Distribuir os anéis enquanto perdem os dedos

Futuro sombrio

Qualquer comparação entre Portugal e Grécia tem de ser feita com muitas reservas. Os problemas estruturais que partilham são muito mais exacerbados na república helénica, mas é difícil resistir a ver uma certa aura de profecia nestes parágrafos da Spiegel:

«(…) The outcome of the efforts to date, at any rate, has been sobering, despite everything the Papandreou government has done. It has trimmed the salaries of government workers, increased taxes considerably, raised the retirement age and publicly denounced tax evaders. Nevertheless, the country is still on the brink of disaster. There is a growing sense that it was all for nothing, says Dimitrios Daskalopoulos of the SEV employers’ association, “and that we are back where we started.”

Daskalopoulos doesn’t believe that the government did everything it could. In fact, he says, it failed in its most pressing task: reforming the massive government bureaucracy.»  (A Fatally Flawed Recovery Plan: Greece Back on the Brink )

As medidas fáceis como o corte de salários na função pública e a subida de impostos foram implementadas. A prometida reforma administrativa ficou na gaveta (porque é tudo menos linear). A austeridade passa ao lado de monopólios no lusco-fusco entre o público e o privado. Os sindicatos vão-se entrincheirando nos seus direitos adquiridos e introduzindo entropia adicional. O PIB desce decididamente. A dívida pública continua a subir. Os encargos com juros aumentam. O défice orçamental continua insustentável. Os 110 mil milhões do empréstimo vão-se esfumando.

Penhoras antecipadas

Sem grandes surpresas, avança-se para mais um empréstimo, desta vez entre 60-70 mil milhões, sem o mínimo sinal de que a Grécia se tenha aproximado da sustentabilidade. Num surrealismo taciturno Merkel  assumiu esta segunda-feira o nobre objectivo de adiar para 2013 a reestruturação da dívida grega não fosse a zona euro ficar mal na fotografia. De caminho também deixou claro que Portugal e Grécia deviam avançar com privatizações para reduzir a dívida e “aumentar a competitividade“.

Estão previstos na Grécia 50 mil milhões de euros em privatizações para os próximos anos; o único entrave a um avanço mais célere parece ser a inépcia burocrática. Por cá consta que ainda queremos ir mais longe que o prescrito pela tríade. Dita a lei internacional que os bens de um estado soberano não podem ser penhorados, admitida a bancarrota sobraria apenas a reestruturação. No caso grego inova-se para proceder às privatizações, cedendo o papel que competiria ao Estado. Triste golpe para a democracia, poeticamente dado no seu berço.

Europa sem rumo

Tentando salvar a sua posição política na Alemanha, Merkel voltou este mês a falar do desejo de envolver credores privados no ‘resgate’ financeiro. Já fala nisso desde o ano passado, e para além da aparente correlação com a subida das taxas de juro nos países do costume não parece ter tido qualquer consequência prática. Entretanto os empréstimos da tríade vão permitindo passar a dívida de credores privados para credores públicos.

Nos EUA, cuja dívida pública se assemelha à portuguesa, vai surgindo preocupação com o efeito de contágio para a economia americana do possível descalabro da economia da zona euro. Esta última parece continuar convencida de que esta fuga para a frente permite estancar a crise nos países periféricos. Hoje Obama apelou a Merkel para tomar a liderança na resolução da crise europeia. Se calhar isso é parte do problema.

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