Monthly Archives: Junho 2011

Hoje descobri que sou pobre, mesmo pobre

Só hoje li o maravilhoso artigo de opinião de José António Saraiva no Sol. Nele fiquei a saber que a classe média em Portugal anda de Mercedes Classe E, veste Armani, bebe vinho francês, cerveja importada, água Vichy, festeja com Moët & Chandon e viaja em primeira classe para pernoitar em hotéis de 5 estrelas. Portanto para ele a solução para sair da crise é simples: esta classe média que endivida o país tem de cortar nas pipocas. Comprar um classe C, por exemplo (a sério, diz mesmo isto). É isso e os restaurantes servirem doses mais pequenas (mais uma vez, não estou a inventar). Este homem é um génio!

Parece que José Antóni0 Saraiva dá 400€ por uma par de sapatos que nem viu antes se eram confortáveis; nem sequer quis saber do preço antes de os mandar embrulhar. Isso de ter em conta o preço das coisas antes de comprar só os muito pobres é que o fazem. Eu vou continuar com o meu utilitário japonês, a comprar vinho alentejano por menos de 5€ e a beber água da torneira, mas agora com o orgulho de ser mais asceta que um monge tibetano. Como diz um dos comentários: «Não fosse um artigo online se calhar também conseguia poupar no papel higiénico.»

Distribuir os anéis enquanto perdem os dedos

Futuro sombrio

Qualquer comparação entre Portugal e Grécia tem de ser feita com muitas reservas. Os problemas estruturais que partilham são muito mais exacerbados na república helénica, mas é difícil resistir a ver uma certa aura de profecia nestes parágrafos da Spiegel:

«(…) The outcome of the efforts to date, at any rate, has been sobering, despite everything the Papandreou government has done. It has trimmed the salaries of government workers, increased taxes considerably, raised the retirement age and publicly denounced tax evaders. Nevertheless, the country is still on the brink of disaster. There is a growing sense that it was all for nothing, says Dimitrios Daskalopoulos of the SEV employers’ association, “and that we are back where we started.”

Daskalopoulos doesn’t believe that the government did everything it could. In fact, he says, it failed in its most pressing task: reforming the massive government bureaucracy.»  (A Fatally Flawed Recovery Plan: Greece Back on the Brink )

As medidas fáceis como o corte de salários na função pública e a subida de impostos foram implementadas. A prometida reforma administrativa ficou na gaveta (porque é tudo menos linear). A austeridade passa ao lado de monopólios no lusco-fusco entre o público e o privado. Os sindicatos vão-se entrincheirando nos seus direitos adquiridos e introduzindo entropia adicional. O PIB desce decididamente. A dívida pública continua a subir. Os encargos com juros aumentam. O défice orçamental continua insustentável. Os 110 mil milhões do empréstimo vão-se esfumando.

Penhoras antecipadas

Sem grandes surpresas, avança-se para mais um empréstimo, desta vez entre 60-70 mil milhões, sem o mínimo sinal de que a Grécia se tenha aproximado da sustentabilidade. Num surrealismo taciturno Merkel  assumiu esta segunda-feira o nobre objectivo de adiar para 2013 a reestruturação da dívida grega não fosse a zona euro ficar mal na fotografia. De caminho também deixou claro que Portugal e Grécia deviam avançar com privatizações para reduzir a dívida e “aumentar a competitividade“.

Estão previstos na Grécia 50 mil milhões de euros em privatizações para os próximos anos; o único entrave a um avanço mais célere parece ser a inépcia burocrática. Por cá consta que ainda queremos ir mais longe que o prescrito pela tríade. Dita a lei internacional que os bens de um estado soberano não podem ser penhorados, admitida a bancarrota sobraria apenas a reestruturação. No caso grego inova-se para proceder às privatizações, cedendo o papel que competiria ao Estado. Triste golpe para a democracia, poeticamente dado no seu berço.

Europa sem rumo

Tentando salvar a sua posição política na Alemanha, Merkel voltou este mês a falar do desejo de envolver credores privados no ‘resgate’ financeiro. Já fala nisso desde o ano passado, e para além da aparente correlação com a subida das taxas de juro nos países do costume não parece ter tido qualquer consequência prática. Entretanto os empréstimos da tríade vão permitindo passar a dívida de credores privados para credores públicos.

Nos EUA, cuja dívida pública se assemelha à portuguesa, vai surgindo preocupação com o efeito de contágio para a economia americana do possível descalabro da economia da zona euro. Esta última parece continuar convencida de que esta fuga para a frente permite estancar a crise nos países periféricos. Hoje Obama apelou a Merkel para tomar a liderança na resolução da crise europeia. Se calhar isso é parte do problema.

Escaping the Clutches of the Financial Markets (Spiegel)

«(…) This is what is so disturbing about the current situation: the fact that politicians seem so helpless and powerless. They have been given a new master, and it’s not us, the people, who tend to intervene in milder ways. Rather, it’s the ruthless financial markets. The markets drive politicians even further into anxiety, weakness, incapacity and lies. Those who govern us are now being governed by the banks. That’s the situation.
(…)
As such, it isn’t just the banks that are at fault for the current disaster. Politicians also deserve their share of the blame. But that isn’t the whole story either. We, the citizens, are also culpable. Don’t we expect high returns from financial institutions, and don’t we expect a smaller tax burden from the government while receiving generous subsidies and social benefits?
(…)
The banks and investment firms now play the role once held by the gods. Hardly anyone dares to criticize them, and fear of their wrath guides the behavior of politicians. Many are reluctant to speak frankly, while others seek refuge in lies.
Under such conditions, democracy has lost its dignity. And that is dangerous.
(…)
The banks have no reason to be boastful. They were saved, and they owe their survival to politicians. If politicians had not acted in 2008, possibly even more banks would have collapsed. Now the financial industry must do its part to rescue endangered nations. (…)
Politicians should impose tougher rules on the banks so that the worst excesses of investment banking are no longer possible. (…)
Politicians should also liberate themselves from the embrace of the banks. This is only possible if the practice of taking on massive debt finally comes to an end. Only a largely debt-free nation is a sovereign nation.
(…)
Democracy was originally a project of the somewhat affluent who wanted political influence so that they could shape their own lives. That’s why they made themselves into the sovereign power. This idea is still seductive today. It removed people from the role of the economic subject that strives for things and is productive, but has no say in the way things are run. It was only when humankind took responsibility for the whole that dignity and sovereignty were obtained. And to remain sovereign — or to become sovereign again — we must consider our responsibility for the whole when taking action and making demands.» – Dirk Kurbjuweit, Escaping the Clutches of the Financial Markets (Spiegel)

Too sad to watch

«(…) the agreement with Portugal, as laid out in the draft MoU, is overwhelming in scope. The implied message from the troika seems to be that the approach is failing in Greece and Ireland because it did not go far enough. (…)

More importantly, the agreement has serious issues of process and substance, of which four should be emphasized:

First, there is no discussion of the causes of this crisis, what led Portugal to this situation. It is like going to a doctor seriously ill, and coming back with no diagnosis of the illness but instead with 222 different prescriptions (…)

Moreover, given the sheer number of measures, there is no way that a future government, regardless of the party in power, will be able to fully meet the terms of the agreement. The government will likely miss several targets fairly early in the program and this will call its competence into question with its European Union partners, unnecessarily, but perhaps by design.

Second, the agreement does not ask nor respond to the question of who was responsible for what went wrong.(…)

Who are the largest debtors now unable to pay? Answer: in Portugal’s case, the government and the banks.(…)

Who are the largest creditors now afraid of not getting their money back? Answer: large banks and insurers in a number of countries and the Eurosystem (…) So these creditors also made mistakes.

Third, the agreement focuses on the minutiae, on far too many wishful thinking ideas in a cross-section of areas (…) The large number of measures precludes any serious attempt to evaluate their individual effectiveness. (…)

Finally, the policy measure with the largest economic impact is not correctly implemented. Specifically, in dealing with the Portuguese banks, whose combined liabilities represent 250% of GDP, the agreement does not adopt international best practice. (…) A strong and prompt bank resolution procedure would, among other things, impose losses on the creditors of failing banks and would force out failing banks’ management. Instead, the troika required the Portuguese taxpayer to further support the banking system with up to €47 billion (27.2% of GDP) between guarantees and capital increases.

Moreover, rather than replace failing banks’ management, following, for example, the practice of the US FDIC, the MoU (p.7) states that the capital increases “will be designed in way that preserves the control of the management of the banks by their non-state owners”. That is, the taxpayer will likely recapitalize the private banking system, in effect nationalizing it, and yet management control will remain with the old owners. (…)

The idea substantiated in the MoU that an entire country can be reengineered – notwithstanding its faults, the World’s 38th biggest economy – based on a 3-week 34-page outline is remarkable. The agreement seeks to reinvent the wheel and in the meantime destroy what does work. This treatment of Iceland, Hungary, Latvia, Greece, Ireland, and Portugal is beginning to seem like the West’s version of China’s Great Leap Forward: impossible targets based on but pure ideology. It is simply too sad to watch. » – Ricardo Cabral (The Portuguese Economy)

Ainda a tempo de uma declaração de voto (com reservas)

Já deve ter dado para perceber que faço uma interpretação bastante liberal do dia de reflexão — liberdades de um blog com pouca audiência. E enquanto não me for deitar ainda é sexta. Sábado não deverão haver referências directas.

Muita gente não acredita no sistema e tem razões para isso. Partir daí para a abstenção (ou para o igualmente inócuo voto branco/nulo) já não tem grande justificação. Em 17 partidos há de haver um que nalgum aspecto é menos mau que os outros.

Há que esquecer a obstinação sebastianista de esperar por um partido que nos represente plenamente. Às vezes é preciso encarar o processo eleitoral numa perspectiva darwinista. Decidir quais são as características realmente importantes e quem está perto de as ter, e dar-lhes o voto com a esperança de que evoluam na direcção certa.

Dito isto, há um partido que se tem distinguido na denúncia de casos de corrupção e favorecimentos de interesses privados à custa do erário (os grandes cancros deste país). Que sempre denunciou as PPPs. Que tem propostas concretas e exequíveis em defesa da justiça fiscal, combate à evasão fiscal, e tributação de sectores que sem produzir valor acrescentado absorvem capital que deveria ir para a parte saudável da economia. Que nas questões de “valores” se aproxima mais de mim e defende a liberdade individual. Que se opõe ao tratamento especial dado à religião católica. Que sabe que o aumento da competitividade pelo corte no custo dos recursos humanos é pernicioso. Que compreende a insustentabilidade da estratégia actual de combate à dívida externa.

Em suma, há um partido que apesar dos seus defeitos é o que me resta. Agora é esperar que amadureçam e principalmente que não voltem a repetir o último erro de não participar numa negociação. Porque estou a votar por muitas razões, e nenhuma delas é não querer ser representado.

Não! Não! Desta é que é!

Ouvir hoje Passos Coelho a falar em emagrecer o Estado como se tivesse descoberto a pólvora fez-me lembrar outro governo de coligação.

Não ponho os dados do último executivo socialista porque já entra no domínio da pornografia. Mesmo com a quebra de recorde nas receitas fiscais e os encargos adicionais com a segurança social dificilmente se justifica. Já nem seguindo a inglória receita de vender tudo o que implique receitas a curto prazo e encargos futuros se deu para disfarçar.

Chega a um ponto em que não há receitas extraordinárias que nos salvem. Já com pouco por delapidar vamos agora avançar para privatizações de monopólios naturais. Ainda se lembram quando nos queixávamos do despesismo de Guterres? Aaah, bons velhos tempos! Nunca mais voltámos a ter tão pouca despesa pública.

Gostava de também acreditar em Passos Coelho (e em fadas e duendes…)

Há já algum tempo que me tornei incapaz de reeleger Sócrates. E bem que me tentei mentalizar para votar em Passos Coelho. Mas com o avançar do tempo cada vez se tornou mais óbvio que não o conseguiria fazer; e tenho dificuldades em perceber quem ainda é capaz de se entusiasmar com ele.

Bom gestor, mau político?

«(…) Sim, ele tem defeitos. É ineficaz na comunicação (quantos portugueses entenderam a sua utilização da palavra “utilities”, por exemplo?). Pessoalmente, acho-o um mau político. É mau a mentir, é mau a manipular, é mau a construir uma imagem sem substância. É mau a vender a sua experiência como gestor de empresas e tenta apresentar soluções complexas que aderem à realidade em vez de se limitar a repetir até à exaustão promessas lindas e vagas. Nesse sentido, eu penso que o Passos Coelho é um péssimo político até. No entanto, ainda não incumpriu uma única promessa, tem experiência do mundo fora da política e é um economista. (…)» – Rui Craveiro

Tenho a maior consideração por quem escreveu estas linhas. É uma pessoa ponderada e inteligente, e um dos modelos na minha vida profissional. Mas ou sabe algo que eu não sei ou cede ao wishful thinking.

O Não-Tão-Bom Gestor

Vamos então espreitar o fabuloso currículo de Passos Coelho no site que lhe deveria ser mais elogioso:

«(…)Em 1974, regressou para a terra dos seus avós, Valnogueiras, no concelho de Vila Real. Actualmente reside em Lisboa, é casado e tem três filhas.

É licenciado em Economia, pela Universidade Lusíada de Lisboa. Começou a trabalhar como professor do Ensino Secundário, acabando por se dedicar ao sector empresarial, sobretudo na área do Ambiente. Ingressou em 2004 no grupo Fomentinvest, como director financeiro, sendo desde 2007, administrador executivo. (…)» – Passos Coelho: Mudar

É estranho este salto de 30 anos numa biografia, mas quando se tenta passar a imagem de Passos Coelho como alguém com um background empresarial é a única forma de o fazer. Já não é novidade que só ingressou no curso de Economia da Lusíada já trintão, e que a Fomentinvest, grupo de Ângelo Correia, decidiu apostar desinterassadamente neste recém-licenciado para dirigir algumas empresas do grupo. Antes disso o que temos é essencialmente o típico percurso de apparatchik lusitano, entrando para a JSD aos 14 anos e fazendo carreira a partir daí. (ver currículo completo)

Empresas de gestão de resíduos com contratos de 10 anos firmados com autarquias… Não se pode dizer que houvesse muito a gerir, o que poderia correr mal? Bem, talvez isto:

«A 12 de Fevereiro de 2008 foi realizado um controlo das águas residuais, no ponto de descarga da linha de água afluente à Ribeira das Lamas. A inspecção deu conta de níveis muito superiores de sulfitos e sulfuretos, compostos de enxofre. A situação estaria fora da lei, e foi condenada pela Inspecção-Geral do Ambiente.

“Não se encontravam a ser cumpridos dois parâmetros relativos aos limites de emissão, sendo que, apesar de o valor limite para ambos [sulfitos e sulfuretos] ser de 1,0 mg/l, só é contra-ordenação quando ultrapassam 2,0 mg/l, o que largamente sucedeu no presente caso”, pode ler-se no acórdão do Tribunal Judicial da Golegã, a que o i teve acesso. A concentração de sulfitos obtida durante a inspecção foi de 34 mg/l SO3 e quanto aos sulfuretos foi obtida uma concentração de 27 mg/l. A empresa foi condenada, a 26 de Novembro de 2009, a pagar uma coima de 60 mil euros por contra-ordenação muito grave, tendo ficado ainda no processo que a Ribtejo agiu por negligência e não por dolo.» (ionline)

Exceder em 34x o limite legal de sulfitos é obra. Fico feliz por o tribunal ter considerado ser incompetência e não malícia. Não fico feliz é pelo futuro do país. Pelo menos há um ponto no programa de governo do PSD que fica claro: «Autonomização do subsector dos resíduos no seio do Grupo Águas de Portugal e implementação das medidas necessárias à sua abertura ao sector privado.» Ao menos sabemos para onde vai.

O Não-Tão-Mau Político

Enquanto político tem demonstrado uma desfaçatez promissora tendo em conta que ainda nem sequer subiu ao poder. Gostei particularmente da forma como justificou o seu chumbo ao PEC4 que precipitou a tão esperada queda do governo:

«A austeridade não deverá afectar o rendimento real disponível dos grupos mais desfavorecidos da nossa sociedade (nomeadamente pensionistas) ao contrário do previsto no PEC4.» (Programa PSD)

E no entanto não teve qualquer problema a assinar o memorando com a tríade. Descubram-se as brutais diferenças neste ponto entre o PEC4:

«Aumentar as pensões mais baixas em 2012, abandonando a aplicação da regra automática de indexação à inflação e ao IAS (Indexante aos Apoios Sociais). Será aplicado um corte das pensões acima dos 1500 euros, através da aplicação da Contribuição Extraordinária de Solidariedade» (Sol)

E o memorando:

«1.11 – Reduzir as pensões acima de 1500€ de acordo com a progressão aplicada aos salários do sector público em Janeiro de 2011 com o objectivo de conseguir poupanças de pelo menos 445ME;
1.12 – Suspender a aplicação de indexação de pensões e congelar as pensões, excepto para as
pensões mais baixas, em 2012;»

Em que é que o primeiro é mais penalizador para os pensionistas que o segundo? Não sei. Outro ponto implícito (mas claro) no programa do PSD é o aumento do IVA, onde também deu mostras de poder vir a estar à altura do seu antecessor no governo.

O Programa “muito técnico”

Se o programa do PS é justamente criticado por ser vago, estranho muito que a mesma crítica não seja dirigida ao programa do PSD. Os partidos do centro, que contam com a experiência acumulada de quem tem formado governos, têm obrigações acrescidas na criação de um programa. Particularmente o PSD, que já sabia que este mandato de Sócrates seria o último e talvez não chegasse ao fim. Estranhei ainda mais ver hoje Passos Coelho a dizer que “não há nada que ainda vai ser estudado”, que já têm tudo planeado. Eu era capaz de jurar que a compensação para a descida da TSU está definida no programa como «a estudar no âmbito do OE/2012». OK, neste caso o resto do programa não se esforça por esconder que será o aumento do IVA.

Gostava que revelassem o resto desses planos, porque perdi a conta da quantidade de referências a coisas que se vai racionalizar, melhorar, aperfeiçoar, dinamizar, apoiar, promover, apostar na promoção, aumentar a eficiência e propiciar o desenvolvimento sem explicar como. O primeiro programa de Sócrates era maravilhoso, também ia emagrecer o Estado e lançar a economia… o diabo está nos detalhes!

Veja-se isto:

«Promover a definição ou desenvolvimento das linhas mestras da estratégia de diferenciação e desenvolvimento dos sectores transaccionais tradicionais, no sentido de reforçar o valor acrescentado nacional (subida na cadeia de valor) e a competitividade externa na penetração nos mercados com elevado potencial de crescimento, além da execução de programas específicos para as empresas com potencial de crescimento; o desenvolvimento da penetração nos mercados internacionais em rede (cooperação entre empresas complementares); execução de programas específicos para as empresas com potencial de crescimento.» (Programa PSD)

Na prática traduz-se em quê? Não há nada de concreto, só boas intenções e no meio de tanta vacuidade até se repete. Como podem esperar que por exemplo alguém vote a favor de «tributação baseada em indicadores técnico-científicos por sector de actividade» sem ser minimamente explicado que indicadores são esses e como influenciam a tributação? Como funciona essa «utilização de incentivos à capitalização e auto-investimento das empresas orientadas para a exportação e para o investimento produtivo que substitua importações e crie emprego duradouro»? Que incentivos? Toda a gente quer mais investimento e emprego! Mas como?

…mas com espaço para deal breakers

Infelizmente há pontos em que o programa é suficientemente explícito para ser obsceno, como é o caso do IRS:

«Revisão do imposto, visando a simplificação do mesmo, com redução do número de escalões no médio/longo prazo, optimização dos benefícios e deduções, aproximação da tributação entre as várias categorias de rendimentos (…)» (Programa PSD)

Já temos um número baixo de escalões, que tributa da mesma forma quem ganha alguns milhares e quem ganha centenas de milhar de euros. Isto a que se propõem só tem três interpretações possíveis: a ou baixar os impostos nos escalões superiores, ou aumentá-los nos mais baixos, ou ambos!
E será que os que creem que este governo vai ser diferente dos anteriores repararam nisto:

«Promover 2-3 “mega projectos” empresariais de escala internacional em áreas de desenvolvimento prioritário (ex, Turismo Residencial) » (Programa PSD)

Os sobreiros que se cuidem, vêm aí os PINs…

Por alguma razão já desde Marques Mendes que o PSD não consegue ter algo que se assemelhe um líder decente. Se o PS foi sequestrado por Sócrates, no PSD os marionetistas gostam de ficar na sombra. Graças a Sócrates vão herdar o governo pelo descontentamento contra o governo anterior e não pelo que apresentam, tal como Sócrates antes tinha feito face a Santana. Eu estou farto de pactuar com esta alternância imbecil e auto-destrutiva, e que se lixe se há alternativas ou não. Este ano não há “voto útil” para ninguém.