Monthly Archives: Maio 2011

Blame it on the PIGS?

«Of four cucumbers found to be carrying the bacteria, three came from two separate Spanish suppliers and the fourth was listed as an organic project whose place of origin was unknown.» (Food Poison Journal)

«According to health authorities in the United Kingdom, organic cucumbers from the Spanish provides of Almeria and Malaga have been identified as the sources of the outbreak, but that a third batch of cucumbers originating from the Netherlands and distributed in Germany is also suspect.» (Food Safety News)

Esta parece ser toda a informação que permitiu que se difundisse a notícia (com origem nas autoridades alemãs) de que a causa do surto de intoxicações está em pepinos espanhóis. São causadas por uma estirpe de E.coli 0104:H4 (ref), capaz de produzir toxinas do tipo Shiga, e tipicamente encontrada em fezes de gado. A contaminação pode ter ocorrido na produção, transporte, manuseamento ou armazenamento.

Sendo a Espanha o maior exportador agrícola da Europa, não seria de estranhar que a maior parte dos pepinos fosse espanhola. Seria necessário pelo menos informação sobre a proporção de pepinos espanhóis na amostra recolhida antes de se poder avançar com correlações com o país de origem. Para além disso é estranho ainda não terem surgido casos em Espanha; e onde surgem parece haver outro factor:

«”The source of the outbreak is under investigation, but contaminated food seems the most likely vehicle of infection,” [the European Centre for Disease Prevention and Control] said.
Most of the patients are from, or have been to, northern Germany, primarily Hamburg, Northern Lower Saxony and Mecklenburg-Western Pomerania, it said.
Cases have been reported in Sweden, the United Kingdom, Netherlands and Denmark among people who have visited Germany, most of them northern Germany, it said.» (CNN)

Pode ser que a culpa seja mesmo de produtores em Espanha, mas para já a informação disponível não aponta nessa direcção. Espanha vai tendo razões para protestar.

da alternância democrática

se algo se tornou claro nos últimos tempos é que a manutenção do sistema vigente é demasiado destrutiva para continuar a ser tolerada

No Horse (Dead Weather)

 

 

No PP?!

Há umas semanas alguém me propôs votar no PP depois de eu desabafar o quão más eram as candidaturas para formar governo. Fiquei estupefacto. Nem sequer tinha resposta pronta para além de voltar a perguntar “No PP!?”.

Seria de pensar que quem fez a sugestão me conhecesse bem o suficiente para saber que era incapaz de votar num partido conservador da “democracia cristã”. Mas o meu problema com o PP nem é esse; é ainda me lembrar do que fizeram no governo passado.

A breve participação do CDS-PP no último governo de coligação deixou marcas. Uma delas é o caso dos submarinos, com os milhões que alguém se esqueceu de descontar à factura, os milhões pagos pela Ferrostaal à ESCOM e a que se perde o rasto algures nas ilhas Caimão, e ainda o dinheiro (certamente não relacionado) que aparece magicamente numa conta do CDS.

Outra é sem dúvida o caso Portucale, que para além de envolver figuras do PP (as mais sonantes infelizmente poupadas ao banco dos réus) tem ainda em comum com o caso anterior o envolvimento destacado do Grupo Espírito Santo (em cujas mãos Abel Pinheiro terá sido apanhado em escuta telefónica a dizer que pusera cerca de 400 milhões).

Nada mau para uma tão breve e modesta participação num governo. O PP é o pior dos três mundos: consegue aliar um populismo inconsequente tipicamente associado à esquerda, o conservadorismo tacanho da direita e os interesses obscuros mais típicos do centro. Num período de grande descontentamento com o PS, cresce à conta da inépcia do PSD.

Resta perceber porque as mesmas pessoas que se escandalizam com os casos de Sócrates acabam a defender o partido de Portas como se se tratasse de um bastião de seriedade. Talvez porque à mínima referência a delapidações ao erário ou falta de transparência Portas consegue aparecer com aquela cara indignada de virgem num bordel. É para já o grande vencedor das sondagens.

Abstenção

a propósito deste comentário; imagem roubada (e mutilada) a gui castro felga

Outra coisa que os Finlandeses deviam saber sobre Portugal…

…é que cá não se pode confiar no que um órgão da administração pública diz. Este vídeo é assinado pela câmara de Cascais:

Vale muito a pena ler a errata publicada no The Extraordinary Life of Steed. Espero que ninguém tenha enviado o vídeo aos finlandeses.

Uma cisão no BE seria positiva

Quando o Bloco de Esquerda apareceu o seu nicho parecia-me óbvio: ser a esquerda liberal séria, dos que não se reviam no PCP e viam o PS demasiado comprometido com o status quo. O PCP, ideologicamente tão decrépito como a foice e o martelo que lhe adornam a bandeira, que ficasse com a outra esquerda. A esquerda dos dogmas bolorentos, anti-americanismo primário, falsas dicotomias e cartilha pré-digerida, ocupada a reivindicar seja o que for sem a mínima consideração de sustentabilidade.

Infelizmente não foi sempre este o caminho que decidiu seguir. O caminho da contestação é mais fácil. Se um certo populismo era quase compreensível na altura de conquistar um espacinho no parlamento, por vezes parece que as únicas diferenças entre BE e PCP são apenas de ordem estética. Tornou-se um partido esquizofrénico que ora consegue piscar o olho aos moderados desiludidos com o centro ora se perde no folclore demagógico à desgarrada com os comunistas. É difícil continuar assim indefinidamente. O BE cresceu depressa mas estagnou, e agora não sabe bem para que lado há de crescer.

Na minha opinião não se saiu bem com Alegre porque era um mau candidato. Para a Ruptura-FER, corrente contestatária no seio do Bloco, o grande crime foi ter-se aproximado do PS em vez do PCP. Ofendido, o BE decidiu avançar com a infame moção de censura.

O BE tem a maior taxa de moções de censura por ano. Se não me engano tem tido quase uma a cada dois anos. Há quem ache que têm simbolismo, mas para mim uma moção que não tem como objectivo derrubar um governo é masturbação política. Este tipo de circo só afasta o eleitorado mais centrista, não espanta que tenha continuado a cair nas sondagens.

Com a chegada do FMI perdeu mais uma oportunidade de mostrar alguma maturidade e apresentar as suas propostas. Decidiu antes  juntar-se à birra alucinada do PCP, não fossem os comunistas acusá-los de colaboracionismo. O BE até aparece às vezes com propostas interessantes mas insiste em bradá-las ao vento em vez de as apresentar quando podem ter alguma consequência. Prefere ter uma utopia abstracta eternamente na gaveta a rebaixar-se em compromissos para ver uma medida concreta materializar-se. Parte das críticas que fiz a abstencionistas aplicam-se a este tipo de atitude.

O Ruptura-FER quer um BE que seja um sucedâneo de PCP: contestação enlatada e pronta a requentar. Infelizmente Gil Garcia, à frente do movimento, afirma não querer avançar com um cisma. É uma pena, porque olhando para o seu site vemos o que está errado no Bloco. Uma cisão podia deixar para trás um partido sério.

Escrevo isto porque cheguei à conclusão que a única vez que não me arrependi minimamente do meu voto foi quando votei no BE para as europeias com o objectivo (improvável mas atingido) de ter Rui Tavares no Parlamento Europeu. Faz parte da esquerda ponderada, o tipo de esquerda que gostava de ver a dominar o BE. Ouvir Rui Tavares e Daniel Oliveira a contestar a infeliz moção de censura faz-me crer que há a possibilidade de o BE sair da adolescência. Mas duvido.

Dos partidos com lugar no parlamento há dois que nunca tiveram e o mais certo é nunca virem a ter o meu voto: PCP e PP, por marcadas diferenças ideológicas. Nestas eleições também me sinto incapaz de votar em qualquer um dos outros três, mas gostava de ver isso mudar no futuro. Ao preferir a rua, o BE não está a ajudar.