parte de uma conversa há duas semanas]

A: Esta campanha tem sido um nojo…

B: Não a achei muito diferente das outras.

A: Precisamente.

A campanha para as europeias foi péssima, se é que se pode dizer que existiu. Tresandou por todos os poros a prelúdio das legislativas. Para dizer a verdade nem sei bem o que pertenceu à pré-campanha em curso para as legislativas e o que era efectivamente destinado às europeias. Não sei quando começou esta obsessão com os ‘cartões amarelos’ (que já foram promovidos a vermelhos), mas é algo incrivelmente estúpido num ano em que vamos ter mais duas eleições. São só mais uns meses para as legislativas, e grande parte da espera será em silly season (passa num instante!). Há assuntos nacionais que podem ser transportados para a Europa, mas levar as coisas a este extremo é ridículo. Fora esta particularidade das europeias, as campanhas vagas merecem o mesmo comentário que quaisquer outras: relaxem no pathos e apostem um bocadinho no logos, se faz favor. Houve muita parvoíce e os cartazes foram penosamente exemplificativos. Prometo que as minhas críticas serão tão edificantes quanto a  campanha.

PSD

O PSD foi quem mais abertamente prosseguiu a estratégia de fusão entre legislativas e europeias, integrando a campanha para as europeias na ‘política de verdade’. O cartaz inicial da campanha foi muito criticado pelo ar tristonho. Pessoalmente, com o menino guerreiro, o alto astral e os cartazes dos putos de olhos dengosos bem frescos na memória, taciturno foi uma lufada de ar fresco. Já o cartaz da linha SOS Suicídio da Manuela (“não desista, somos todos precisos”) foi levar o conceito um pouco longe demais.

Paulo Rangel entrou em cena como candidato europeu e prometeu interpelar mais José Sócrates, o que faz imenso sentido para o parlamento europeu. Nos cartazes assinava por baixo de slogans que não se percebia bem o que queriam dizer, ora exaltando a grande teta europeia ora defendendo as famílias portuguesas contra as famílias políticas. O inesperado resultado de Rangel apenas prova que o PSD decidiu exilar o seu maior trunfo para as legislativas no parlamento europeu. Resta por cá a dupla improvável Ferreira Leite e Santana Lopes para lutar pelas próximas eleições.

A campanha prossegue e eu ainda não percebi o que é isso da ‘política de verdade’. Deve ser algo do género de o Rangel ter votado a favor das mudanças no financiamento dos partidos quando de verdade estava contra, como veio dizer depois. Ou a Ferreira Leite que tanto criticava Santana Lopes, quando de verdade achava que era o homem certo para Lisboa.

PS

O PS entrou com o “Nós, Europeus”. Nós, europeus, temos lapsos de memória: a troca da data da assinatura com a data da entrada foi infeliz; atirar as culpas para a gráfica foi muito difícil de compreender. Foi a conjuntura a dar cabo do cartaz. Mesmo sem a falha o slogan é dolorosamente vago. “Vocês, europeus” responde o eleitor cuja opinião não conta na aprovação do tratado. Em retrospectiva, a escolha de Vital Moreira só pede uma pergunta: em que estava o PS a pensar?

A única coisa que me ocorre é chatear os anarquistas. Escreviam nas paredes “Avô Cantigas ao poder!”, nas europeias isso transformou-se numa posição política. De resto o PS achou que isto iria ser um passeio de domingo. Que campanha bonita, foi ver Vital a andar de caiaque, e mais tarde a visitar os amiguinhos dos tempos de escola. PS: já não estamos no tempo do governo de Santana, em que tudo o que era preciso fazer para ganhar umas eleições com maioria absoluta era, muito simplesmente, não ser o Santana Lopes. Subestimaram Rangel e deram-lhe força com o comentário infeliz da papa Maizena. Uma parca carreira política é encarada como uma bênção pelo eleitorado, a ‘classe política’ tradicional não está nas boas graças dos portugueses caso não tenham reparado.

Depois há também a brilhante ideia de acumular nomes na lista das europeias e nas autárquicas, e depois justificar que iam só lá picar o ponto e voltavam. Brinca-se com o eleitorado até certo ponto, espero que alguém tenha aprendido alguma coisa com os resultados. Houve ainda o lançar do imposto europeu para a discussão sem moldes concretos. Nada como ouvir falar na criação de um imposto para motivar um eleitor. Para finalizar, Vital veio gesticular contra a “roubalheira” no BPN. Um valente tiro no pé, não por causa do Freeport como alguns invocaram, mas porque remete para a pergunta: porque decidiu um determinado partido afundar 1,5% do PIB nessa roubalheira sem relevância para a economia? Não é o tipo de atitude que se quer exportar para a Europa.

Os pequenos

Isto já vai longo e não vai haver tanto espaço para os partidos pequenos. Quanto à CDU, aka o PCP mais o gajo dos verdes,  continuam no costume e o slogan foi genérico o suficiente para servir todas as campanhas. “Sim é possível – uma vida melhor”, e lá continuam eles a perseguir a utopia comunista, arrebanhando os descontentes que não se importem com a falta de ideias económicas sustentáveis. Recentemente houve quem no PCP visse na efeméride de Tiananmen uma tentativa de denegrir o comunismo em plena campanha eleitoral, em claro ataque ao PCP. É bom ficar a saber que mantêm essa visão de uma vida melhor.

O BE insistiu no previsível “Porreiro para quem, pá”. Já desde a história do cherne que não esmifravam tanto um soundbite. De resto o maior pecado foi a insistência em tentar competir com o PCP quando se deviam focar mais no centro-esquerda. Nota positiva no entanto para a série fantasbloco. Entre parvoíce intencional e parvoíce involuntária prefiro sempre a primeira, e há o bónus do valor cinematográfico da coisa.

O CDS foi o campeão em campanhas parvas. “Não andamos a brincar aos políticos”. “Não andamos a brincar com os agricultores”. Eles não brincam, e nada diz mais seriedade do que uma pose à Mr T. Descobrimos ainda que querem “dar tudo por Portugal”, demarcando-se claramente de Rangel (por exemplo) que apenas assina por baixo pelo “interesse nacional”. Acabada a campanha e passada aquela inicial euforia de estar vivo, vieram com a ideia magnífica de censurar sondagens. Algo inaudito desde Santana Lopes, que mesmo assim acho que não foi tão longe. A seguir apostaram numa moção de censura a escassos meses das legislativas e contra um governo com maioria absoluta. Não sei se aguento tanta seriedade, ainda bem que não estão a brincar aos políticos.

Os micropartidos

Duas estreias nos micropartidos, e sendo com centristas é à partida positivo. O MEP destacou-se coms os seus valores católicos e ideias para a economia a puxar a à esquerda, nem sei porque ninguém se lembrou disso antes. Não deve fazer nada de bom ao país, mas tem potencial para vender que nem bolinhos quentes. O MMS tem falhas estruturais importantes: nome e símbolo. À primeira vista parece sempre um anúncio da tmn. Também podiam mostrar ideias concretas, mas é só uma sugestão. A meritocracia é algo bastante unânime, o diabo está nos detalhes.

Quanto aos restantes restantes partidos, assisti à campanha televisiva exclusivamente via youtube, o que significa ignorar 90% dos tempos de antena. Por acidente acabei por olhar para um cartaz do MPT. Parece que com a conversão do PP e afrouxamento do PCP são os eurocépticos por excelência. De resto, tal como os outros, não tive de ouvi-los e obrigado por isso. Para os micropartidos mais antigos: está na altura de morrer. O eleitorado já deixou claro que não precisa da vossa laia e o boletim de voto começa a ficar atulhado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s