Revolução iraniana?

Isfahan

Não sei se lhe quero atribuir o estatuto de revolução, mas a verdade é que os eventos decorrentes das eleições de dia 11 parecem ter dificuldade em cingir-se à categoria de protestos. As manifestações prosseguem, apesar da sua ilegalização, das prisões e até das mortes. Os familiares de pessoal da embaixada britânica estão a deixar o Irão.  Foi noticiado que o governo iraniano já está em falta num compromisso com países do G8, o que revela a sua insegurança.

Fraude

«(…)There is no chance for voters to register their opposition to the theocratic system or tell the ayatollahs to go back to the mosques. The candidates have been carefully screened to exclude anyone opposed to the ruling clerical establishment; each is part of the Islamic Revolution’s old guard.
Nor is it likely that the votes will be fairly counted; indeed most analysts concluded that the 2005 election was manipulated to produce Mahmoud Ahmadinejad’s presidential victory. Vote destruction and ballot stuffing are easy in a hidden process controlled by the Interior Ministry. And if all else fails, the 12-man Guardian Council has the power to throw out the results in districts where there were “problems” — problems like a reformist victory.
(…)» Elliot Abrams – Lebanon’s Triumph, Iran’s Travesti, op-ed no NYT 11/Jun/2009

Este editorial do dia das eleições lembrava que a euforia verde não garantia nada no Irão. Tudo indica que terá ocorrido de facto uma fraude eleitoral.

A vitória tão folgada (63%) do actual presidente levanta à partida suspeitas. As sondagens davam vitória a Mousavi, que mesmo assim necessitaria de uma segunda volta. Segundo vários relatos de jornalistas, a oposição a Ahmadinejad era avassaladora, não só nas cidades como também no Irão rural. No país com dois terços do eleitorado abaixo dos 30 anos não era de esperar um voto a favor dos mais conservadores.

Walter Mebane, professor dos departamentos de Ciências Políticas e de Estatística da Universidade de Michigan, analisou o caso comparando os resultados discriminados das eleições de 2005 e 2009. Entre as conclusões do relatório que elaborou pode ler-se:

«(…) In general, combining the first-stage 2005 and 2009 data conveys
the impression that while natural political processes significantly contributed to the election
outcome, outcomes in many towns were produced by very different processes. The natu-
ral processes in 2009 have Ahmadinejad tending to do best in towns where his support in
2005 was highest and tending to do worst in towns where turnout surged the most. But
in more than half of the towns where comparisons to the first-stage 2005 results are feasi-
ble, Ahmadinejad’s vote counts are not at all or only poorly described by the naturalistic
model. Much more often than not, these poorly modeled observations have vote counts
for Ahmadinejad that are greater than the naturalistic model would imply
. While it is not
possible given only the current data to say for sure whether this reflects natural complexity
in the political processes or artificial manipulations, the numerous outliers comport more
with the idea that there was widespread fraud than with the idea that all the departures
from the model are benign.
»

Recentemente o Conselho de Guardiães admitiu que em cerca de 50 cidades houve mais votos que eleitores. Estranhamente terão achado que isto ajudaria a afastar a ideia de fraude, por Mousavi ter dito que eram 170 as cidades com esta irregularidade.

Junte-se a isto as suspeitas que já existiam nas eleições anteriores, quando Ahmedinejad foi eleito pela primeira vez:

«”I was personally witness to interference of Guardians Council monitors’ serious interference in voting stations where I was commissioned to survey the sound process of election,” Ali Mirbaqeri, the managing director of the Interior Ministry’s Majlis Affairs, told IRNA.» (CNN)

Ali Mirbaqeri terá sido preso por protestar com o que achou ser uma fraude eleitoral. Nestas eleições voltaram a haver afirmações semelhantes por parte de funcionários do Ministério do Interior, e fala-se inclusivamente de uma fatwa permitindo a falsificação de votos emitida por Mesbah Yazdi. Yazdi é o mentor de Ahmadinejad e principal figura da ala mais radical (ainda mais que os radicais) do Irão, fortemente ligada com os Pasdaran.

Perante tudo isto sinto-me incomodado cada vez que vejo alguém propor que não terá havido fraude, que quem protesta são as elites e que o eleitorado rural (35%) deu a vitória a Ahmedinejad. Num op-ed do New York Times um estudante de Teerão exprime também o seu desagrado:

«(…) To our great dismay, what we find is that in important sectors of the American press a disturbing counternarrative is emerging: That perhaps this election wasn’t a fraud after all. That the United States shouldn’t rush in with complaints of democracy denied, and that perhaps Mahmoud Ahmadinejad is the president the Iranian people truly want (and, by extension, deserve).

Do not believe it. Those so-called experts warning Americans to be leery of claims of fraud by the opposition are basing their arguments on an outdated understanding of Iran that has little to do with the reality of what we here are experiencing during these singular days. (…)»

Revolução ou uma mera mudança?

O outro Irão, aquele que sente o sufoco da teocracia e não se revê nos ayatollahs, faz-se ouvir. É o Irão do álcool contrabandeado, rock clandestino e dos prazeres culpados da intimidade. Ou talvez mais o de quem apenas quer uma vida menos sufocada. É difícil saber onde está o centro de massa dos protestos, ou sequer se há massa crítica para uma revolução que traga uma democracia a sério. Uma coisa é certa: desde a revolução de 1979 que não se via tanta gente nas ruas nem uma intenção tão clara de induzir a mudança.

Os protestos face à fraude eleitoral são o culminar de uma onda de contestação que já se fazia sentir há algum tempo e teve manifestações pontuais. A 17 de Junho de 2005, pouco antes das últimas eleições presidenciais, houve um protesto de mulheres frente à Universidade de Teerão, algo inédito desde 1979, reivindicando o fim da descriminação:

Mais recentemente, em Dezembro de 2007, manifestações estudantis na Universidade de Teerão exigiam uma mudança de rumo no país:

Protestos na universidade de Teerão, Dezembro de 2007

Resta saber em que vai isto desembocar. Mousavi não inspira a mínima confiança. Este post da Ana Cássia Rebelo sobre Mousavi diz tudo o que tenho a dizer neste aspecto:

«(…) Dois anos depois da revolução, foi nomeado primeiro-ministro por Khomeini. Foi responsável, como presidente do Conselho da Revolução Cultural, pelo fecho de universidades, por uma revisão constitucional que permitiu a concentração de todos os poderes no líder supremo. Na época, conduziu uma política económica estatizante com declarada inspiração soviética. Foi responsável pela perseguição e morte de muitos presos políticos. Consta que apoiou a fatwa de Khomeini contra Salman Rushdie. No ano de 1988, quando ainda era primeiro-ministro, foram ordenadas execuções maciças de milhares de opositores do regime. Foram enterrados em valas comuns e convenientemente esquecidos pelo Irão e pela comunidade internacional. Não se sabe o número exacto de quantos iranianos morreram no Verão de 1988. A Amnistia Internacional aponta entre 4000 e 5000 mortos.(…)

(…) Hoje defende uma economia de mercado e mais liberdade. Porém, bem vistas as coisas, só pode ser considerado moderado e reformista quando comparado com o ultraconservador Ahmadinejad. O que faz toda a diferença. Eu também posso ser considerada um torpedo de mulher se me compararem com a Susan Boyle. (…)»

Quero só acrescentar que Mousavi é um ávido defensor do programa nuclear iraniano. Graças à pré-selecção do Conselho de Guardiães sobre os cerca de 500 candidatos iniciais (ref), entre os quais muitas mulheres, basicamente restou aos iranianos escolher entre quatro baldes de merda. Mousavi e Karroubi são os que cheiram menos mal. A teocracia de Ahmadinejad é muito mais sufocante que a teocracia que Mousavi quer.

Agora que a questão saiu para fora do limitado sistema eleitoral iraniano resta saber o que querem as pessoas e até onde estão dispostas a ir. Se estivermos a falar de ter alguns direitos humanos, Mousavi é uma via possível e talvez a que implique menos violência. Se estivermos a falar de democracia tem qualquer coisa de Goldstein.

Há esperança?

Achei interessante este post de Michael Hirsh:

«Now that they’ve had their bloody crackdown, the next step for Iran’s mullahs is economic reform. That, after all, is the “China model” they’ve been talking about in Tehran for years. If we give the people a taste of the good life, it will take their minds off political freedom and we’ll get to keep our authoritarian regime. The problem is, there is very little evidence that Ayatollah Ali Khamenei and Mahmoud Ahmadinejad have any clue how to reform and open up their economy the way Beijing’s mandarins did after 1989. Or that they want to even try. (…)»

Já Mousavi parece mais que disposto a seguir essa via. Ainda acalento a esperança de isto resultar numa revolução que eleve o Irão a democracia, e não apenas uma versão mais branda da teocracia (ou a mesma linha dura). Claro que aqui há que ter reservas.

«The government’s strategy appears to be Tiananmen in slow motion: the application of low-level but steady violence in the hopes that the protesters will eventually give up. There are some signs that the strategy is working. Protests continued Saturday night and Sunday, but the numbers are down. (…)

The Iranian government is dominated by a generation that remembers not only the Revolution of 1979, but more immediately the Iran-Iraq War with its million Iranian dead. The basijis who are doing the skull-cracking and shooting now are the same force that launched suicidal human wave attacks against much better (American) armed Iraqi forces in the marshes. In other words, this is a regime that has no trouble accepting casualties and has the forces available that are ready to both inflict and absorb much, much more. If one must have a Chinese analogy, we might be seeing the beginning of an Iranian Cultural Revolution rather than the next Velvet Revolution.»

Resta-me acrescentar que uma parte significativa das ondas humanas enviadas sobre campos minados  eram menores desarmados encarregues de encontrar uma arma no campo de batalha. Mesmo que haja vontade na população de levar a mudança mais longe (há pelo menos uns laivos disto), se for posta em causa a revolução islâmica a repressão terá outra magnitude. Não me esqueço da última vez que pensei estar a ver uma revolução, nem da forma inglória como acabou.

Mas era bom que isto resultasse em algo mais. Podia ser o início de uma nova vaga.


One response to “Revolução iraniana?

  1. Update, nova análise aos resultados eleitorais:

    http://news.bbc.co.uk/2/shared/bsp/hi/pdfs/22_06_09_chathamiran.pdf

    «In a third of all provinces, the official results would require that
    Ahmadinejad took not only all former conservative voters, all former
    centrist voters, and all new voters, but also up to 44% of former
    Reformist voters, despite a decade of conflict between these two
    groups.

    · In 2005, as in 2001 and 1997, conservative candidates, and
    Ahmadinejad in particular, were markedly unpopular in rural areas.
    That the countryside always votes conservative is a myth. The claim
    that this year Ahmadinejad swept the board in more rural provinces
    flies in the face of these trends.»

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s